As Rezadeiras

Publicado em: 16/01/2014

Vivemos um tempo sem fé. Digo fé, não religiões ou seitas, que estas se multiplicam celeremente. Todo dia, novos “templos” e novas casas de oração surgem em cada esquina. Nada contra. Mas refiro-me àquela fé autêntica, àquela esperança verdadeira, àquela confiança cega no advento de milagres que produzem curas de doenças, efetivas melhorias de vida, coisas assim, operadas no dia-a-dia pela mão da transcedência, na visão dos que crêem. Este tipo de fé já quase não vejo. E por isso me lembro das rezadeiras.

Onde andarão as verdadeiras rezadeiras? Creio que, mesmo nos fundões do Brasil, é difícil encontrá-las – essas sacerdotisas do cotidiano, prontas a tirar os comuns dos mortais dos seus pequenos apertos.

Minha avó rezava quebrantos, mau-olhados e machucaduras. Herdara isso de sua avó. Não era mais uma daquelas rezadeiras inteiramente mergulhadas em suas práticas curativas, mas ainda mantinha bem essa linhagem de representantes do sagrado, sendo ainda bastante solicitada pelos amigos e pelos vizinhos.

Desde que me entendi por gente, e depois já rapaz, eu me submetia às rezas de Vó Amélia, sobretudo quando surgia alguma machucadura. Alguns fragmentos de suas rezas ainda ecoam em minha memória, senão com a inteireza desse tipo de fé, que andei perdendo aí pelo caminho, mas com a magia das fórmulas das rezaduras.

Lembro-me das ocasiões em que os entrechoques nas peladas de rua, ou os tombos de patinete ou bicicleta, me presenteavam com inchaços bem doloridos e manchas acentuadamente roxas em alguma parte do corpo. Então, era “rezado” ou “benzido” por minha avó.

Interessante nessas rezas ou benzeduras é que a dimensão mágica e inefável se socorria de uma base bem material. Minha avó criava uma espécie de almofadinha com panos dobrados, que mantinha a poucos milímetros do lugar machucado, e era sobre ela que operava seus “passes de benzedura”.

“Assim mesmo te coso… Se é carne sagrada… Se te cozo com a agulha sagrada… Se é carne estragada… Se é osso torto”…

Infelizmente, a memória me trai quanto à íntegra dessa fórmula, recitada com voz ritual, monocórdia, cantante. E, enquanto entoava as palavras mágicas, minha avó ia cosendo o pano, no qual realmente enviava e tirava a agulha em que se prendia uma linha comum mas absolutamente nova, retirada para isso diretamente do carretel.
A reza continuava por bom tempo. Eu me lembro das muitas vezes em que, ao mesmo tempo em que via e ouvia minha avó fazendo sua rezadura, olhava os raios de sol da tarde decrescendo de intensidade, como decrescia a dor que a pancada tinha provocado.

Outro problema para o qual minha avó, como rezadeira, recebia muitas solicitações de benzedura era a “espinhela caída”. Muito interessante era observar como as pessoas rezadas saíam aliviadas, desempenadas, eretas, afirmando que sua “espinhela”, na verdade a espinha ou coluna vertebral, estava curada.

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *