Babadas, barrigas, equívocos leves e outras besteiras (1)

Publicado em: 31/08/2005

O erro faz parte de qualquer atividade humana. No rádio, em especial naquele transmitido ao vivo, por vezes, o trágico transforma-se em cômico, a notícia em mentira – ou, no jargão dos jornalistas, em barriga –, o efeito sonoro ou a fala corretamente colocada em babada, outro sinônimo para uma mesma coisa em todos estes casos: besteira.
Por Luiz Artur Ferraretto

Então, seguem algumas cá do Rio Grande do Sul. Nesta primeira investida por este lado das emissoras de rádio, vamos da poderosa pomada à base de picrato de butesim à morte antecipada do arcebispo de Porto Alegre, passando pelo humor involuntário no fim de um drama radiofônico.

Quem gostava de contar esta história era o locutor e um dos seus protagonistas, Carlos Miguel Voigt. Pois após um incêndio nos tempos do Grande jornal falado Farroupilha, que faz o fim de noite da então PRH-2, em Porto Alegre, a rádio pedia incessamente doações do tal picrato de butesim, muito popular na época como tratamento de queimaduras de primeiro grau. A malícia dos corredores dá outra conotação ao produto químico, que, infelizmente para os três locutores do Grande jornal, leva a um ato falho.

Diga-se de passagem a um triplo ato falho:
– E pedimos, novamente, à população. Quem possuir picrato de bu-ce-tim…

Em meio ao choque da expressão que alguns diriam chula, o segundo locutor tenta corrigir:
– Vamos repetir: estamos solicitando doações de picrato de bu-ce-tim…

O terceiro, algo desesperado, entre o riso e a consternação, tenta salvar:
– Repetindo: picrato de bu-ce-tim…

E vá explicar, gancho para os três já definido, que não foi sacanagem combinada.

Caso parecido, registrado pelo radialista Sérgio Reis, é o do elenco da novela Nós nos uniremos no céu. O título várias vezes trocado em tom de galhofa meses e meses a fio, enquanto ao microfone da Farroupilha os capítulos iam se sucedendo, já antecipava o desfecho dramático.

A mocinha e o galã despedem-se, um deles à morte. A cena lacrimosa vai terminar, no entanto, em gargalhadas abafadas por uma trilha musical subindo rápida para que o ouvinte esquece-se tudo:
– Oh, meu amor, não se desespere, porque [hesitação], porque [nova hesitação] nós nos u-ri-ne-mos no céu.

A terceira, para fechar, envolve um dos maiores jornalistas gaúchos – Flávio Alcaraz Gomes – e um dos principais religiosos do estado – dom Vicente Scherer. Numa tarde de domingo do início da década de 60, um trote leva à interrupção da programação esportiva da Rádio Guaíba. Emocionado pela notícia, Enio Berwanger entra com uma edição extraordinária do Correspondente Renner, principal informativo da emissora:
– E atenção: Vítima de um insulto cardíaco, faleceu há poucos instantes sua excelência reverendíssima dom Vicente Scherer. E atenção que vamos repetir…

De fato, um gaiato havia preparado o trote, ligando para a rádio com sotaque de padre. O diretor comercial da Guaíba, Flávio Alcaraz
Gomes, ao ouvir a notícia, deslocou-se imediatamente para o prédio da rádio. Era um caos. A morte, desmentida em seguida, fazia outros gozadores ligarem imitando o arcebispo. Lá pelas tantas, o próprio dom Vicente Scherer tenta um contato telefônico com a Guaíba e é xingado pelo diretor comercial da Guaíba, Flávio Alcaraz Gomes, acreditando tratar-se de um novo trote:
– Que dom Vicente Scherer que nada! Vá à merda!

No dia seguinte, consternado, um grupo de diretores da Guaíba visita o arcebispo. Por um amigo comum, Flávio ficaria sabendo do comentário de dom Vicente Scherer a respeito do pedido de desculpas:
– Muito bonzinhos estes meninos, mas não precisavam ter me mandado à merda.


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