Baile Municipal *

Publicado em: 02/02/2013

Sem dúvida, as duas maiores festas que aconteciam em Florianópolis, em ambiente fechado, eram o Baile Municipal e o Baile das Debutantes.  Ambas realizadas pelo Clube Doze de Agosto foram, por muito tempo, os acontecimentos mais marcantes da vida social da cidade. E, como era sexta-feira de Carnaval, desde cedo começaram os preparativos. Engraxar os sapatos, achar a gravata borboleta e, principalmente, ir buscar na casa do Aldírio (Simões) o meu smoking. Ele havia tomado emprestado há dois anos para ir a uma festa de que, para o traje estabelecido, ele só tinha a cueca. O resto era meu: meias, sapatos, calça, camisa, paletó e gravata borboleta. Ele “esquecera” de devolver.  Mesmo quando conseguiu trazer, ainda ficou faltando o par de abotoaduras, que eu havia ganho de presente do Pituca.

Ir a sauna, no dia do baile, além de propiciar uma barba extremamente bem feita, já servia para o início do aquecimento. E o dia – ou a noite – prometia ser especial. Iria acompanhando, nada mais, nada menos que a Didi, uma loira escultural, de olhos verdes, cabelos escorridos, pernas compridas e uma bunda que muita gente duvidava que se destinasse ao fim para o qual fora criada. Só faltava falar. E com uma – às vezes vantagem e às vezes desvantagem – bebia bem. Por isso, sempre se fazia o aquecimento antes da festa, senão não havia dinheiro que chegasse. Por volta das vinte e três horas – já com mais ou menos meio litro acima do nível – embarcamos no meu Fusca 73 e rumamos para o Doze. Embora o baile só começasse bem mais tarde,  era necessário conseguir estacionamento. Por sorte, alguém estava saindo da vaga exatamente na frente do Clube.– Vai ter rabo assim lá na praia!O movimento já se fazia grande, com as mulheres muito bem despidas,  plumas em abundância  e alguns homens com as gravatas já despencando, como conseqüência do aquecimento. Para manter o nível, resolvemos encarar uma última dose, ali mesmo. No porta-luvas estava a companheira das grandes noitadas: uma mini garrafa sempre abastecida com duas ou três doses do melhor Old Eight.– Vai  no gargalo mesmo! Micróbio não bebe uísque!Derrubamos inteira. Mas, parecia que ainda não estávamos no ponto. No banco traseiro, sobre o paletó, um tubo inteirinho de lança-perfume , made in Paraguai. Trocamos olhares cúmplices e ela não se fez de rogada. O lenço chegou a ficar pesado de tão molhado. Quando saltou estava com aquele ar de felicidade, como que flutuando, um friozinho no pé, “observando” as melhores paisagens que desfilavam à sua frente. Daí  em diante tudo ficou colorido. O bode aconteceu, exatamente, quando passávamos pelos porteiros: ela, praticamente em delírio, abraçou-me e quase gritou:Ð Compra esses sinos pra mim!

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* “O primeiro Baile Municipal foi realizado no Lira Tênis Clube, em fevereiro de 1962, com o apoio do presidente do Clube Dr. Walter Wanderley, que me entusiasmou na realização da referida e inédita promoção em Santa Catarina. No Brasil, o Baile Municipal era realizado no Rio de Janeiro e Recife. Eram três bailes municipais pelo país”. Palavras do criador do Baile Municipal no livro Grande Gala, por ele escrito e publicado, em edição do próprio autor, em 1973

* Lei nº 673 de 05 de abril de 1965 de Florianópolis | Institui o Baile Municipal. | O Povo de Florianópolis, por seus representantes decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art. 1º – Fica instituído o Baile Municipal, como parte integrante dos festejos carnavalesco no Município de Florianópolis. | Art. 2º – Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação revogadas as disposições em contrário. | Prefeitura Municipal de Florianópolis, 5 de abril de 1965. | PAULO GONÇALVES WEBER VIEIRA DA ROSA, PREFEITO MUNICIPAL

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