As diabruras do Vitor na redação da Gaúcha

Publicado em: 23/03/2009

Quem chega, hoje, à redação de uma emissora de rádio e conheceu, décadas atrás, ambientes semelhantes, talvez se encante pelo silêncio dos computadores e pela ampla sala livre da fumaça dos cigarros e dos copinhos de cafezinho, invariavelmente virados, por descuido, em outros tempos, sobre algum texto importante.

Doses de caos diferenciadas, mas com o eterno corre-corre de chefes de reportagem, editores, redatores, repórteres e produtores. A um canto, ainda hoje um locutor, dos bons e das antigas, reclama na notícia mal-redigida. E entram pessoas, saem pessoas. E os anos passam. Um ar de profissionalismo quase extremado paira sobre tudo. E não há tempo para nada. O relógio corre como as engrenagens que tragam o vagabundo Carlitos na cena clássica do filme Tempos Modernos. E a engrenagem engole as pessoas.

Lá por meados dos anos 1980, não era muito diferente, tirando o cenário com máquinas de escrever, tac-tac-tac-tac e o cheirinho de óleo da lubrificação das teclas misturado com o da fita preta a deixar no papel as notícias do momento. Alguns, por infeliz característica do ser humano, já se dedicavam ao eterno exercício da sacanagem contra o próximo, da rasteira carreirista e do fazer o mal sob a desculpa de cuidar da sua vida e do seu futuro.

Muito diferente destes, com alegria de criança travessa, havia o Vitor, o jornalista Vitor Bley de Moraes, um alemão que parecia ter, as vezes, mais sorriso do que cara. Em especial, quando aprontava das suas e eu me tornava, dele, ator coadjuvante.
Ex-repórter da Guaíba, ele fazia lá por 1986 o horário da noite da reportagem na Gaúcha. Quando passou para a manhã, tornou-se meu amigo de forma quase instantânea.

Dividimos, então, minúscula sala destinada, na época, aos repórteres. Tão minúscula que fazíamos rodízio de cadeiras com colegas inesquecíveis como Farid Germano Filho, Felipe Vieira, Flávio Pereira, Nelcira Nascimento, Otília Souza, Ricardo Cunha, Roberto Villar… para citar apenas os da reportagem. E o pessoal do esporte a passar pela porta. Um deles, vítima constante das brincadeiras do Vitor, era o bonachão Erico Sauer, espécie de pai profissional do alemão.

De vez em quando, entre uma reportagem e outra nossa, o Erico passava boletins para programas e emissoras imaginárias, caindo em brincadeiras das quais o Vitor nunca deixaria de ser parceiro. Além do saudoso setorista da Federação Gaúcha de Futebol, outros seriam vítimas das nossas brincadeiras.

Quase sempre em meio a gargalhadas inocentes dos demais, lembro do nosso motorista, também saudoso, o Rochinha, exclamando “Esse alemão não é fácil!”. Nos almoços e jantares de final de ano, que as mais variadas entidades ofereciam à imprensa, sempre alguém puxava papo, perguntando “O que vocês aprontaram? Qual foi a última?”. E seguíamos em frente.

Os anos foram passando e até chefe de reportagem da Gaúcha o Vitor foi. Mesmo assim, reservava inescapável trote para os estagiários recém-chegados. Sabendo que o estágio na área é terreno nublado e de controversa base legal, o Vitor ligava para eles, disfarçando a voz, e dava sustos enormes em despreparados focas, dizendo ser de uma comissão que, de forma imaginária, criara, a de Fiscalização do Exercício Profissional do Sindicato dos Jornalistas. E ameaçava com uma improvável suspensão preventiva do registro que a vítima nem possuía por ser estudante. Fiz plágio da ideia várias vezes como gerente de radiojornalismo da Bandeirantes. E, na redação da Gaúcha ou da Bandeirantes, demos boas – e ingênuas – gargalhadas.

Para alguns, tudo isto pode soar, hoje, como falta de profissionalismo. Enganam-se. É prova de humanismo, das relações que vão transformando colegas em amigos durante duras e estafantes jornadas de trabalho.

Conto mais uma. No dia do meu casamento, de cerimônia simples em um cartório de Porto Alegre, estava lá o Vitor como padrinho, uma das duas testemunhas exigidas pelo Registro Civil. A juíza, talvez querendo fazer uma cerimônia mais cerimoniosa, olhou para a Elisa e para mim, dizendo: “Os noivos aqui e os padrinhos atrás com suas respectivas”. Olhei para o Vitor que, sem namorada à época, estava ali sozinho e respondi: “Acho que não tem respectiva”. A cerimônia mais cerimoniosa do que esperávamos começou assim.

Ele e eu, talvez relembrando todas as bobagens por que passáramos, começamos a tentar segurar o riso. Não sei se você já passou por isto. É como uma bomba que vai sendo preparada para explodir. De repente, vem sem a menor possibilidade de contenção. A não ser por uma juíza zelosa a pedir seriedade em meio a uma cerimônia muito cerimoniosa, muito mais do que deveria ser. Mesmo assim, veio. Tornou-se estrepitosa gargalhada, das de doer a barriga e fazer as lágrimas rolarem. E foi abruptamente cortada: “Peço aos senhores que respeitem a seriedade do rito desta cerimônia”. Só faltou o cerimoniosa na puteada da juíza.

Por tudo isto, foi dolorosa, na semana que passou, a ligação do Vitor, triste, me contando da morte do seu Sérgio, o pai dele, de origem portuguesa, parte com a dona Ana, alemã por aqui radicada, da mescla, da base, da origem de uma figura tão humana quanto o meu padrinho de casamento. Ele indo para a cidade de Rolante, onde os amigos prestariam as últimas homenagens ao pai, e eu em Caxias do Sul, onde passo parte da semana na universidade.

Fiquei meio perdido, mas me veio lá pelas tantas uma certeza. Lá por cima, o velho Rochinha deveria estar, como fazia sempre, cá por baixo, escorado no velho fusquinha da Gaúcha, aguardando para dar uma volta com seu Sérgio, mostrar a paisagem e – Quem sabe? – levá-lo até algum bar, porque seria uma tristeza se não existissem bares no paraíso, para um chopp bem tirado com o Erico, o velho Mondongo. E vão, com certeza, rir e falar das diabruras e travessuras, com dose grande de humanidade, do Vitor cá por baixo. E esperar um dia a nossa chegada, que, lá por cima, deve ter muito anjo chato e querubim assanhado candidatos a um bom trote.

2 respostas
  1. Erika Hanssen Madaleno says:

    Comovente a crônica de Ferraretto. As “diabruras” dos dois jornalistas merecia um livro, mas a amizade que os une vai para o resto da vida.

  2. marcio fernandes says:

    ferraretto, estás guardando tuas colunas bem direitinho? não demora muito e elas poderão render um ótimo livro. pode apostar…

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