Apenas o rádio como companhia

Publicado em: 16/03/2008

Às vezes, quando não há ninguém em casa e ligo o rádio, lembro da solidão de tia Dalila. Desquitada do irmão de meu pai e, assim, olhada com certa desconfiança na ainda provinciana cidade de Rio Grande dos anos 1970, ela vivia num quartinho alugado a algumas quadras da minha casa, na beirada do centro, quase em um bairro operário, o Lar Gaúcho. Por Luiz Artur Ferraretto  

A rotina dela era marcada pelo rádio. Ex-mulher do velho Carruíra, meu tio, campeão gaúcho pelo Sport Club Rio Grande (1937) e pelo Football Club Rio-grandense (1939), sabia de cor todos os horários dos noticiários esportivos da Gaúcha e da Guaíba. Torcedora fanática do Grêmio, por ser tricolor como o Rio Grande, não perdia um comentário do cronista Paulo Sant’ana. Em meados da década de 70, quando ele se transferiu para a então TV Difusora, que pegava mal à beça na Zona Sul do estado, minha tia quase ficou louca. Por uma ou duas semanas, o tempo que durou a incursão de Sant’ana fora da também então TV Gaúcha, ela se sentiu sem representante no rádio ou na televisão. Dona Dalila Saavedra Ferrareto, com um “T” só por erro de registro no cartório, me lembra duas coisas superimportantes, por vezes esquecidas em algumas emissoras: rádio é companhia e comunicador com empatia acaba sendo uma espécie de representante do ouvinte.
O radinho de pilha é, em parte, responsável por isto. Acompanha o ouvinte onde ele estiver. Quebra noites solitárias com uma voz vinda sabe-se lá de onde. Quem acompanha vira companhia, companheiro, amigo até. Uma vez, vi uma senhora pobre, sem dinheiro para pagar a passagem em um ônibus interurbano, ser humilhada pelo cobrador. A resposta daquela mulher simples dá provas do poder do comunicador no imaginário das pessoas:
– Vou falar pro Sérgio o que tu tá fazendo comigo…
O Sérgio no caso, dito assim sem cerimônia, era o então líder de audiência Sérgio Zambiasi, hoje senador pelo Rio Grande do Sul. Na cabeça daquela senhora, carregando na pele o preconceito sobre os anos de escravidão de seus antepassados, Zambiasi não era um político, na época, em início de carreira ou um comunicador de programa assistencialista. Era simplesmente a quem ela recorria a cada manhã. Bastava ligar o rádio e lá estava ele. Sempre disposto a conversar, mesmo que, ao longe, por ondas eletromagnéticas de difícil explicação pelos mais profundos conhecimentos da Física.
Talvez mais disposto a conversar com ela, a ouvi-la até, do que seus netos ou seus filhos. O mesmo acontecia com a minha tia em relação ao Sant’ana. Numa época em que o Grêmio penava frente às conquistas do Internacional, aqueles comentários algo ensandecidos no rádio e na TV davam alento à existência da velha uruguaia. Queimava o sangue ibérico dos Saavedra – Alguma relação com Cervantes? – e ela ruminava seus palavrões intermináveis, sentia-se muito mais gente e, talvez, recordasse aqueles velhos embates futebolísticos dos anos 30. Quando fechava o tempo entre os jogadores, o público, com seus paletós e bengalas, invadia o gramado. Contam alguns, uma Dalila espevitada ia junto, bolsa erguida no ar, girando e distribuindo porrada. Dizem outros com um estratégico peso de chumbo dentro, repartindo espaço com carteiras e outros badulaques.
 


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