As palavras nossas de cada dia

Publicado em: 19/09/2012

Falo, logo existo. Permita-me, senhor Descartes, adaptar sua frase genial e trazê-la, sem quaisquer pretensões filosóficas, para nosso cotidiano palavroso. Falar é viver. Mesmo no silêncio, essencial para nosso espírito, o pensamento constrói uma teia de frases mudas, com as quais edificamos o mundo. E esse mundo humano só existe porque somos capazes de nomeá-lo, ou seja, dar-lhe sentido, significação. Palavras são a chave para a felicidade ou para o sofrimento em companhia dos outros humanos, esses seres, falantes como nós, e capazes, como nós, de enaltecer ou arrasar, de machucar ou acarinhar, com simples palavras.

Algum tempo depois da bênção da vida, lá está o filhote do animal humano aprendendo a linguagem da sua cultura, instrumento indispensável para entrar e permanecer no mundo.

Nosso dia é construído com palavras. Os que crêem já o iniciam com palavras de uma oração, quase sempre muda, mas muitas vezes balbuciada ainda entre os lençóis.

Entre um “bom-dia” inicial e um “boa noite” final construímos nosso cotidiano, assentado nas palavras e, sobretudo, na forma como as pronunciamos. Porque as palavras são deusas mágicas e subservientes, adaptando-se, com perfeição, ao nosso ser mais profundo. É impossível, ou pelo menos muito difícil, esconder daqueles que de fato prestam atenção em nós, que nos compreendem ou que nos amam, nosso verdadeiro estado de espírito, que acaba inexoravelmente revelado pelas palavras ditas, ou pela forma como as pronunciamos.

Se a mentira tem pernas curtas, quem as encurta são as palavras, impiedosamente reveladoras.

Aquele “obrigado”, mesmo dito a contragosto, em meio às contrariedades de um dia em que tudo parece dar errado, pode mudar esse dia para melhor. Porque se, para nós, essa simples palavra de agradecimento pode ser uma obrigação penosa, ela pode ser a palavra certa, consciente ou inconscientemente esperada, para aquela pessoa a quem foi dirigida.

Nosso dia é feito de palavras recheadas de contundência, muitas vezes inevitáveis. Mas é construído também da argamassa da suavidade, do cimento da delicadeza, que poderão fazer a diferença na arquitetura de mais uma jornada diária.

Falamos, logo existimos em relação com os outros. Do silêncio, lugar somente penetrável pelos outros com a ajuda das interpretações, passamos, com as palavras, à zona mais clara da explicitação. Dizer é revelar, ainda que muitas vezes essa revelação seja inalcançável para nós mesmos, podendo ser muito mais compreensível para os que nos ouvem e constróem sua interpretação de nós. E isto, por mais contraditório que possa parecer, costuma falar mais de nós que aquilo que confessamos.

Experimente, caro leitor, fazer uma reconstituição de seu dia baseado nas palavras pronunciadas. Veja como nos revelamos; como é duro reconhecer, com tristeza, que não precisaríamos ter dito aquela palavra, usado aquela expressão, pronunciado aquela frase. Mas veja também como traz alegria lembrar das palavras ternas, das frases carinhosas, das expressões simpáticas que saíram de nossa boca no decorrer desse dia.

Claro que tudo isso, prezado leitor, vale também para as palavras escritas, só que estas acrescentam a seu bem ou mal intrínsecos a qualidade da perenidade. Como ficam registradas, não merecem o benefício de podermos imaginar que são palavras que “o vento leva”.

Tenha um bom dia, caro leitor, em companhia de suas deusas mágicas e subservientes – as palavras.

1 responder
  1. Maria Rita says:

    Uau!!! Muito embora o silêncio tenha cá o seu valor, foram lindas as suas palavras!
    Reparou que minhas respostas nunca são dadas no mesmo lugar? Mereço uma crônica sobre as confusões dos dois neurônios descompensados.

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