Araçás, cajus, pitangas, camarinhas, trilhas e arvorismo

Publicado em: 21/01/2012

Tributo ao chefe escoteiro Paulo Roberto Guimarães

A Ilha de Santa Catarina, plantada no mar tal menina preguiçosa invadindo o Atlântico Sul, além do sensualismo que dela se desprendia, também nos regalava com a exuberante riqueza de seu calendário frutífero. Não eram calendários gregorianos e ou quaisquer outros artificialismos. Na Trindade – hoje Cidade Universitária – por exemplo, por volta de abril, a mulherada de qualquer idade, começava a fazer trajes para alguns eventos importantes da temporada pré-outonal: as barraquinhas do Divino Espírito Santo e a Festa da Trindade que tinham como atração maior a Festa das Laranjas.

Nos meses de maio e junho, tínhamos as gostosas novenas do Mês de Maria, do Santo Casamenteiro e do Santo Padroeiro em fins de junho. Tudo regado a belas barraquinhas enfeitadas de bandeirolas de papel, pombocas a querosene e muita “massa santa” para pagar promessas. Isso, sem contar o que a rapaziada – raparigas e rapazes – aprontava com os “telegramas” com recados amorosos e as dedicatórias nos Oferecimentos Musicais pelo serviço de alago falantes.

Então o mundo era invadido fortemente pela fragrância dos cheiros e aromas das bergamotas maduras que se espalhavam pelas encostas do Morro da Cruz. Terminadas as festas religiosas vinham as festivas Farinhadas, onde também se produzia o açúcar grosso (mascavo?), a garapa e uma cachacinha com a gostosa cana caiana de morro acima.

Nós escoteiros do mar, catalogamos dezesseis dessas indústrias que tão bem serviram nos tempos da Segunda Guerra Mundial, quando tudo era racionado no país que se obrigara a colaborar com o esforço de guerra dos gringos yankes e europeus. Nessas nossas caminhadas (hoje trilhas) pelo interior da Ilha praticamos muito arvorismo, pois nos espinhaços das elevações precisávamos transpor muitas gargantas (riachos e pequenas ravinas) e praticava-se então isso que hoje é um esporte: o Arvorismo. Treinávamos nosso “arvorismo” pontes malucas (pinguelas improvisadas) entre um pé de araçá e um pé de ameixa amarela.

Hoje, mais “livres” mas limitados em tudo, não sei como o Grande Jogo do Escotismo, é praticado em campos, serras, rios, lagoas e costas marítimas. E por falar em marítimas, lembro-me das gostosas camarinhas, frutinhas roxinhas das dunas! E os araçás, as pitangas e os exóticos cajus? Que sabor tem tudo isso, se não existem mais em estado nativo como dantes?

E o que isso tem de valor na história dos escotismo do mar? Porque nessa Ilha Encantada que hoje se vê sufocada pelos gases da insânia do dinheiro e da impunidade, se procurarmos ver com os olhos dos saudosos, tinha um pedacinho de cada canto do mundo do Planeta.

Aqui éramos porto de arribação, aqui éramos não o simbolismo, mas os campeões das liberdades individuais, mesmo sob o risco de certos governos tortos e radicalmente burros. Por isso, nosso Grupo de Escoteiros do Mar não queria ser Grupo Patrocinado e Fechado, mas livre, como livre era o vento vagabundo de Cruz e Sousa.

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