Aos amigos que não vejo mais

Publicado em: 01/02/2006

Não lembro da última carta que escrevi à mão. Quero dizer, usando lápis e papel. Como não sou tão velho assim então deve ter sido em vidas passadas, no tempo da caneta tinteiro, que precisava mergulhar a ponta metálica no vidro azul a cada palavra desenhada.
Por Léo Saballa

Depois de relutar muito, aposentei a minha Olivetti Línea 88 e condicionei-me ao teclado do computador. Como cão salivando pela comida, aguardo a ordem do risquinho preto vertical piscando na tela branca para começar a escrever compulsivamente. Claro que uma carta de computador, revisada por software e enviada por e-mail não tem o mesmo valor, a mesma intimidade e nem o mesmo charme que um texto rabiscado por uma Bic escrita fina. Ainda mais se estiver dobrada num envelope contendo remetente, destinatário, CEP e devidamente selada no correio, como se fazia antigamente.
Na minha mão caneta e uma folha de papel almaço com pauta. Fiquei tentado a escrever para algum amigo, desses que aos poucos desaparecem do nosso cotidiano. Gente que convivia conosco quase que diariamente. Alguns eram até confundidos com familiares devido à proximidade. Mentalmente fiz uma imensa lista das pessoas que tiveram esse grau de importância na minha vida, mas que nos últimos anos mudaram de endereço, telefone, amizades e até de fisionomia.
Começaria a carta me desculpando pelo afastamento involuntário, justificando que a vida da gente não é como a novela das oito, onde ninguém trabalha e todo mundo tem tempo para longas conversas durante todos os capítulos. Falaria da saudade de um tempo que ficou gravado na memória e em algumas fotos desbotadas. Revelaria que trabalho muito, sonho pouco e estou mais centrado na realidade das horas. Contaria que o tempo passou rápido demais e demorei muito para ficar um pouco mais esperto. Fui feliz ao meu modo e sem querer provoquei lágrimas em quem não merecia. Iluminei alguns rostos com sorrisos de agradecimento. Também sofri com ingratidão e intolerância. Mas isso você não precisa saber, fica comigo. Por fim, diria que torço muito para que os seus dias sejam repletos de encontros e reencontros. Quem sabe a gente até se reencontra em alguma esquina para falar dos caminhos diferentes que as nossas vidas tomaram.


{moscomment}

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *