As pioneiras

Publicado em: 23/02/2005

A partir de hoje e pelos próximos meses você encontra aqui um pouco da história das primeiras emissoras de rádio instaladas em Santa Catarina. Aqui estarão os autores, os atores e os seus públicos: os ouvintes de rádio. Venha, o caminho é por aqui.
Por Antunes Severo, de Florianópolis

Feliz da geração que viveu os tempos de ouro do rádio de Santa Catarina. A frase dita por Paulo Brito, está na orelha do livro História do Rádio em Santa Catarina,  de Ricardo Medeiros e Lúcia Helena Vieira, lançado pela Insular em 1999.

É com base nesse livro que faremos esta viagem que passa pelas 20 estações instaladas no estado no período de março de 1936 a setembro de 1949. Os caminhos sinuosos e ricos em vales, rios e montanhas, vão de Blumenau, no Vale do Itajai a Videira, no Vale do Rio do Peixe. Passam por Joinville, Itajai, Florianópolis, Joaçaba, Laguna, Brusque, Rio do Sul, São Francisco do Sul, Tubarão, Lages, Canoinhas, Caçador, Rio Negrinho, Jaraguá do Sul, Chapecó, Criciúma, Araranguá e Videira, exatamente nessa ordem. Indo e vindo, como no balanço das ondas do mar, ou no vai-e-vem do pássaro que alimenta os filhotes nas florestas.

A você caminhante, também apaixonado pelo rádio, com toda a humildade digo e repito: isto é só o começo. Os caminhos que trilhamos são meras picadas diante do que está por fazer. E fazer de pressa, porque a história do nosso rádio não pode se per no ar. Como nas tropeadas, fazemos aqui o papel do sinuelo, o boi que vai sozinho à frente marcando o caminho para tropa. Hoje não há mais desculpas, os cursos de comunicação estão espalhados por toda parte e podem assumir, em cada região, em cada cidade, a tarefa de orientar seus professores e alunos a pesquisarem a história dos seus meios de comunicação. Por hoje é isto. Leia o texto de abertura do livro clicando em O poder das ondas. Boa viagem.

Dois ladrões estão roubando uma residência, quando de repente toca o telefone. É de um programa de auditório de rádio. O apresentador diz que “você foi o escolhido para adivinhar qual é a música”. Tocada a melodia, os larápios respondem: “Dançando no Escuro”. A resposta está correta. Eles também acertam a segunda música, “Chinatown”. Para ganhar todos os prêmios, os ladrões têm que acertar mais uma. “O Cachimbo do Marinheiro” é a resposta certa. Pronto, ganharam todos os prêmios. No dia seguinte o casal assaltado retorna para casa e dá pela falta de 50 dólares. Porém, recebe a visita de um caminhão de utensílios domésticos, fruto da participação  no programa de auditório.

Numa outra cena radiofônica, o pai está abraçado ao seu filho. Eles ouvem que a menina Polly Phelps  está presa no fundo de um poço desde o meio dia. Os repórteres acompanham ao vivo a tentativa de resgate. O campo está sendo iluminado por canhões. O Corpo de Bombeiros está no local há horas. Algo começa a acontecer. Todos torcem pelo resgate. Está balançando a corda, senhoras e senhores radiouvintes. Esperem um minuto. Meu Deus! Polly Phelps está morta. E, ao pé do rádio, pai e filho choram a morte de Poly, assim como milhares de pessoas em bares e cafés.

Desde o  surgimento do rádio nos anos 20, o mundo  começou a ser “visto” e imaginado através dele. Tornou-se o elo de ligação entre as pessoas que ganhavam prêmios, entretinham-se e emocionavam-se com o novo meio de comunicação, que virou veículo de massa, tão bem retratado por Woody Allen na película “A Era do Rádio”. O fenômeno espalhou-se por todos os países, sendo muito utilizado também para difusão de doutrinas ideológicas. Que o digam Franklin Roosevelt, Adolph Hitler, Benito Mussolini e, é claro, Getúlio Vargas.

O livro História do Rádio em Santa Catarina vem delinear a trajetória do veículo em solo barriga-verde, desde o seu nascimento, no alvorecer da década de 30, até meados dos anos 60, quando o regime autoritário instalado no país calou músicos, atores e jornalistas. A partir de então, os microfones das emissoras, por cerca de 20 anos, passaram a transmitir uma outra etapa da história da radiofonia, não registrada nesta obra.

A presente publicação contempla as pioneiras do rádio, englobando a Rádio Clube de Blumenau, nascida na década de 30, e 18 emissoras surgidas no decênio seguinte. A exceção fica por conta da inclusão da Rádio Diário da Manhã que, a partir do momento em que entrou em operação na capital, em 1955, tornou-se  padrão para as demais.
Este trabalho sustenta-se em documentos mas, basicamente, em depoimentos de radialistas que construíram, com  coragem e determinação, a época de ouro da radiofonia catarinense. A pesquisa inicial foi feita ainda em 1982, tendo resultado na monografia A História do Rádio Catarinense na Voz de seus Atores (UFSC,1982), trabalho de conclusão do curso de graduação da jornalista Lúcia Helena Vieira e embrião desta obra.

Leia na aproxima semana: Peculiaridades de Santa Catarina.

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *