As pessoas não entendem nada, nada, nada. É uma ignorância*

Artigo publicado em: 03/08/2009

Recentemente, Pedro Bial, apresentador do BBB, concedeu ao jornalista Mauricio Stycer, do Portal IG uma esclarecedora entrevista*, que até resultou na mudança de comportamento dos apresentadores de telejornalismo da emissora, entrevista de onde pinçamos algumas afirmações no mínimo curiosas. Vamos a elas. Por J. Pimentel

“Eu me tornei um profissional de difícil utilização na Globo. O que eu sou? Jornalista, repórter, apresentador de telejornal? Ou eu sou do entretenimento, do Big Brother? Eu sou as duas coisas, virei um radical livre dentro da Globo. E é difícil para a própria casa responder: o que vai fazer com o Bial? Por enquanto tem o Big Brother, que está ótimo, maravilhoso”.

Sobre Chacrinha ele diz:

“Sempre adorei o Chacrinha… Toda vez, antes de começar o programa, fora do ar, eu brinco de Chacrinha. Eu me inspiro nele como o patrono da informalidade na televisão brasileira. O Brasil é o país mais informal do mundo e tem uma formalidade, às vezes, na televisão, principalmente no telejornalismo, que é inexplicável. E o Big Brother me libertou, nesse sentido. Eu tive a possibilidade de ter o meu “breakdown” ao vivo, em rede nacional. Caiu o jornalista com todos os seus títulos e cerimônias e virou um cara lá…”

Sobre o jornalismo na TV ele diz o seguinte:

“O nosso telejornalismo é careta na maior parte dos casos. Você vê a BBC? Os repórteres da BBC conversam com os âncoras. A própria televisão americana. O nosso telejornalismo é careta na maior parte dos casos. Gosto muito do “Bom Dia Brasil”. Tem o tom certo. Informal e muito informativo”.

Sobre a baixa qualidade do BBB e a exaltação de seus participantes, ele comenta:

“Exaltação eu acho uma palavra pejorativa. Acho que existe vulgaridade, sim. É um programa que necessita de gente exibicionista e estimula voyeurismo. Já tem uma coisa aí que, até dez anos, era considerado perversão. Então, não é exaltação (da vulgaridade), é o nosso conteúdo. E é também, muitas vezes, um retrato fiel da educação brasileira e da juventude brasileira. As pessoas não sabem nada!!! Nada!!! Nada!!! Uma ignorância… O Max, que é o inteligente, que gosta de ler na casa, ele lê Paulo Coelho. Aliás, como milhões de pessoas no mundo. É um retrato assustador, às vezes”.

Sobre a qualidade da televisão ele diz:

“Acho que em televisão você aprende vendo até anúncio de Gelol, aprende vendo qualquer porcaria. Não acredito que se ensine, acredito que a gente aprende. E, comparando o Big Brother à tevê popular vigente, ele é muito melhor. Vejo os outros programas e são todos muito ruins. Acho o Big Brother mais bem feito, mais caprichado, melhores profissionais…”

Sobre o papel do BBB como programa de televisão Bial é incisivo:

“Não acho que a função do programa é educativa e cultural. É entretenimento. Mas um bom entretenimento pode abrir canais. Se divertir nunca é perda de tempo. É chato ficar nessa posição defensiva. Mas eu visto a camisa mesmo.”

Parece que, para Bial, sua biografia furou, questiona seu passado profissional e se considera um novo “Chacrinha”, muito pouco original, diga-se, exortando a máxima do “velho guerreiro” de que “nada se cria, tudo se copia”.

Quanto a ser radical livre, Bial viu um Zeca Camargo mais ágil e também inteligente tomar conta do Fantástico para onde pretendia voltar depois do BBB. Se ele realmente se tornou um profissional mais versátil, com certeza não lhe faltará o que fazer quando o BBB acabar, afinal ela acaba de se tornar um grande astro do entretenimento e do jornalismo. Jô Soares que se cuide.

O mais dramático de tudo é o conceito de que o telespectador é mesmo um idiota, que não sabe “nada, nada, nada, é uma ignorância”. Para ele, os participantes do BBB são um retrato do brasileiro, que não lê, que não tem cultura ou educação, no que ele está certo. Temos um sistema educacional medíocre e nenhuma política consistente para a educação, com importante contribuição dos nossos meios de comunicação.

Segundo Bial, o mais intelectual dos participantes do BBB lê Paulo Coelho, que ele abomina, num exemplo acabado de preconceito e intolerância. Enfim, ele diz, com todas as letras que a televisão produz apenas o que o povo quer e o que o povo quer é baixaria, mediocridade, “qualquer porcaria”, como ele mesmo cita.

Na verdade não se pensa no conteúdo. O que se quer é faturar, é fazer com que as pessoas se realizem na sua ignorância e alimentar esse ciclo vicioso para manter em evidência “artistas” como ele, comandando programas banais.

Foi sua declaração sobre o engessamento e formalidade do jornalismo brasileiro na TV que fez com que os atuais âncoras da Globo se tornassem atores, interpretando um bate-papo forçado diante das câmeras, fingindo ignorar o teleprompter. Pode ser que ele tenha razão, mas não dá para mudar de uma hora para outra características enraizadas na TV atual sem uma preparação adequada, até porque não são todos os apresentadores de telejornalismo com capacidade para conversas informais ou improvisos.

Bial deixa transparecer que se tornou apresentador de algo medíocre e menor para sua carreira e tenta, com argumentos discutíveis, valorizar seu trabalho e seu talento. Mas, como ele mesmo diz, as pessoas não entendem nada, nada, nada, é uma ignorância…

*A entrevista completa está no Portal IG.

1 responder
  1. Roberta says:

    Excelente entrevista, só não tiro o chapéu na parte em que ele diz que o povo que é baixaria, mediocridade! Não é bem assim não… O povo muitas vezes é obrigado a assistir porcaria e mediocridade por pura falta de opção, infelizmente a tv aberta oferece muito pouco ainda, mas isso não quer dizer que um bom programa cultural ou educativo não rendereia bons numeros e uma otima audiência. Talvez a falta de opção dos brasileiros seja a resposta desse numero ainda alto em audiência do BBB Brasil.

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