Ao aeroporto

Publicado em: 24/05/2005

– Aeroporto – manda o homem. O motorista liga o carro, aciona o taxímetro, levanta  o volume do rádio e arranca firme. É como se estivesse à espera  daquele tiro que dá a ordem – corra! Reflexo imediato, pronto atendimento.
Por Flávio José Cardozo

Em dois toques, está deixando a Praça, entra no Aterro, cai na Paulo Fontes, chega à Prainha. Sujeito ligeirinho, pensa o passageiro, deve ser porque falei em aeroporto, falar em aeroporto lembra avião, avião lembra rapidez, correria a jato, deve ser isso,  mas ele há de saber o que está fazendo, é um motorista que não é mais criança, tem aí seus quarenta anos, se assim corre é porque o trânsito favorece, são quatro e cinco da tarde. Mais adiante, se for o caso, é só dizer a ele que não há muita pressa.

Vencida a sinaleira da Prainha, onde ficou acelerando e desacelerando, num ronco indócil, feito um touro que escarva o chão antes de arremeter, o táxi dispara. Curvas à vista? Que curvas?
– Não precisa pressa – grita o passageiro, começando a sentir que está indo com alguém bastante impetuoso. – O avião só sai às cinco.

A reação é absolutamente nenhuma. No rádio, uma dupla sertaneja escancara a alma numa confissão de ciúme e abafa todos os ruídos do mundo. O motorista assobia, tamborila o volante. Vai agora pelo Zé Mendes como um guri pela Beira-Mar. Perto da Coca-Cola, ignora a lombada. Ele é doido, já vai acreditando o freguês, tonto com a cabeçada que deu no forro do carro. O que não vai ser de mim nas dez lombadas da Costeira? Isso se a gente chegar até lá, bem entendido, se antes não se voar, ali na frente, em cima da casa do meu amigo Sebastião Porto. Que Deus não o permita! Não há de permitir. Pelo menos é o que promete o adesivo colado no painel: “Jesus salva”.

Deixam para trás, sem desastre, a casa do Sebastião, já estão na avenida Waldemar Vieira, no Saco dos Limões. Agora sim se vai ver o que é pegar avião. Postes passam numa disparada dos quatrocentos diabos. O passageiro estica o pescoço, não vê ponteiro no velocímetro, o velocímetro do doido está estragado.
– O senhor está correndo demais! – berra no ouvido dele.
– Correr mais? Calma, vai dar tempo.

Estão entrando na Costeira, logo adiante vêm as lombadas. Com o ralo movimento, a velocidade é mais ou menos mantida, o passageiro firma-se no banco, ai, minha mãe,  como é que fui cair nas mãos deste demente, como?

Inenarrável a travessia das dez lombadas, o táxi virou um camelo ensandecido, o passageiro estirou-se no banco, mesmo assim foi três, quatro vezes com o corpo inteiro lá em cima. Entram na reta dos Carianos como que saindo duma guerra, zunindo bonito e macio.

E então, enfim, o aeroporto!

O motorista encosta, baixa o rádio (em que outra dupla se esganiça agora numa declaração de desprezo pela mulher leviana), cobra, agradece, pede desculpa pela demora. Diz que, quando precisar… O passageiro se sacode e, sábio, acha que valeu: tem certeza de que desta vez entra no avião sem medo.
 
(Do livro Uns papéis que voam, São Paulo, FTD, 2003).
 


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