Auto-stop

Publicado em: 07/06/2005

Estávamos no pico de um inverno extremamente frio e umido em Paris. A clarabóia era a porta da nossa geladeira que ficava no lado de fora, no telhado, junto à calha. Não que tivéssemos muita coisa para “refrigerar”, mas era frio o bastante para conservar o pouco que tínhamos.
Por Aguinaldo José de Souza Filho

Esticando a cabeça para fora dessa janelinha no telhado dava para ver o topo da Notre Dame. Sentíamo-nos previlegiados! Entre aulas na Aliance Française, outras no Conservatoire Nacional D’Art Dramatique, e umas partidas de tenis na cidade universitária e alguns biscates, a vida entrou numa rotina monótona. Tentei trabalhar no serviço de rádio internacional francês, na ORTF, mas  era controlado por um grupo extremamente fechado. Contatei a rádio do Vaticano – eles transmitiam 15 minutos por dia em português – mas não havia vaga.

A primavera estava chegando. Saimos da hibernação e começamos a procura de novos horizontes. Ficamos sabendo que em Lisboa a fundação Gulbenkian estava oferecendo bolsas de estudo para estrangeiros interessados em estudar em Portugal. Valdyr, o Montini,  jornalista de S. Paulo que se dizia primo do então papa, pois tinham o mesmo nome, e eu partimos para Lisboa. Montini foi de trem, estava abonado. Valdyr e eu usamos nosso meio favorito de transporte –   a carona, lá chamado de auto-stop! Fomos de metrô até o sul da cidade, e não demorou para pegarmos a primeira carona até Limoges. A camisa da seleção brasileira que Pelé havia me dado na Suécia ajudou na estrada. “Brésil?” perguntou o senhor ao volante? “Oui”, respondi. “ Celle merveilleuse desorganization”. Ele havia sido embaixador da França no Brasil. Foi um casal simpático que financiou um lindo dejeuner ao longo do caminho. Eles foram gentís e nos deixaram na saída sul de Limoges.

Voltamos a nos posicionar na estrada. Eu era o mais impaciente e começava logo a caminhar, Valdyr ficava sentado, à espera da carona. Eu estava bem adiante do Valdyr quando um mercedes SL 230 vermelho, de dois lugares parou ao meu lado, e lá estava Valdyr instaladão. “Nos vemos em Toulouse”, disse ele, e arrancaram. Levou quase uma hora para a minha carona chegar.  O sol estava se pondo no horizonte quando Valdyr apareceu na saída sul de Toulouse, na direção de Andorra, fronteira da Espanha. Ele não parava de chingar. “Mas o que houve?” ele disse que o alemão do mercedes esporte começou a passar a mão nas coxas dele e a sugerir pararem num hotel ao longo do trajeto. Valdyr tinha verdadeiro horror a gays, mas conseguiu chegar a Toulouse “intacto”.  Como a noite é quase impossível conseguir carona, dormimos por alí. Seis da manhã já estávamos com o dedão em riste na beira da estrada.

Naquele mesmo dia chegamos a Zaragoza, a meio caminho de Madrid.  A temperatura estava começando a melhorar, o que nos fez arriscar pegar carona ao entardecer, na esperança de pegar viajantes noturnos que quizesse companhia para não pegar no sono. Demorou um pouco mas funcionou. No dia seguinte passávamos a fronteira de Portugal, entrando por Badajoz até Elvas, cidade portuguesa do tempo dos Mouros. Uma senhora nos levou até Évora, o trecho que pareceu o mais longo da jornada – a mulher não parava de falar! À tarde chegávamos a Lisboa. Finalmente! Eu já estava começando a ficar cançado. Mal sabia eu o que me esperava na jornada de volta a Paris. Mas isso só aconteceria dois meses mais tarde, depois de aprender umas coisas na capital de nossos descobridores. Semana que vem vamos falar do curso na faculdade de letras em Lisboa, como foi financiado e as surpresas lusitanas. Até lá.


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