As 3 pontes e nós

Publicado em: 19/02/2019

Florianópolis, 1926, é inaugurada a ponte Hercílio Luz. População, cerca de 45 mil habitantes.

Florianópolis, 1975, é inaugurada a ponte Colombo Salles. População, cerca de 160 mil habitantes.

Florianópolis, 1991, é inaugurada a ponte Pedro Ivo Campos. População, mais ou menos 250 mil habitantes. Detalhe: Florianópolis, sem contar a importante Grande Florianópolis.

Florianópolis, 2019, população: algo em torno de 500 mil habitantes. A Grande Florianópolis deve passar de 1 milhão. Agora, aqui entre nós, vamos deixar o substantivo – habitante, que embora correto me parece um tanto genérico: “Alguém que habita no mesmo lugar…”. Vamos ao substantivo – Pessoa: “Ser humano…”

A população cresceu; dobrou, triplicou, quadruplicou e aí vai; de seres humanos, que têm sentimentos, preocupações, responsabilidades, anseios, sonhos, objetivos. Pessoas que pagam seus impostos e quando falham pagam por isso. No entanto, há outra população.

A “população de carros” com certeza no mínimo triplicou em relação a população humana. Ora, quem de nós não sabe que há quase 44 anos na inauguração da ponte Colombo Salles e que há quase 28 anos na inauguração da ponte Pedro Ivo Campos nem todos ou nem todas as famílias tinham um carro? E quem não sabe que hoje há um número considerável de famílias que têm mais de um ou de dois carros? Se a população de Florianópolis que em 1991 chegava próximo a 250 mil pessoas, a Grande Florianópolis de quase 500 mil chega a 1 milhão ou quase; imagine a “população de carros”, onde quase todos têm carro e muitas famílias têm mais e 1 ou 2?

Para quem nasceu ou vive em Florianópolis desde os anos 70 ou 80 (nasci em Florianópolis em janeiro de 1973), está óbvio o motivo das dificuldades diárias enfrentadas pela população de seres humanos. Pena que não há solução. Lamentável que não existam maneiras de resolver o problema. Triste dizer que não há opções. Quem foi o louco que escreveu as últimas 3 frases?

Não há solução? Não há interesse? Existiria falta de vantagens para alguém? Essas últimas 3 perguntas parecem ser mais apropriadas. Mas, apropriadas a quem? Sem dúvida à população que sofre todos os dias. Como se não bastassem as dificuldades econômicas, a violência, a injustiça, a impunidade; enfim, tudo o que torna cada dia mais difícil nossa vida, ainda lidar com um problema que atravessa décadas, do qual há solução e provavelmente nem seja preciso chamar um japonês para resolver. Com tudo isso são de duas a quatro horas por dia no trânsito para muitas pessoas. Isso, se estiver certo esse rápido cálculo, daria em média 15 horas por semana. Significaria, cerca de 60 horas por mês, ou mais de 700 horas por ano no trânsito. Claro que há diferenças em alguns horários e lugar em que se mora. Mas de maneira geral não fica longe disso. Faça o seu cálculo pessoal. Calcule; por dia, semana, mês, ano; e quem sabe, 10 anos. O que poderia fazer de realmente útil com esse tempo?

E tem mais, algo de que me agrada e me incomoda. Isso já é um paradoxo. O tal do ônibus executivo ou amarelinho. O do bairro Bela Vista custa pouco mais de 8 reais. Praticamente o dobro do que o comum. Como vou do bairro Bela Vista em São José até Florianópolis uma vez por mês ou a cada dois meses me dou ao luxo de ir de executivo. Motoristas selecionados, condicionador de ar sempre ligado, geralmente música num volume apropriado, nunca todas as poltronas ocupadas, alguém em pé nem pensar; isso deveria ser a regra e não a exceção; claro que não com o dobro do preço, ficaria caro demais para quem usa todos os dias. O comum é uma sauna durante o verão. Ônibus lotados; horrível, desumano. Voltamos as 3 perguntas do parágrafo anterior.

De 1926 até 1975 tivemos uma só ponte; assim foi por quase 50 anos. De 1975 até 1991 tivemos “uma ponte e meia”; nesse meio tempo a linda ponte Hercílio Luz já fora interditada.

De 1991 a população da bela Grande Florianópolis cresceu muito; chegamos a um milhão de pessoas, seres humanos; crianças, adolescentes, adultos e idosos; humanos. O número de carros então? O quanto cresceu?

Desde que começaram os sérios e honestos trabalhos na reforma da ponte Hercílio Luz se esqueceu das duas vizinhas. Vizinhas que padeciam de atenção em forma de reparos que vão muito além da beleza da ligação ilha-continente – continente-ilha. Reparos e cuidados que têm tudo a ver com – vidas. Não apenas no fluxo deplorável de quem sofre no dia a dia, mas acima de tudo, nas vidas que ainda podem ser poupadas de tragédias maiores; as chamadas – tragédias anunciadas. Confesso que prefiro morder a língua, de ser apontado como trágico e insano, mas as evidências não mentem; é sim possível uma tragédia anunciada. E que se um dia acontecer aí sim começará um trabalho; não de reformas, mas de procurar os culpados. Culpados que não serão encontrados, ou porque já morreram ou pelo “bom nome” que têm. E já não sabemos quem são eles? Creio que sim!

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