Aos traídos, distraídos e atraídos

Publicado em: 21/04/2012

Homero Franco *

Leitores do “Caros Ouvintes”. Convidado, escrevo esta crônica, e peço sua atenção, compreensão e ação para o que escrevo. Sempre é muito mais curto o caminho da deterioração. É como a demolição, o incêndio, a implosão, o acidente. Basta bater, marretar, agredir, acender o estopim, distrair-se. A construção é uma obra com engenhosidade e respeito às leis físicas e naturais. São mais fáceis: a fofoca, a agressão, a maledicência, a calúnia. São mais difíceis: o elogio, a sugestão, o agradecimento, o incentivo. A conversa, aqui, agora, é de pai para pai, de avô para avô, de homem pra homem e, se tiver mulher na leitura, é também conversa de homem pra mulher.

A vida está a cobrar nosso respeito, nossa cooperação, nossa admiração, nossa conservação, reposição, carinho, bem igual ao que faz o jardineiro com o jardim que ele quer ver e desfrutar.

Se a delicada plantinha que recebemos como jardineiros de nós mesmos for traída em suas necessidades básicas naturais, e se quisermos prosseguir vivendo, nós teremos de chamar o profissional da saúde para recompô-la e na maior das vezes com enormes perdas de massa e qualidade, pois os componentes originais dificilmente podem ser reconstruídos depois de comprometidos com severidade. Em geral são podados e afastados.

Algumas vezes somos nós que somos afastados da vida por incompetência de continuar vivos.

Nossa sociedade está repleta de traidores: traidores do seu próprio destino como seres humanos; traidores em suas relações com os outros seres humanos e demais membros naturais; traidores da confiança alheia; traidores de seus pares; destruidores sociais; semeadores de infelicidade e, muitas vezes algozes perversos que não dão chance a que a vida possa dar a volta por cima.

Num plano intermediário, temos um razoável número de distraídos: aqueles que só acreditam que serão felizes no final da viagem; e que se esquecem de olhar para o caminho enquanto andam. Os chamados da vida são ignorados por eles; os outdoors escancaram os apelos, mas eles parecem olhar em outras direções e nem se apercebem que a viagem deve se tornar feliz para que o objetivo tenha valido a pena.

E, felizmente, temos um pequeno grupo de atraídos, aqueles que foram chamados e fazer a diferença em suas próprias vidas como competentes jardineiros de seus próprios jardins, aonde se incluem os seus próprios corpos, suas almas, suas famílias, seus amigos, seu trabalho, sua comunidade e, por extensão, seu planeta.

É mais do que o óbvio ululante que se nada fizermos para chegar a algum lugar, não haverá lugar algum, tudo será caos, reclamação, gritaria, gemido, dor e perda.

É mais do que o óbvio ululante que a jardinagem quanto ao destino que desejamos como indivíduos ou como grupo não poderá ser terceirizada e, se for, ela será sempre para reparar aquilo que já se perdeu. O jardineiro virá vestido em algum uniforme para podar, investigar, emitir laudo, sepultar.

Infelizmente, temos um enorme contingente que prefere terceirizar a cidadania, o essencial. E o caos social está batendo em nosso nariz.

Prezado leitor.

Não deixe que o jardim de sua vida tenha de chamar aquele que poda, arranca, substitui (quando dá). Antes disso faça algo pela vida que clama aí dentro de você e diante dos seus olhos. E se nessa sua atração pelo lado belo da vida, couber um zelar pelo jardim que é de todos (o planeta), nós ficaremos honrados com sua atração.

“O jornalista aposentado Homero Franco preside a Amapraça (Associação dos Moradores da Praça Celso Ramos), que agrega 32 condomínios da região”, registrou Paulo Clóvis Schmidt em entrevista publicada na edição de fim de semana – 14 e 15/04/2012 do ND/Fln.

1 responder
  1. Marliange says:

    Gostei muito da crônica que caiu como uma “luva” no momento presente de minhas reflexões.
    Obrigada
    Marliange

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