ANJO DA GUARDA DOS PESCADORES

Publicado em: 04/09/2006

Operadora de rádio costeira é a mulher em quem homens mais confiam quando se lançam por semanas ao mar
Dias e noites no meio do oceano, enfrentando tempo ruim e ondas fortes, fazem da pesca profissão para poucos. A atividade é perigosa e exige que os pescadores passem semanas e até meses longe das mulheres e filhos, para garantir o sustento de todos.
Por Marcelo Roggia
AN – Correspondente/Navegantes

Tendo os barcos como moradia e os colegas de profissão como verdadeiros amigos, os pescadores ainda têm uma grande companhia em terra firme: a dos operadores de rádio costeira são considerados anjos da guarda desses ho-mens do mar. São eles que passam todas as informações sobre o tempo e auxiliam embarcações a se deslocarem de forma segura em situações de risco, além de propiciar contato entre os pescadores e famílias.
No Litoral Norte do Estado, uma mulher em especial tem toda a confiança de quem está em alto-mar. Operadora há quase dez anos, Bernadete Felício, 50, trocou meio que por acaso a vida de cozinheira pela nova profissão. Ela lembra que a Rádio Costeira de Navegantes foi implantada em 1996, na época dentro de um estaleiro. O local recebia grande número de pescadores, e Bernadete, cozinheira, sempre ia até a rádio ver como tudo funcionava, após terminar suas tarefas. “Depois de um tempo, o funcionário da rádio pediu para eu ficar durante uma semana no lugar dele, pois teria de viajar e fazer exames. Ele não voltou mais e estou na profissão até hoje”, lembra a operadora.
Com três meses de estação operando, Bernadete passou pelo momento mais desafiador em seu novo trabalho. Um vendaval na costa do Rio Grande do Sul avariou barcos e fez com que dois deles naufragassem em al-to-mar. O saldo da tragédia foi 11 pescadores mortos. A operadora da rádio costeira precisou transmitir a má notícia para os familiares das vítimas em terra. “Os naufrágios são muito tristes, mas me fizeram ver que eu precisava fazer algo por eles enquanto estão no oceano. Durante todos esses anos, venho me dedicando de corpo e alma a esse trabalho”, ressalta Bernadete, que já foi condecorada pela Marinha, em 2002, pelos serviços prestados como operadora.


Ex-cozinheira, Bernadete Felício iniciou atividade meio por acaso, há
dez anos: tragédias e alegrias para transmitir.
Foto marcelo roggia/mrc/AN

Portadora das tragédias sobre naufrágios, Bernadete lembra que noticiou muitas mortes, algumas em que nem os corpos das vítimas foram encontrados. Mas também já passou por momentos de alegria, como ao anunciar para famílias que pescadores foram resgatados com vida. Ela lembra do pesqueiro Chile 2, que naufragou em setembro de 2003, na altura da costa de Tramandaí, no litoral gaúcho. Oito tripulantes, três deles de Itajaí, ficaram quatro dias à deriva em alto-mar antes de serem resgatados. Dois pescadores não conseguiram se salvar nesse mesmo acidente.

Natural de Itajaí, Bernadete é carinhosamente chamada pelos pescadores como anjo da guarda. Ela passa previsões de tempo, alerta sempre quando há ventos fortes e mar agitado, transmite informações sobre onde estão os cardumes, e faz contato entre os homens do mar e os familiares em terra. “Não ostento fama e nunca trabalhei visando ao lucro. Pago aluguel até hoje, mas me sinto muito feliz em continuar dando assistência aos pescadores e familiares, mostrando a importância de uma rádio costeira”, ressalta Bernadete, que coordena as rádios costeiras de Itajaí e Navegantes.


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1 responder
  1. FRANCIELE LAMIM says:

    Muito linda essa profissão! Sou recém formada em Radio Operador pela West Group do RJ, sou Itajaiense e gostaria de saber se dão oportunidades para estagios!

    Atenciosamente

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