Ao redor do poeta

Publicado em: 30/11/2011

Muito se tem dito sobre Cruz e Sousa nesses dias, por conta dos 150 anos de nascimento do poeta. O que é sempre bom, porque estamos falando de um artista genial que, como todos os gênios, não foi compreendido em seu tempo – e, no seu caso, nem depois, para sermos francos. A negritude, o preconceito, a pobreza, a morte, tudo foi lembrado, em colóquios onde se buscou situar o poeta na província e na metrópole, lugares onde ele foi escanteado porque, orgulhoso que era, e sabedor de seu talento, estocava os menos dotados com o esplendor de sua pena.

Nesses debates, foram inúmeras as considerações acerca da dificuldade de apreender, de fruir a obra do poeta, considerada difícil, sobretudo para as novas gerações, em vista do rebuscamento do estilo, das palavras garimpadas com denodo, das metáforas que denunciavam a prodigalidade estética dos simbolistas.

Como muita gente, fui apresentado tarde ao grande poeta. Lembro de quando Celestino Sachet, professor de literatura brasileira na UFSC, nos mandou analisar o soneto “Triunfo supremo”. Foi um arrebatamento à primeira vista, por causa da musicalidade e das belas imagens sugeridas por aquela pequena obra-prima.

Violenta síntese de uma vida eivada de privações, aqueles 14 versos, distribuídos com perfeição em quatro estrofes, se revelaram um divisor de águas. Mau ledor de poesia, com parcos livros na memória, estava eu dando, ali, o primeiro passo em direção a uma paixão que só fez aumentar até hoje.

A vida atribulada, as circunstâncias dramáticas do fim do poeta, a empáfia dos autores apaniguados da corte, que elegiam o que tinha valor literário, tudo tende a conferir uma identificação natural e uma solidariedade silenciosa com o grande artista. Contudo, é na poesia que essa afinidade se constrói, porque não há sinais de similaridade entre o que ele deixou e o que produziram outros escritores tão ou mais consagrados – ou incensados pela crítica e pela academia.

Se as palavras soam como uma barreira, maior obstáculo ainda é a desinformação acerca do poeta, um mal que se espraia em sua própria terra. E se aqui, onde nasceu, ele ainda é um desconhecido, imaginem pelo país a fora… Se ele ansiava ser venerado pela qualidade da obra, estaria, se vivo fosse, ainda mais frustrado porque, tirando os iniciados, poucos podem se dizer leitores de Cruz e Sousa.

Ou seja, além da existência miserável, ele herdou o esquecimento de seus pósteros, o que vai contra tudo o que era o seu maior desejo.

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