As pioneiras: Joinville no ar

Publicado em: 23/03/2005

A série As Pioneiras iniciada há cinco semanas, visita hoje a segunda estação: a ZYA-5 Rádio Difusora de Joinville. Os que estão acessando o site pela primeira vez podem se atualizar no próprio site clicando em Localizar.
Por Antunes Severo, de Florianópolis

Para quem está acompanhando a série desde o início, vale lembrar que nesta trajetória vamos cobrir as 20 primeiras emissoras do estado de Santa Catarina. A base desta reconstituição está no livro História do Rádio em Santa Catarina de Ricardo Medeiros e Lúcia Helena Vieira, lançado em 1999, pela Insular.

Um dos principais objetivos desta jornada começa a se materializar com o interesse dispensado pelos nossos assinantes, em particular, os estudantes dos cursos de comunicação social das universidades catarinenses. Isso, se verifica pelos índices de leitura das matérias e pela correspondência que temos recebido. Mais importante do que isso, porém, é a manifestação do interesse pelo estudo da história da comunicação em nosso estado.

Por isso, queremos enfatizar que o espaço do site Caros Ouvintes está a disposição de todos os interessados em publicar os seus estudos, pesquisas e trabalhos. Nesta fase, o assunto é o rádio, mas proximamente abriremos espaço para a televisão. Acaba de ser aprovado o projeto TV Catarina – comunicação, cultura e cidadania -, que vai resultar na produção de um livro, uma série de três documentários de televisão, áudio visual para palestras e seminários e um site específico do assunto. O objetivo do projeto TV Catarina é “reunir, identificar, reproduzir e apresentar documentos, depoimentos e informações da televisão em Santa Catarina no período que vai da primeira transmissão em circuito fechado, em 1956 em Florianópolis, até o ano de 2005”. O conclusão desse projeto está prevista para o final deste ano.

Agora, com a palavra Ricardo Medeiros e Lúcia Helena Vieira e seus convidados.

Joinville no ar

Irreverência, teimosia, perseverança e visão de futuro. Talvez estas palavras definam Wolfgang Brosig, homem cujo empenho conseguiu abrir caminhos para as ondas sonoras numa Joinville que, no final da década de 1930, somava  cerca de 20 mil habitantes. Com a grande maioria da população falando alemão, era natural que no setor comercial da emissora a preferência para ocupação de vagas fosse dada a pessoas que dominassem o idioma germânico, tal a influência européia na região.

Wolfgang Brosig, que estudou na escola Deustche Schule, na Manchester Catarinense, só veio a conversar fluentemente o português  a partir dos 14 anos. Lidar com meios de comunicação parecia ser o destino  de sua família, pois o avô era dono do jornal alemão mais antigo do sul do Brasil, o Kolonie Zeitung.

Devido à sua intimidade com a eletrônica, Brosig foi trabalhar no sistema de alto-falantes da cidade em 1938. Naquele ano, juntamente com alguns amigos, decidiu transmitir,  no dia 7 de setembro, o pronunciamento à nação do então Presidente da República, Getúlio Vargas. Para que tudo saísse a contento, Brosig  irradiou o discurso da sua casa, uma vez que a recepção do serviço era precária. Montando um pequeno transmissor à rua Pedro Lobo, ele abriu espaço, não apenas para a voz do chefe de estado, mas para a população joinvillense. Estava lançada a semente da primeira emissora de rádio da cidade, acostumada às ondas hertzianas brasileiras da Record e  Excelsior, além da Escuela Universal, da Argentina.

O embrião da estação tinha como estúdio o porão da casa de Wolfgang Brosig que, solitariamente, comandava a programação de seis horas, fazendo locução, operando a mesa de áudio e colocando discos. A rádio informal ficava no ar do  meio dia  às 14 horas e das 16 até às 23 horas.

“A programação, como registrou A Notícia, era apenas musical. Na hora do almoço tocavam músicas calmas, clássicas e populares. Depois, tangos e sambas e à noite havia um programa ao vivo de moda de viola. Mais tarde vieram as propagandas e a transmissão de solenidades cívicas, como desfiles militares e discursos”. (A Notícia. Caderno Anexo, 11 de fevereiro de 1996).

Em 1940 a emissora teve suas instalações transferidas para a rua das Palmeiras. Iniciou-se assim o processo de legalização da estação, que conseguiu naquele ano a outorga de autorização do governo federal para execução de serviços de radiodifusão, pela portaria 527, datada de sete de outubro e publicada no Diário Oficial do dia seguinte.  Em 1º de fevereiro de 1941 era fundada oficialmente a Rádio Difusora de Joinville, tendo à sua frente Wolfgang Brosig, Walter Brand, Eugênio Boehm e João Piepper.

O primeiro locutor oficial da ZYA-5 foi José Gonçalves, um cabo armeiro, recém egresso  do Exército, que tinha boa dicção. Ele disputou a vaga com mais 35 inscritos. Segundo Brosig, “ele falava bem o português e estava desempregado, podendo ficar à inteira disposição da emissora (…)” (Wolfgang Brosig, depoimento em 23 de setembro de 1994).

Juntamente com o popular J. Gonçalves integrava a equipe Orlando Beyerstedt na mesa de áudio e Brosig na parte técnica. A parte comercial ficou ao encargo de Juracy da Luz, uma cabocla por quem o idealizador da emissora se enamorou e casou, preterindo enlace com uma moça de descendência alemã. Foi um verdadeiro escândalo na cidade. “Como pode um alemão casar com uma blaue (azul), termo alemão usado de forma pejorativa, com o mesmo significado de cabocla”. (A Notícia. Caderno Anexo, 11 de fevereiro de 1996).

Na década de 1950, ocupando o edifício Colon, a Difusora já contava com mais nove profissionais. Vieram reforçar o quadro os locutores Aírton Conod, Omar Claro, Newton Barriola e Ruth Costa. Como operadores ingressaram na emissora Leopoldo Alípio, Renê Gonçalves, Romeu Gonçalves e Wenceslau Candido. Na discoteca estava Maria Gonçalves.

A ZYA-5 em seus primórdios registrou uma série de campanhas de solidariedade. Uma delas foi para a arrecadação de alimentos e agasalhos para os flagelados do Rio Grande do Sul, conforme o Jornal de Joinville: “(…) Expoente máxima dos grandes empreendimentos, atalaia sempre alerta da cidade, que se dispôs vibrar aos infindos céus da terra brasileira o grito estridente do valor e do progresso da ‘Manchester Catarinense’, a ZYA-5, não quis emudecer a sua voz em face da mais benemérita  campanha promovida em todo o país para socorrer as vítimas do flagelo riograndense”. (Jornal de Joinville. Nº 64, 5 de junho de 1941).

Uma outra campanha foi feita em favor do Asilo Municipal de Órfãos Abdon Batista. Como parte da mobilização, a emissora decidiu gravar uma apresentação do coral infantil da instituição. Só que nem tudo saiu como planejado, conta Wolfgang Brosig: “Naquele tempo o gravador era grande e as fitas, de papel. Geralmente só tinha uma. Então gravamos toda a cantoria e depois fizemos a montagem, que consistia nas seguintes etapas: ouvir o canto, cortar, colocar de lado, fazer a parte falada e grudar os pedaços de fita com durex. Depois que eu e minha mulher já tínhamos deixado tudo arrumado em cima de uma mesa grande e fomos começar a colagem, aconteceu um desastre: entrou um gaiato, abriu a porta e voou tudo com o vento. Levamos uns três dias para acertar aquilo de novo”. (A Notícia. Caderno Anexo, 11 de fevereiro de 1996).

Na próxima semana: Difusora de Itajai, a rádio que surgiu como uma curiosidade.

1 responder
  1. virginia barriola says:

    Fico orgulhosa de ver lembrado o nome de meu querido pai, infelizmente já falecido neste ano.
    obrigado…

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