Entries by J. Carino

Pequenos grandes mistérios

Para onde vai a brisa morna da tarde que, delicada e suave, nos roça a pele, desalinha de leve o cabelo e desaparece sem deixar vestígio, senão a memória dessa poesia de vento em nosso corpo? De onde vêm e para onde irão aqueles perfumes que, de repente porém intensamente, nos invadem as narinas? Em […]

Olhando as estrelas

A maior prova de que há menos vivência de poesia no mundo é que quase ninguém mais olha as estrelas. Repare, caro leitor ou ouvinte, que falo em vivenciar a poesia, não apenas em escrever versos, bons ou de pé quebrado, inspirados ou lamentáveis, assaz melosos ou lamentavelmente ideologizados. Vivenciar é mais que isso, é […]

Em busca da tarde suburbana

Na tarde suburbana, eu passeava meu descompromisso, depois da manhã consumida no estudo. O sol forte, ainda longe de ceder ao frescor da noite, exigia o abrigo dos ficus, árvores tão suburbanas quanto suburbanos sempre foram os pardais. Havia sempre cães ladrando na tarde. Latidos roucos de cães supostamente ferozes, por detrás das cercas ou […]

Com a mão na massa

Não sei você, caro leitor ou ouvinte, mas eu gosto muito de pastel com caldo de cana. E não é de agora, que as pastelarias de chineses e de coreanos pululam. É do tempo em que só havia pastéis gostosos em dois lugares: os insubstituíveis pastéis caseiros, feitos com ingredientes que incluíam o amor de […]

Dias comuns

Há dias que são absolutamente comuns. Neles, parece que nada acontece. Em dias assim, grandes felicidades ou grandes desgraças jamais ocorrem. Mesmo incidentes perturbadores nunca sobrevêm em dias comuns. Nada abala a mesmice dessas vinte e quatro horas, que se escoam serenas, silenciosas, sem tumulto, ruído ou sobressaltos. Num dia comum o trânsito não está […]

Nostalgia dos quintais

Tenho em meu peito a nostalgia dos quintais. Não falo de quintais grandes, como os das chácaras, mas sobretudo dos pequeninos, aqueles espaços diminutos e cobertos de céu, o pouco-muito de amplidão que as casas suburbanas podem oferecer; quintal visto por um olhar de criança, lançado de um ponto bem próximo do chão; um olhar […]

Os idosos dos Comerciais

Já reparou, prezado leitor ou ouvinte, como aparentam ser saudáveis os idosos dos comerciais? Faces coradas, pele lisinha, olhos brilhantes…

Contraditando

Solte-se no ar e voe, mas sinta o peso infinito do corpo. Ame desbragadamente, porém igualmente odeie; não alguém, alguma coisa ou você mesmo: odeie o ódio. Beba até cair… a máscara de abstêmio. No entanto, abomine o álcool e se sacie somente com a água pura das fontes, inclusive as de ternura. Faça poesia. […]

Tranças

Grossas, enrodilhadas ou pendentes, ocupando lugar de destaque para emoldurar o rosto. Eram assim as tranças nos cabelos, coisa que raramente se vê hoje em dia.Tranças povoam o imaginário romântico. Para mim, nenhuma outra forma de arrumar os cabelos traduz melhor a feminilidade. Reconheço a graciosidade das “maria-chiquinhas”; elas remoçam, imprimem um ar juvenil ou […]

Roubando almas

Relatos antropológicos nos dão conta de que índios, em seu contacto com os brancos, fugiam espavoridos ao verem sua imagem registrada pelas máquinas fotográficas. Perguntados sobre o porquê desse pavor, os silvícolas explicavam, de olhos esbugalhados, que iriam morrer, porque suas almas teriam sido capturadas por essas engenhocas infernais. Pois o que mais vemos agora […]