Ao volante

Publicado em: 29/06/2011

O sujeito se aposentou, passou a ganhar um pouco mais, comprou um carro e, enferrujado pelos anos sem dirigir, meteu-se nas ruas da cidade. No segundo dia, subiu todos os vidros, para não ouvir as ofensas de quem estava mais habituado que ele com as armadilhas do trânsito na falsa – e periférica – metrópole. – Sai da frente, coroa retardado! – gritaram-lhe. No seu tempo, a bordo de uma Brasília bege, havia apenas uma ponte de concreto e as avenidas podiam ser contadas nos dedos. Agora, vias de três pistas estavam por todos os lados. O que serviria para facilitar a sua vida, no entanto, transformou-se numa dor de cabeça, porque, quando tentava mudar de lado, vinha a paralisia: como tomar a direita com a velocidade insana de quem chegava de trás?

Ir para o Ribeirão, onde tinha parentes, revelou-se um drama, pois as ruelas do Rio Tavares inchavam de automóveis ao menor sol de fim de semana. A volta, então, tirou-lhe do sério, com aquele avança-e-para que desafiava sua habilidade com a embreagem. Tudo bem, o túnel foi um avanço, mas lá na frente o funil era um desafio para todos os condutores, por mais descolados que fossem.

Mesmo na estrada de paralelepípedos, havia malucos andando a 100 por hora, porque tinham perdido tempo na fila e nos cruzamentos. E não faltou quem esquecesse das regras básicas da civilidade.

– Vê se anda, ô barbeiro! – disseram-lhe.

Tudo isso porque não passava dos 50, numa via cheia de curvas e com lombadas a cada 500 metros. Lembrou-se de um amigo a quem não deu bola quando afirmou: “O número de quebra-molas é proporcional à deseducação dos motoristas”.

Quando decidiu voltar, não contava com o fim de um jogo na Ressacada, em plena noite de sábado, e justo na hora em que as pistas são abertas para a regalia dos torcedores. Ele, avaiano de pijama, soube que o time perdera, mas ficou vermelho de raiva foi quando lhe berraram:

– Por que não está embaixo das cobertas, velhinho?

Não era seu dia, nem a sua noite. Jogaram-lhe luz alta, buzinaram, e ele perdeu a auto-estima, a esportiva e o controle sobre a situação, na insegurança de quem já enxerga mal à luz do sol, imagine com os faróis queimando a retina…

Quando tudo parecia se encaminhar para um final razoável, foi cortado em cima da ponte por um rapaz que fez uma besteira atrás da outra para se dar bem lá na frente. Aí, lembrou-se de uma tirada que, sendo politicamente incorreta, fazia todo o sentido naquela hora. Para si, falando baixinho, disparou:

– Pior do que mulher, só um guri no volante.

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