Apenas discurso ambiental vazio?

Publicado em: 14/11/2012

Os municípios das regiões que se aglutinam em torno de Passo Fundo, Erechim, Carazinho e Cruz Alta dão mau exemplo na questão ambiental. E, lamentavelmente, não são exceção. Para onde olhamos constatamos abismos entre o discurso ambiental e a prática ambiental. Esse descompasso entre a teoria e a ação tem vários motivos, alguns até compreensíveis diante da magnitude da questão, mas está deixando no ar a sensação de que estamos vivemos uma farsa com a qual a maioria sente prazer em compactuar. Depois de 10/12 mil anos de caminhada (após a invenção de agricultura) crendo que os recursos naturais eram inesgotáveis e na postura de irresponsável por eles a humanidade de viu na contingência de dar uma guinada abrupta ao sentir que cairia num precipício. Algo assim não acontece sem traumas e leva tempo para uma reacomodação.

Agora, há duas circunstâncias, que agudizam o problema e, como decorrência, ao menos para mim, banalizam a questão. E as duas vão deixando todos bem bonitinhos na foto com o que nossas responsabilidades vão sendo repassadas para terceiros.

A primeira circunstância no remete a uma situação esdrúxula: mesmo com o desconhecimento da realidade, dos fatos (algo generalizado mundialmente) não ficamos encabulados de exigir (em muitos casos inclusive de causo pensado, para não dizer de má fé) medidas impossíveis de serem postas em práticas no curto prazo. Fácil de entender o desdobramento de tal atitude (o descrédito em primeiro lugar)!

A segunda é o uso da questão ambiental só como música para os ouvidos ávidos por aplacar as consciências que alimentam e atualizá-las com os novos tempos. Na área privada, por exemplo, ai se insere aquele marketing que faz aumentar astronomicamente a venda de gelo no Polo Norte. Ou de galochas no deserto do Saara.

Na área pública isso é mais gritante, porque em regra os governos dos três níveis são os primeiros a burlar a legislação em vigor (legislação avançada é verdade, mas tida como feita de afogadilho por alguns e, além disso, a estrutura da fiscalização é pífia). Nesse sentido, salvo melhor avaliação, temos mau exemplo entre as autoridades dos municípios que integram os comitês de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Passo Fundo (CBHPF) e da Bacia Hidrográfica do Alto Jacuí (COAJU) que reúnem 79 comunidades. Ai incluídas as citadas Passo Fundo, Erechim, Cruz Alta e Carazinho.

Envolvidos no espinhoso, complexo e importantíssimo processo de elaboração dos planos das duas bacias (definindo usos e qualidade da água para 20 anos) os comitês fizeram várias audiências públicas. Foram chamados prefeitos, vereadores, industriais, produtores rurais, mineradores, empresários do setor do lazer e turismo, representantes dos sindicatos, associações comerciais e industriais, cooperativas e membros do comitê que têm o papel de reproduzir as informações para as classes que representam.

Pois bem, quem fugiu das audiências? Justo quem tem a maior responsabilidade coletiva: prefeitos, vice-prefeitos, secretários e vereadores. Muito estranho. Algo para contundente perplexidade. E, até agora, sem uma explicação convincente. Num universo de 79 prefeitos, 79 vice-prefeitos; no mínimo 470 secretários municipais e perto de 700 vereadores (mais de 1.300 pessoas pagas para cuidar do nosso presente e do nosso futuro) contavam-se nos dedos de uma mão o numero desses agentes públicos presentes. Numa audiência realizada na Universidade de Passo Fundo de todo esse universo havia só um vereador na sala. E, óbvio, vai ficar tudo por isso mesmo: no vazio!

Ivaldino Tasca, jornalista | [email protected]

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