As pioneiras: PRC-4 – Blumenau

Publicado em: 16/03/2005

Hoje concluímos a apresentação da narrativa que conta a história da Rádio Clube de Blumenau. Nesta saga destinada a reviver os primeiros momentos do rádio em Santa Catarina, chegamos a um momento muito carinhoso.
Por Antunes Severo, de FlorianópolisOs autores, nesta etapa falam do pioneiro que foi João Medeiros Júnior e de seus primeiros colegas de microfone.
Este trabalho, além de reproduzir o que escreveram Ricardo Medeiros e Lúcia Helena Vieira, tem objetivos mais amplos. Queremos ampliar este estudo e, se possível, trazê-lo até os dias de hoje para que a história do nosso rádio, como diz o nosso slogan, “não se perca no ar”. Felizmente, os primeiros frutos estão aparecendo. Ainda ontem, recebemos a manifestação do Tiago Diersmann, de Joaçaba que vai contribuir com o resultado de sua pesquisa sobre a Rádio Sociedade Catarinense, a nossa quinta estação na série das 20 pioneiras que compõem este projeto.
Alimentamos a esperança de que outras manifestações ocorram com relação às outras 19 estações programadas, conforme divulgado nas edições anteriores. Agora, acompanhe “A programação e o carisma de um pioneiro”.

A história da Rádio Clube “é muito interessante”, diz o radialista Vitoriano Cândido da Silva, conhecido por “Tesoura”. “Ela funcionava esporadicamente na parte da manhã; à tarde às vezes não entrava; à noite ficava um pouco; era sempre indefinido; sempre por tempo indefinido”. Em 1935, quando passou a chamar-se Rádio Cultura de Blumenau, entrava no ar às 9 horas prosseguindo até às 11 horas. À tarde funcionava das 15h às 17 horas.
Os motivos das interrupções eram vários. Especialmente a fragilidade dos equipamentos, que esquentavam muito com o funcionamento contínuo, tendo, então, que desligar para esfriar novamente. Outra razão é que o rádio ainda representava lazer, um hobby para os que nele trabalhavam. Isso foi por muitos anos, tendo as pessoas que manter outros empregos para sobreviver.

A programação era toda ao vivo, exigindo sempre a presença de, pelo menos, um locutor, que só poderia estar na estação nas horas vagas. Na parte da manhã a locutora era Atalá Branco. À tarde revezavam-se João Medeiros Júnior e José Ferreira da Silva. Mais tarde, foi também locutor da Rádio Clube Manoel Pereira Júnior.

Em 1936, quando foi concedida a primeira licença para funcionamento, a emissora entrava no ar às 6 horas da manhã, saindo só às 23 horas. Esse horário permaneceu por, pelo menos, cinco décadas.

Na primeira fase, não se pensava ainda na função jornalística do rádio. Eventualmente lia-se algumas notas publicadas pelos jornais ou emitia-se alguma comunicação a pedido. “A rádio só vivia em função de anúncios e de músicas. Um programa que durou muitos anos foi Peça a sua Música; era um programa de oferecimentos musicais. Os ouvintes ofereciam a parentes e amigos”, diz Tesoura, lembrando que esses oferecimentos eram pagos também. No final da década de 30, ao tempo da Segunda Guerra Mundial, Pereira Júnior noticiava alguns acontecimentos da Europa, porém, sem horários definidos.

“Seu espírito permaneceu sempre jovem” descreve Armando Luiz Medeiros (1996) sobre João Medeiros Júnior, seu tio. “Quem o conheceu certamente também conheceu suas brincadeiras”, relembra. Sério e determinado em todos os seus empreendimentos, Medeiros Júnior não perdia oportunidade de dar graça ao cotidiano. Assim foi desde menino, quando soltou os arreios da sela do cavalo do diretor do Colégio Catarinense, em Florianópolis, onde estudava, num passeio pela Lagoa da Conceição. Na subida, o padre  foi escorregando até cair do cavalo com sela e tudo…

Em Laguna, onde morou e foi gerente da Empresa Horn, ainda jovem, exerceu também as funções de editor de um jornalzinho local. Certa vez, conta Armando Medeiros, por falta de notícia relevante, publicou em manchete alarmantes informações de que, ‘segundo rumores não confirmados’, teria caído um bode na caixa d’água da cidade. Como conseqüência, formou-se quase uma revolta popular contra a prefeitura, que exigia a divulgação da origem da notícia, mantida como ‘segredo de imprensa’ pelo editor.

Não foi diferente na Rádio Clube de Blumenau. Muitos foram os trotes por ele ministrados através da emissora, relata Armando. Um dia, a rádio anunciou a chegada de um avião que, às tantas da tarde, iria pousar na pequena pista do bairro de Itoupava Seca. Evento raro, mas que, dessa vez, não aconteceu, decepcionando um sem-número de curiosos que para lá se haviam deslocado, mobilizados pelo anúncio.

Outra vez a emissora anunciou uma demonstração de força por um elefante do circo que estava na cidade. Em hora aprazada, o animal arrancaria uma árvore do Jardim Municipal, em frente à prefeitura. O anúncio juntou imensa multidão de curiosos, dispostos a assistir ao nada ecológico espetáculo. Em ambos os casos, Medeiros Júnior estava discretamente presente para zombar daqueles que não se haviam lembrado da data das duas brincadeiras: primeiro de abril.

João Medeiros Júnior nasceu em Desterro, hoje Florianópolis, a 11 de fevereiro de 1893, durante a tragédia que lacerava o sul do país e culminou com a repressão comandada por Moreira César. Fez seus primeiros estudos na escola do avô, professor Balduíno Antônio da Silva Cardoso, completando a instrução formal no Colégio Catarinense. Sua grande erudição, porém, provinha de uma formação autodidata.

Foi assim que recebeu o título de contador provisionado, concedido pela Superintendência de Ensino Comercial da República e, também dessa forma, exerceu funções de consultoria jurídica, ao ser solicitado a escrever os estatutos da Casa do Americano, que se constituía em sociedade anônima. Sua vida profissional começou cedo. Jovem ainda, trabalhou na Empresa Horn, onde se iniciou nas artes do comércio, como viajante encarregado de cobranças e pagamentos. Passou pela contabilidade da empresa e chegou a gerente, estabelecendo-se em Laguna.

De volta a Florianópolis, foi convidado pela Empresa Industrial Garcia a estabelecer-se em Blumenau, onde trabalhou de 1924 a 1940, chegando ao cargo de diretor. Em 1940, mudou-se para o Rio de Janeiro onde foi representante comercial da Garcia por mais de 30 anos.

João Medeiros Júnior foi um homem de grande atividade social e desportiva, tendo fundado e incentivado pelo menos dois clubes de futebol em Blumenau. Depois da Revolução de 30, foi escolhido membro do Conselho Consultivo do Município (a Câmara Municipal de então) em dois governos e nomeado suplente de juiz de direito.
Por toda a década, conta Armando, exerceu ainda um “verdadeiro papel de relações públicas da prefeitura, tanto por sua capacidade de comunicação como por sua imponente figura”. Quando Getúlio Vargas visitou Blumenau, continua, “foi João Medeiros quem a seu lado desfilou em carro aberto pela Rua XV”.

João Medeiros Júnior foi casado com Clara Mendel, com quem teve quatro filhos: Newton, oficial do Exército; Moacyr, seu braço direito nas atividades comerciais como na Rádio Clube; Mário, engenheiro; e Esther (Baby). Desfeito o casamento, passou a vida dedicado à sua segunda esposa, Paula Hadlich, que até hoje vive no Rio de Janeiro. 

Armando conclui: “Conservando até o fim este espírito jovem, faleceu a 27 de novembro de 1970 (no Rio de Janeiro), quando um fulminante infarto destruiu seu imenso coração. Deixou apenas amigos, pois não tinha inimigos nem sabia guardar rancores”.

Fontes consultadas:   Depoimento prestado em 1982. MEDEIROS, Armando Luiz. João Medeiros Júnior – Figura do Passado, in Blumenau em Cadernos, Blumenau, abril de 1996. p.117.   MEDEIROS, Armando Luiz. João Medeiros Júnior – Figura do Passado, in Blumenau em Cadernos, Blumenau, abril de 1996 , p.117.

Leia na próxima semana: Joinville no ar.

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