Aqui “jaz” um Coreto

Publicado em: 27/02/2010

Foto Paulo Roberto Witoslawski

Caros leitores, sinto-me enlutada! Coberta por um véu negro a velar por mais um bem histórico à beira de um abafado sepultamento. Humm… Pode parecer uma representação excessivamente metafórica e abusada, no entanto é o que sinto ao deparar-me com lugares repletos de histórias, no entanto vazios e descolados do cotidiano da cidade, como o belo Coreto Maestro Hélio Teixeira da Rosa, localizado no coração de Florianópolis, na Praça XV de Novembro.
Um espaço que poderia abrigar eventos musicais, performances teatrais, conferências, entre outras atividades culturais em Florianópolis, fenece no centro histórico de uma cidade que se pretende turística. Ao invés de acolher empreendimentos que expressam a dinâmica cultural, (música, teatro, literatura, poesia, história, entre outros), ele está lá, “esquecido e generoso”, servindo de abrigo para moradores de rua, seus cachorros fiéis, cobertores, aguardentes… E como cenário para algumas práticas ilícitas.

Foto Paulo Roberto Witoslawski

O Coreto da Praça XV de Novembro foi inaugurado em 20 de março de 1947, com transmissão da Rádio Guarujá e tinha, entre as principais atrações, a presença do maestro francês Fernand Jauteux, a banda da Polícia Militar e do 14ª Batalhão de Infantaria. Em 17 de maio de 2000, por meio da lei 5668, o Coreto recebeu a denominação de “Maestro Hélio Teixeira da Rosa” (1930-2000) em homenagem ao maestro, estudioso da música e da cultura local que acumulou, ao longo de sua carreira, volumes preciosos sobre a história da música, biografias e partituras que foram doados pela família, em 2001, ao Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (IHGSC).

Penso que o dinâmico e criativo maestro (músico, compositor, radioator, comediante, escritor…) apreciaria que seu nome estivesse ligado à prática efetiva do conhecimento, da apropriação e da valorização do patrimônio cultural da cidade; que o Coreto estivesse contribuindo para isso, abrigando uma variedade de manifestações consagradas à compreensão, disseminação e valorização da herança cultural.

Incomoda-me, sobremaneira, o sub-uso e não-aproveitamento do antigo mobiliário urbano de Florianópolis. Trata-se da ‘poda’, do ‘abatimento’, de impor – por falta de políticas culturais – uma ‘finitude emancipada’ para muitos espaços urbanos que contêm empilhadas histórias sobre a constituição de Florianópolis. Estou cá dividindo uma reflexão sobre uma sociedade que não acolhe o tradicional em sua rotina, sobre aqueles lugares de experiências culturais que não são absorvidos pelo agitado cotidiano contemporâneo. Inanimados, assombram em vez de avivar! Tornam-se ‘fantasmas de concreto’ que não participam da identidade local. BUHHHHHH!!!

Marilange Nonnenmacher é cronista e revisora de periódicos e trabalhos científicos. Dedica-se ao estudo e pesquisa do patrimônio histórico e cultural: memória, cidade, artes, teatro e ressiginificações urbanas. Graduada em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC (1999); é Mestre e Doutora em História pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC (2002/2007). Atuou como professora colaboradora da Udesc (2005-2009). Professora do Curso de Pós-Graduação em História Social (2009).

7 respostas
  1. Paulo Roberto says:

    A publicação acontece num bom momento, pois a cidade está discutindo a utilização dos espaços públicos do Centro, especialmente a Praça XV. Quem sabe em breve teremos novamente uma praça.

  2. Edison Puente says:

    Faz alguns dias sentamos com um amigo (Robson), nos bancos do coreto, para falar dos encaminhamentos da solidariedade internacional, não podíamos deixar de perceber o quão abandonado esta o local, e quão interessante seria ocupar o espaço com Cultura, Política, etc..
    Em uma emissora de TV Caribenha, ao inicio de sua programação tinha esta frase:
    “Um povo só pode ser livre, sim for culto”
    Carinhos
    Edison

  3. Carla Cascaes says:

    Muito oportuno o retorno da Marilange, enriquecendo este blog com histórias lindas da velha Floripa.

    É lamentável que tantos temas estão expostos neste verdadeira vitrina histórica, que é o Caros Ouvintes, porém pouquíssimos se dão ao trabalho de redigir duas palavras de incentivo, elogio, crítica (o que Marilange também faz com muita propriedade…), ou seja la o que for, nos comentários!

    Isso que se trata de um espaço voltado integralmente à comunicação radiofônica…

    Lamentável!

  4. Lange says:

    Olá Carla! Bisbilhotar as histórias de Florianópolis é um gosto e poder dividi-las um prazer! Tratam-se de crônicas ligeiras, mas que têm por objetivo repartir as informações colhidas em pesquisas e observações. Obrigada pela leitura e anotações.
    Marilange

  5. Silvia G. B. M. says:

    Lange, estava com saudades das suas crônicas e do seu jeito tão particular de ver a cidade. Tens razão: de que vale manter em pé os monumentos da cidade se eles não se mantem vivos nas vivência das pessoas… o coreto não é o único/último fantasma da ilha…

  6. Henrique (Kiko) Ortiga says:

    Meu avô tocou boa parte de sua vida ali, assim como em outros pontos da cidade e região. Foi maestro da banda da Polícia Militar, muito bem lembrada no artigo. Foi, também, ele, Brasílo Machado – vale citar rapidamente como resgate – fundador da Banda Nossa Senhora da Lapa, do Ribeirão da Ilha quem sabe aqui, fica a sugestão, uma pauta para uma próxima crônica.

    Não faz muito tempo, poucos anos atras, nas manhãs de sábado alguns grupos musicais se apresentavam naquele espaço. Seria, sem dúvida, por demais interessante resgatar tudo isso. Entretanto, com essa mais nova e infeliz ideia de gradear a praça, cerca-la, enfim, da sutileza (ideia) de um trator, creio que teremos (a cidade) que esperar um pouco mais.

    O fato é – vou me alongar um pouco mais, e de certa forma ser ate mesmo um pouco ousado – que isso não da votos, ao contrário, por exemplo, da farra do boi. Por que misturar uma coisa com outra? Usando agora um pouco, eu, dessa sensibilidade de trator, quero afirmar aqui que se os nobres leitores soubessem quantos vereadores, prefeitos, cabos eleitorais e outros (e por “outros” entendam como quiserem) estão agora, em plena Quaresma financiado e/ou se preparando para financiar bois, principalmente na Semana Santa, em troca de votos, se surpreenderiam. Enquanto isso, para resgatar o que VERDADEIRAMENTE em termos culturais acrescenta, faz a diferença e enriquece – seja culura popular, erudita, de massa, não importa, poucos, muito poucos entre os que legislam e administram estão preocupados.

  7. Tereza Santos da Silva says:

    Cara Marilange,

    Além de grande cronista, você é uma das mais importantes guardiãs do patimônio material me imaterial desta cidade-capital.

    Aquilo que você denuncia e sugere merece ser notado pelas autoridades competentes, sim, mas, principalmente deve ser resguardado por seus habitantes que nem sempre se dão conta da riqueza que estão deixando de legar para seus filhos, netos, bisnetos…

    É que temos viseiras (também me incluo no uso desse “adereço”) que só vislumbram o pós-moderno, o inusitado. É bens culturais não saciam a necessidade de viver o efêmero, o descrtável, o que dá lucro financeiro. A maioria da população quer viver o agora sem a preocupação de preservar o que é histórico e que faz parte da nossa historicidade.

    Parabéns por sua verbosidade e, antes de tudo, por sua consciência cidadã.

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