Anarquia Literária

Publicado em: 17/12/2012

O que é o crime? Na minha humilde concepção crime é qualquer ato que o homem comete, ferindo o direito de existir do outro. Não necessariamente tirar-lhe a vida, mas lesando-o de alguma forma, como num assalto, num estupro. Essa é a concepção de um leigo. Vale recorrer ao dicionário. José Louzeiro, autor de Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia tem outra visão da criminalidade. Para ele, o criminoso pode ser alguém com sonhos, que demonstra bondade em certos momentos e até tem amor no coração. Já para Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, a criminalidade ganha outra perspectiva. Os criminosos dele têm a boca suja, soltam muitos palavrões. São viciados em droga, matam e roubam até os caminhões de gás.

Cidades de Deus, e Lúcio Flávio pertencem a um hall de obras da literatura em que o leitor acompanha de perto a vida dos bandidos. Não são heróis comuns, como os que respeitam as leis. Nessas obras, os fora da lei aparecem em primeiro plano. Nas situações de conflito desses personagens, o leitor chega a torcer pelos bandidos e a lamentar suas repentinas mortes. Nas situações de risco, como nos confrontos com a polícia, o leitor além de cúmplice, tem a expectativa de que o bandido saia vencedor.

Apesar de abordarem uma mesma temática, ou seja, a criminalidade, as obras de Lins e Louzeiro são distantes num aspecto. Lins inicia Cidade de Deus, contando a origem da formação desta favela. E segue a narrativa contando a história de diferentes moradores. Raríssimos são os personagens apresentados com um nome próprio, a maioria recebe alcunhas curiosas como é o caso de Inferninho, bandido acompanhado de perto na primeira parte do livro, e que se depara com a própria morte no final deste. Mesmo sendo o fio da narrativa nos início do livro, outros personagens interrompem a história de Inferninho e conduzem o leitor aos acontecimentos mais importantes da Cidade de Deus. Como, por exemplo, o impactante caso do negro que mata uma criança branca cortando-lhe os membros inferiores e superiores, por desconfiar que sua mulher, também negra, o havia traído com um branco. Essa história, aparentemente, não tem ligação nenhuma com a de Inferninho, mas o autor evidencia que está falando sobre uma comunidade inteira e não apenas tecendo a biografia de um bandido como ocorre em Lúcio Flávio, que é cercado de coadjuvantes, mas que está presente em todas as cenas.

A diferença das obras está clara em seus próprios títulos. O livro de Louzeiro chama=se Lúcio Flávio, ele que é o passageiro da agonia e o leitor acompanha suas glórias e sua queda até a tragédia final desse criminoso. Cidade de Deus trata de toda uma favela, desde sua formação e conduz o leitor a acompanhar uma guerra entre duas quadrilhas rivais no final. O leitor, indeciso, não sabe se torce por Zé Miúdo, que primeiramente era Inho, ou se torce por Zé Bonito, que tinha na veia o espírito de vingança e, por conseguinte, de justiça.

Os criminosos de Cidade de Deus, não têm muita perspectiva. Um dos bandidos que decide sair do crime, Martelinho, não encontra outra opção para lidar com a vida, se não a de aceitar a Jesus. Martelinho que namorava Cleide, se converte a igreja Assembleia de Deus. Além disso, torna-se pedreiro. Na visão dos bandidos de Lins, na verdade, ele se torna um “otário”. Era assim que eles enxergavam os moradores que não optavam pelo crime e que seguiam o curso normal de suas vidas agarrados a uma profissão digna, por mais que o dinheiro no final do mês fosse pouquíssimo. Quando os criminosos fugiam para outras localidades por medo da morte, por exemplo, o limite da fuga era o próprio Rio de Janeiro.

Em contrapartida, Lúcio Flávio é um sonhador. Quando intencionou deixar o crime, queria mudar-se para o México. Além disso, seus atos criminosos viajam por vários estados do Brasil. Numa das ocasiões em que esteve preso, Lúcio chegou a acreditar que se tornaria um pintor. Ele conhece Van Gogh, ou pelo menos sabe que ele existe. É um bandido inteligente, pensante, autor de roubos grandes. Não costumava beber muito, não fumava maconha e ficar “doidão” como os personagens de Cidade de Deus. Lúcio está carregado de crises psicológicas. Tinha muita desconfiança e oscilava na “transa” com Moretti (apresentado como um alguém com alta capacidade para confundir os outros) e Bechara. Os amigos mais próximos, liderados por ele, também sofrem a desconfiança de Lúcio Flávio. A vida faltou-lhe com a sorte, pois até numa carreira política ele poderia ter ingressado, mas a falta de apoio do pai o impede. A criminalidade é a opção mais fácil e ele aceita entrar por essa via.

Ambos os livros têm ordem cronológica de acontecimentos, com alguns flashbacks. Principalmente no caso de Lúcio Flávio, que vivia recordando-se das situações vividas por ele. Os livros são contemporâneos e têm marcas interessantes que evidenciam o tempo da narrativa ao leitor. Os personagens de Cidade de Deus ouviam Raul Seixas, o nome de músico aparece seis vezes no livro. O rock era o som da favela na época,diferentemente de hoje em que se ouve Funk o rap dos Racionais, ou mesmo as músicas de Mv Bill. Além de Raul, aparecem no gosto daqueles bandidos, Caetano, Gil, Gal. Tudo porque acreditavam (ou sabiam) que esses músicos também gostavam de fumar maconha. Outra marca da época é a moeda que esses bandidos roubavam que era o Cruzeiro. Desde 1994, a moeda brasileira é o Real.

As marcas de tempo em Lúcio Flávio são outras. A referência de um bom piloto de Fórmula 1 para eles é Emerson Fitipaldi. Um amigo de Lúcio Flávio diz que se o bandido tivesse uma Ferrari seria melhor que Fitipaldi, que foi um grande desportista brasileiro, mas por que Senna não foi citado? Porque na trama, ele ainda não era ninguém na Fórmula-1. Outra marca interessante é relacionada a imprensa. Um dos bancos em que a quadrilha de Lúcio Flávio executa um assalto fica próximo a hoje extinta TV Tupi, a primeira emissora de televisão brasileira, que pertencia a Assis Chateaubriand. Quanto a música, o gosto de Lúcio Flávio não fica evidenciado. O único momento em que um sonzinho aparece nesse livro, é na casa do vizinho e a voz é de Nelson Gonçalves.

A desmoralização da polícia é muito forte em ambas as histórias. Belzebu e Cabeça de Nós Todo, policiais de Cidade de Deus são colocados como personagens satânicos. Eles matavam os criminosos sem clemência, e por certo acreditavam ter cem anos de perdão, pois costumavam roubar os bandidos como se aquilo fosse uma forma de fiança. As diversas trocas de tiros entre bandidos e policiais são um espetáculo cinematográfico em Cidade de Deus, em que balas e mais balas eram despejadas, matando oponentes e inocentes.

Em Lúcio Flávio isso não é muito diferente. 132 e Carcará que prendem o personagem principal pela primeira vez na trama, estavam na prisão quando ele foi torturado. Moretti era o articulador de um esquema entre policiais e bandidos, fazendo o meio-campo entre eles. As instituições costumam aparecer desmoralizadas em obras desse gênero. O filme Tropa de Elite, que também tem laços de comparação com o passageiro da agonia e com Cidade de Deus, também traz essas marcas. E não somente a polícia é corrupta, na trilogia O Poderoso Chefão, de Ford Copola, a igreja Católica também se deixa corromper. O poderoso Chefão, aliás, também pode ser colocado na mesma estante que os citados anteriores, pois nele acompanhamos de perto a atuação da máfia e como em Cidade de Deus, duas gangues rivais brigam pela supremacia.

Cidade de Deus dá um banho de sangue em Lúcio Flávio. O número de mortos e feridos desse livro é exorbitante, porque a favela de Lins é perigosa, o lugar mais perigoso para se morar no Brasil, segundo os jornais da trama. É ali que a narrativa se concentra, estática, imóvel, contando casos que nem sempre têm ligação com as personagens principais. Isso é diferente em Lúcio Flávio. A trama se passa em diferentes residências, mostra a realidade nas prisões, das quais Lúcio Flávio fugiu mais de vinte vezes e onde morreu. Alías, no exato instante em que o personagem morre, a história também chega ao seu fim, mais uma vez mostrando que sem Lúcio Flávio, não existe livro.

A quadrilha de Lúcio Flávio também é perigosa, em determinado momento ele é considerado o bandido mais perigoso do país. Ele também derramou sangue, mas teve piedade, porque tinhas outros planos, como no caso com o policial 132. Lúcio Flávio é mais sentimentalista. Amava Janice, amava seu filho Leo. Amava o México. Chorou em diversos momentos e lamentou a morte do irmão Nijini. Definitivamente, Lúcio Flávio não tinha cacife para ser bandido.

Alguns coadjuvantes de Cidade de Deus são bem pintados como Passistinha que era o malandro boa pinta, respeitado por ter caráter e capaz de encher seu velório de amigos. Pardalzinho também é parecido, o moleque que queria ser playboy, igualzinho aos cocotas da trama: Thiago, Marisol e a desejada Adriana, motivo de brigas entre os amigos por conta do ciúmes. Pardalzinho e Passistinha são importantes na trama de Cidade de Deus, pois permitiam que bons sentimentos como a amizade aparecesse numa trama cercada de violência.

José Louzeiro romantiza os bandidos, sem deixar de lado a verdade, sem deixar de mostrar que de qualquer forma a morte e a prisão são as maiores chances de quem opta pela vida do crime. Ele entra na cabeça dos marginais, mostrando-lhe as minúcias de seus pensamentos, de suas ideias. E, sim, bandido tem ideia, tem raciocínio.

Paulo Lins promove uma anarquia literária. Na verdade, mostra que o sistema vigente é uma anarquia. Para isso, nos ampliam o vocabulário com palavras e termos incomuns aos clássicos da literatura como alcaguete (o delator), samango (policial), passar o cara (matar alguém), amanhecer com a boca cheia de formiga (morrer). Os personagens sem nome: Inferninho, Tutuca, Busca-pé, Belzebu, Cabeça de Nós todo, Zé Miúdo, Zé Bonito além do hortifrutigranjeiro Laranjinha, Acerola, Manguinha. Mas, a literatura é a porta para a ousadia. Que é a literatura se não a chance de o escritor expressar os problemas de seu tempo da forma como bem entende? Sendo assim, a literatura seria anárquica por si só, bastando que agrade ao leitor e, nesse aspecto nem Cidade de Deus e nem Lúcio Flávio apresentam falhas.

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