Entries by J. Carino

Domingo chuvoso

  Escrevo, e ouço a chuva tamborilando no vidro da janela. Será que o recolhimento induzido pela chuva combina com domingos? Domingos não correspondem mais a dias de sol? A parques, a corridas e algazarra de crianças entre árvores frondosas, a passeios? Até nossas almas não parecem querer sair dos corpos e assumir uma vida […]

Sons na madrugada

Os sons são um ingrediente indispensável na construção das madrugadas. Noite adentro, há um mundo à parte criado pelos sons. Na madrugada, tudo ecoa; tudo é ruído, entonação; mesmo o silêncio ressoa, nem que seja somente dentro das almas insones. Mínimos barulhos se engrandecem e fazem-se presença forte e por vezes ensurdecedora, na madrugada. Um […]

Eu, seresteiro

Eu, seresteiro, vivo pelas canções. Minh’alma se alimenta de acordes e harmonias; meu corpo, do luar que banha as ruas nas madrugadas calmas. Meu coração-cantor entoa cantigas – de dor, saudade, ciúme, mistério, paixão – que são sempre de amor. São um amor profundo pela vida, pelas pessoas, pelas coisas, traduzido em versos casados com […]

A cigarra na tarde

Monótono, grave, encorpado, de timbre inconfundível – eis o canto da cigarra. O suor poreja em nossa pele. O verão cobra seu preço, tornando o ar abafado. Ah, como sonhamos com cascatas de águas frias entre árvores numa serra! Quem dera agora uma bebida ou sorvete bem gelados! Nosso corpo sofre com o calor, mas […]

O fascínio das roupas velhas

Quase todo mundo parece ter fascínio por peças de roupa velhas. Aquela camisa, aquele vestido, aquela calça, aquela saia têm alguma coisa que faz com que nos prendamos a elas, coisa que as roupas, quando novas, não nos podem oferecer. Que mistério envolve essas roupas usadas que as fazem despertar nossa atenção? O conforto, sem […]

Meu Jasmineiro

Todos nós trazemos da infância marcas indeléveis, inclusive as adoráveis. Em mim sobrevive, para minha felicidade, o cheiro de jasmim dos jardins suburbanos. Ainda hoje, esteja onde estiver, caso sinta, ainda que de leve, essa fragrância única, sou transportado na voragem da memória para as casinhas simples porém todas singelamente ajardinadas em que vivi. E […]

Escritores e o abismo do nada

Calma, prezado leitor. Já me explico, para que esta modesta crônica não fique parecendo com uma dissertação filosófica. Escritores sempre tiveram pavor de que seus escritos se apagassem, desaparecessem sem deixar vestígios. Era o pavor de que aquelas palavras grafadas depois de muito esforço, muito suor para domar as idéias e trabalhar a inspiração, sumissem, […]

Filas

Prezado leitor ou ouvinte, hoje eu estava numa fila refletindo sobre… filas. Provavelmente, você já fez a mesma coisa. Por isso, o convido a pensarmos juntos sobre elas. Não desejo buscar as raízes históricas dessa prática. Nem mesmo recuar muito, pois poderíamos chegar à fila primordial para cada um de nós: a fila dos espermatozoides no […]

Varandas

Varandas humanizam as casas com sua possibilidade de abrirem nosso olhar e nossos corpos para o imenso mundo lá de fora, mesmo quando permanecemos no abrigo seguro do lar. Olho daqui e vejo varandas suspensas em quase todos os edifícios mais novos em volta. Essa é uma salutar tendência incorporada às moradias verticais. Já que […]

Um doce pesadelo

Pesadelo doce? indagará o caro leitor. É isso mesmo, pois, como verá, não se trata de um pesadelo horrível, como é da natureza desses sonhos maus. Tenho esse pesadelo recorrentemente. É assim. Sonho que estou vagando num barquinho, pequenino e frágil, uma “casca de noz”. Navego na Baía de Guanabara. Vejo ao longe a maravilhosa, […]