As pioneiras: Rádio Difusora de Laguna

Publicado em: 19/04/2005

A Rádio Difusora de Laguna Sociedade Ltda, depois de fundada em 1943 pelos sócios Nelson Alves de Paula Almeida, Erotides Guimarães e Carlos Horn, nos seus 62 anos já completados, passou por várias e diferentes mãos.
Por Antunes SeveroAinda nos primeiros anos de vida surgem as primeiras substituições: saem Erotides e Carlos e entram os caciques do PSD – Partido Social Democrático -, Joaquim Ramos e Aderbal Ramos da Silva. Em 1954 ocorre nova alteração na equipe: sai Nelson e entra Pompilho Pereira Bento, que até então não jogava mas mandava no time.
E assim continuou por anos a fora. Ainda em 2001 ocorre outro revezamento no time. Saem os integrantes da família Freitas de Criciúma e entraram Linto Salvaro e Sandra Regina Salvaro Lazzarin, também de tradicional família de empresários do sul do estado. De acordo com o Diário Oficial da União de 12 de novembro de 2004, o valor da transferência foi de R$ 7.595,70. Esta negociação, entretanto, segundo divulgado pela coluna de Moacir Pereira, em A Notícia, estava definida desde maio de 2000: “Rádio – O empresário Henrique Salvaro, tio do deputado Clésio Salvaro e seu maior incentivador, inaugura hoje a nova sede da Rádio Difusora de Laguna. A emissora foi adquirida há dois meses. Salvaro negocia outra estação de rádio no Sul do Estado”.
Mas, nesta história, um dos pioneiros é mesmo Nelson Almeida. De acordo com Agilmar Machado no livro História da Comunicação no Sul do Estado, Nelson Alves de Paula Almeida, paranaense, nascido em Paranaguá, no final da Segunda Guerra Mundial aportou em Laguna e logo fez amizade com Pompilho Bento “o mais prestigioso chefe político daquele tempo”.

Nelson, ainda segundo o relato de Machado, “era um apaixonado pelo rádio e já trazia alguma experiência do vizinho estado do Paraná”, mas não tinha como se manter na cidade. Precisava de um meio de subsistência. Pois, estava decidido a instalar o serviço de alto falante “Rádio Tupã” tendo como sócios os amigos Carlos Horn e Erotides Guimarães. Nesse momento foi decisiva a ajuda do amigo Pompilho: ele montou uma leiteria para Nelson administrar e assim se manter na cidade. A história não registra como se deu a transformação, mas o fato é que em 23 de janeiro de 1943 “entrava no ar a Rádio Difusora de Laguna”.

No livro A História do Rádio em Santa Catarina, Ricardo Medeiros e Lúcia Helena Vieira, registram o depoimento do radialista João Manoel Vicente que confirma: “A atual  Rádio Difusora de Laguna iniciou sua história a partir de um serviço de alto-falante, em 22 de novembro de 1943. Transformou-se depois em Rádio Tupã, atuando sem prefixo na região. Mais tarde, a estação entrou no ar em 23 de janeiro de 1946, já se denominando Difusora de Laguna, a ZYH-6, freqüência de 1160 Khz. Para escolher o novo nome, os sócios fundadores Nélson Almeida, Erotides Guimarães e Carlos Horn realizaram um concurso junto aos ouvintes”.

A Radio Difusora, afirmam Medeiros e Vieira, “entrava no ar às 7 horas,  interrompendo sua programação às 14 horas. Reiniciava as transmissões às 16 horas, encerrando-as às 22 horas”. O intervalo das 14 às 16 horas era necessário para evitar desgaste maior do transmissor de 100 watts, esclarece João Manoel.

Nessa fase, ainda ao sabor do rádio-diletantismo a grade inicial de programação se restringia a músicas clássicas, eruditas e um grupo seleto de melodias brasileiras.

Luiz Napoleão, um dos primeiros locutores da emissora, tornou-se protagonista de uma das cenas que comprovam como alguém virava radialista do  dia para noite ou vice-versa. Vindo de Criciúma,  em 1947, procurou Nelson Almeida, pois desejava integrar o quadro da emissora. O diretor não titubeou: “vai lá para o palco, apanha aquele microfone e começa a falar como se estivesse apresentando programas musicais informativos e show. Se conseguires fazer com que os estudantes (que faziam ponto defronte à emissora,  na Praça do Jardim) entrem no auditório em bom número, serás contratado”.

A Rádio Difusora que começou sem partido político, ao ser vendida para os líderes políticos Aderbal Ramos da Silva, Joaquim Ramos e Pompilho Pereira Bento, assume a defesa dos ideais pregados pelo PSD – Partido Social Democrático. E passa, então medir forças com o  jornal Correio do Sul, de propriedade do advogado João de Oliveira , ligado à UDN.
 
Além de Nélson Almeida, considerado a ‘voz de veludo do rádio’, e Luiz Napoleão, foram  locutores da emissora  de 1946 a 1950. Edgar Bonassis, Dakir Polidoro, Dib Cherem, Antônio Espíndola Ferreira, Hélio Kersten Silva e Valmor Silva. Nas décadas de 50 e 60 os destaques foram Agilmar Machado, Ariosvaldo Machado, Sinval Barreto, João Manoel Vicente, André Martins, Lício da Silveira, Paulo Nilson Prado Baião e Júlio  de Oliveira.

Enquanto se manteve sob a orientação de Nelson Almeida, a Rádio Difusora primou pela qualidade de sua equipe profissional, pela atualização dos equipamentos eletrônicos necessários ao exercício de sua atividade e pelos aperfeiçoamentos e inovações ocorridas na comunicação eletrônica da época. O registro é de Agilmar Machado em seu livro História da Comunicação no Sul de Santa Catarina:

Nelson Almeida era extremamente exigente na formação das várias equipes que atuaram na Rádio Difusora de Laguna, assim como na qualidade da programação e na magnitude das promoções eventuais. Logo que acionou a emissora, de pronto propôs a conceituados profissionais de Florianópolis a vinda destes para atuar na Laguna. O primeiro locutor era um dos excelentes valores da Rádio Guarujá, a principal do Estado. Seu nome: Edgar Bonassis da Silva, que juntamente com Ivo Serrão Vieira, Hélio Kersten e tantos outros, começara a longa caminhada de sucessos da grande emissora florianopolitana. Em seguida, Bonassis traria Dib Cherem (depois prefeito da capital, deputado e desembargador) e Dakir Nilton Polidoro (“Hora do Despertador”).

Luiz Napoleão seria o primeiro “speaker” nativo do sul (natural de Criciúma) a mostrar suas qualidades como locutor em um prefixo da sua região. Começara num serviço de alto-falantes, um pouco antes, juntamente com Ire Guimarães, em sua terra natal.

Valmor Silva também viria a compor a equipe da Difusora de Laguna na área esportiva, que passava a ser liderada pelo inimitável lagunense Newton Prado Baião. Prado Baião era, também, técnico do Barriga Verde Futebol Clube, de Laguna, time que nas disputas com o Lamego formava o clássico da cidade. Por sinal, o presidente do Lamego, Júlio Marcondes de Oliveira, também passaria a ser um dos precursores dos comentários esportivos na Rádio Difusora de Laguna.

Nelson Almeida, movido sempre pelo seu contagiante entusiasmo, com fortes doses de procedente vaidade, imprimiu à sua emissora um cotidiano bastante avançado para a época, tanto técnico, quanto artístico e jornalístico. Na sucessão de contratações, em 1953 Nelson foi buscar, na Rádio Eldorado de Criciúma, o jornalista Aryovaldo Huáscar Machado, a quem pretendia (como o fez) transferir a direção executiva da emissora.

Edgar Bonassis já deixara a emissora, retomando a Florianópolis. Napoleão mudou-se para a Rádio Tubá, de Tubarão. Um pouco mais tarde, Walmor Silva também rumava para Tubarão, até por que exercia concomitantemente o cargo de enfermeiro do Samdu e fora transferido para a Cidade Azul. Também de Criciúma, transferiu-se para Laguna o jornalista Agilmar Machado. Com o retomo de Aryovaldo Huáscar Machado para Criciúma, seu irmão, Agilmar, assumia a direção da emissora em 1954.

Permaneceram sempre fieis e eficientes Newton Prado Baião e Dakir Polidoro. Novos valores foram contratados, dentre os quais, os novos Manoel Martins, José Paulo Arantes, Luiz Carlos Ambrozini (locutor e exímio pianista), Sinval Barreto, Ivone Rosa da Silva, André Martins, Alceu Medeiros, Wilfredo Silva, Jucemar Otávio e o sempre dedicado Carlos Horn.

O primeiro equipamento que gerou a Rádio Tupã, serviço de alto-falantes que precedeu a Rádio Difusora de Laguna, foi montado pelo competente rádio-técnico Carlos Rodrigues Horn, também um dos sócios da peculiar empresa. Quando entrou no ar em caráter definitivo e oficial, funcionando com a potência de 100 watts, o transmissor da estação era um Byington, de segunda mão. Os equipamentos de estúdio se constituíam em uma carcaça da mesma marca, porém, os componentes foram totalmente substituídos por peças mais aperfeiçoadas, pelo mesmo Carlos Horn, que foi um verdadeiro gênio da eletrônica da época.

Somente quando recebeu autorização para operar com 250 watts é que adquiria, da Sociedade Técnica Paulista, um conjunto de transmissor, mesa de estúdio e maleta para externas, todas da marca STP. A STP era uma montadora de São Paulo que, com enorme vantagem para pequenas potências (até 1000 watts), competia com as mais famosas marcas mundiais. Faziam parte da STP conceituados engenheiros eletrônicos oriundos daquelas empresas multinacionais. Depois, um dos chefes da equipe de engenheiros, Sidney Moratto, deixaria a STP e montaria a Elmo -Eletrônica Moratto, passando a fornecer excelentes aparelhagens para ondas médias e longas.

A Difusora foi uma das primeiras emissoras de Santa Catarina a adquirir um gravador de fita. Era um aparelho enorme e pesado, da marca Webster. Poucos anos após, pequenos cassetes o substituiriam com muita vantagem e fidelidade.

Os tempos foram passando e a concorrência começa a aparecer. Atenta, a equipe da Rádio Difusora de Laguna, empreende total reformulação para enfrentar os novos tempos, representados pelo inicio de operações da Rádio Tubá de Tubarão.

A programação de shows foi fomentada sensivelmente, não só diretamente do amplo auditório da própria emissora. Com a atuação de Carlos Horn a garantir a parte técnica e André Martins assegurando excelentes contatos na praça de Tubarão, a Difusora iniciou a sua efetiva participação no mercado tubaronense.

Os primeiros grandes programas de auditório reuniam calouros e profissionais da música brasileira e internacional. Dos valores locais, Manoel Silva (cantor), Emanuel Maiato (cantor), Custódio (cantor), Aliatar Barreiros (cantor), Murilo Ulisséa (pianista), Izália Viana (pianista), Enita Vieira (cantora), Paulinho Baeta (instrumentista), Orgel Viana (instrumentista) além do fenomenal Conjunto Melódico Ravena, sob a direção do saudoso pianista Álvaro Alano, violinista Ricardo BrandI e muitos outros excelentes valores artísticos. A toda essa equipe lagunense aliaram-se o aplaudido Conjunto Lagunense e a sempre lembrada orquestra Siderurgia, de Capivari de Baixo, bairro de Tubarão, eleitos para as mais memoráveis apresentações.

Dos valores nacionais e internacionais que passaram por Laguna, muitos deles por várias vezes, certamente a primeira lembrança recai obrigatoriamente na fabulosa Orquestra de Espetáculos Casino de Sevilla, sob a direção do maestro Pio Torrencillas e participação dos “cantantes”, Alberto DeI Monte, Pedro da Silva e José Maria Madrid. A respeito dessa fabulosa orquestra de shows e dança observa o nosso estimado Antônio Marega: “A primeira apresentação da Orquestra de Espetáculos Casino de Sevilha foi em 18 de fevereiro de 1954. Ela veio ao Brasil especialmente convidada para as festas do IV Centenário de São Paulo. Depois, em turnê até Montevidéu, passou por Laguna, apresentando-se no imponente palco do Cine Teatro Mussi e participou de baile no Clube Blondin. “Mambo Árabe” e “Caixinha de Música” foram os maiores sucessos.

O show no Cine Teatro Mussi foi integralmente transmitido pela ZYH-6, Rádio Difusora de Laguna, para todo o sul do estado, pelo jornalista e locutor Aryovaldo H. Machado, sob o patrocínio da Cobrasil.

Por oportuno, vale lembrar que a Casino de Sevilha é parte da história da própria Espanha, com mais de 400 anos de existência (já em 1954). Na primeira apresentação em Laguna ainda não a integrava o cantante Alberto Del Monte; como intérprete romântico, contava a orquestra com o espanhol Pedro da Silva e, para as bulerias e outras interpretações espanholas, o alegre e versátil José Maria Madrid.

Em transmissões diretamente do palco do Cine Teatro Mussi, dos clubes Blondin e Congresso, ou ainda do próprio auditório da emissora, Laguna assistiu também a outros valores artísticos conhecidíssimos e famosos como Gregório Barros, Orquestra Típica de Tangos de Miguel Calo, Orlando Silva, Ruy Rey e sua orquestra, Dalva de Oliveira, Sílvio caldas, Nelly Lujan, Anita Otero, Nelson Gonçalves, Nilo Chagas (ex-Trio de Ouro), Vicente Celestino. Gilda de Abreu e Orquestra Suspiro de Espana, entre outras.

Todos esses eventos eram verdadeiros espetáculos de gala, mais especialmente as garbosas apresentações da Casino de Sevilla.

Um monumental show da orquestra precedia a parte dedicada posteriormente às danças. No show, arranjos fabulosos de músicas espanholas tradicionais, como “Boda de Don Alonso”, “Granada”, “Bulerias”, “El Mar y Tu”, “Gondoleiros de Amor”, “Caixinha de Música” e muitas mexicanas de reconhecido sucesso na época. Uma música brasileira, com letra espanhola, constava do requintado repertório da Casino: “Ave Maria” de Herivelto Martins, que fora uma criação de Dalva de Oliveira.

A Casino de Sevilla acabou se tornando um símbolo artístico tão marcante, que suscitaria a criação do excepcional Conjunto Melódico Ravena, em seu mais requintado estilo. Deste faziam parte os mais novos expoentes da arte musical da Laguna, liderados pelo sempre lembrado pianista, maestro e arranjador Álvaro Alano.

Fontes bibliográficas

Agilmar Machado. História da Comunicação no Sul de Santa Catarina. Parte 1. Criciúma: BTC Comunicações Ltda, 2000. Ricardo Medeiros e Lúcia Helena Vieira. História do Rádio em Santa Catarina.Florianópolis: Insular, 1999.
Sites relacionados

http://www.acaert.com.br/
http://an.uol.com.br/2004/mai/23/index.htm
www.radios.com.br/rela_am3.htm
http://www.acle.com.br/agilmar/curriculo.htm


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