Batman: Ano Um, uma HQ sombria e revolucionária

Publicado em: 12/03/2014

Batman-Ano-Um-Panini-2011Em 1986, o quadro editorial da DC decidiu que seus heróis, alguns dos quais com quase meio século de idade, estavam datados demais. A ordem era uma reforma total, e o ponto inicial seria os três personagens mais populares: Superman, Mulher-Maravilha e Batman. Os escritores designados para a tarefa tinham ideias claras sobre como atualizar Superman e Mulher-Maravilha, mas Batman era uma incógnita. Ele era perfeito como estava. A origem que Bob Kane e Bill Finger tinham criado em 1939 era perfeita. Toda a explanação de como o personagem veio a existir, o motivo de sua obsessiva cruzada e também como o herói refletia as angústias, frustrações e esperanças do público leitor que tentava sobreviver aos problemas da violência na vida urbana. Assim, os editores da DC decidiram que a origem de Batman não seria alterada, porém deveria ser refinada, podendo ganhar uma dose de profundidade e complexidade. E, finalmente, todas as técnicas narrativas desenvolvidas nos últimos 50 anos pelos criadores de HQs poderiam ser utilizadas para concretizar todo o potencial do material original. A questão fundamental era: quem seria o responsável por tudo isso?

Frank Miller se disponibilizou para realizar tal façanha, nessa época ele já era amplamente reconhecido por ser o melhor escritor/ilustrador a ingressar nos quadrinhos desde os anos de 1960. Muitos diziam que ele era o melhor de todos os tempos. Afinal, ele havia criado uma das melhores HQs da história, Batman: O Cavaleiro das Trevas, que retratava um Batman cinquentão, arrancado da aposentadoria por uma sociedade que estava em completo caos. Tendo feito o crepúsculo do Batman, Miller estava ansioso para fazer o alvorecer do herói, porém o autor escolheu apenas trabalhar como escritor, deixando as ilustrações sob a responsabilidade de David Mazzucchelli, esse que já tinha reputação de ser um dos talentos mais extraordinários da nona arte. A combinação dos dois artistas foi um sucesso, tanto que Denny O’Neil fez o seguinte comentário sobre a história: “Uma graphic novel que combina um mito urbano familiar com uma inconfundível sensibilidade moderna e uma narrativa brilhante.”

A primeira imagem da HQ é a de um menino (Bruce Wayne) ajoelhado entre os corpos estendidos de seus pais (Thomas e Martha). A imagem reflete o entendimento do pequeno órfão de que se necessita de alguém que estabeleça a ordem na cidade de Gotham. Bruce provavelmente presumira que o Estado manteria a ordem e impediria os criminosos de buscar seus interesses individuais ilegais, porém o assalto que se tornou duplo homicídio muda a cabeça do menino. Viramos a página e nos defrontamos com um homem sentado em uma poltrona, tendo metade de sua imagem encoberta por um morcego. A transição do órfão para a fase adulta já foi feita e com ela chegamos ao entendimento de que Batman nasce em uma cidade onde o Estado fracassa em sua responsabilidade de manter a segurança pública.

Após nos defrontarmos com essas duas imagens impactantes, somos apresentados à cidade decaída de Gotham, repleta por ladrões, traficantes e policiais que abusam do poder. Ao mesmo tempo acompanhamos a chegada de dois personagens que serão os principais da história, Tenente James Gordon e o milionário Bruce Wayne, esse que retorna a sua cidade natal após 12 anos fora. Ambos sabem que estão entrando em uma cidade em que o perigo está à espreita por todos os lados, mas tanto um quanto o outro tomam para si o desafio de resolver o problema da criminalidade. Na delegacia, Gordon procura estabelecer ligações autênticas com os colegas, porém com o passar do tempo percebe a queda das aparências, já que a maioria dos rostos dos policiais eram apenas máscaras de uma falsidade em busca de poder e dinheiro. Gordon se vê solitário no caminho do combate ao crime, envolto por amizades dissimuladas, consequentemente acaba afundando-se num ceticismo devastador. Observamos o pessimismo de Gordon em um dos seus pensamentos, em que está preocupado com o nascimento de seu filho: “Tomara que ele seja forte e esperto o bastante pra sobreviver. Como deixei isto acontecer? Como pude ser tão irresponsável? Permitir o nascimento de um inocente… numa cidade sem esperança?”

Bruce Wayne é um jovem de 25 anos de idade, treinado em artes marciais e herdeiro de uma imensa fortuna deixada por seus pais que foram assassinados. No calar da noite ele resove andar pelas ruas da cidade, ainda sem ter criado o uniforme de Batman, porém com o entusiasmo de combater o crime. Esta situação é uma brilhante referência e homenagem ao filme de Martin Scorsese, Taxi Driver, já que tanto no pôster desse filme como também na ilustração da HQ do Batman, os dois protagonistas estão com o mesmo caminhar desolado, com calça jeans e as mãos dentro dos bolsos da jaqueta, tendo como plano de fundo um lugar repleto por cafetões explorando garotas de menor. Wayne e Travis Bickle têm o mesmo pensamento e objetivo, ou seja, o de limpar uma cidade que não quer ser limpa.

Não demora muito para que Wayne acabe envolvido numa briga com o cafetão, seu treinamento é excelente, mas não o suficiente, já que o jovem Bruce acaba recebendo uma canivetada na perna. A situação serve para que ele reflita sobre a necessidade de sair com uma armadura e também com uma máscara para que não seja descoberto em sua próxima investida contra o crime. Sentado em sua poltrona, de repente escuta sem o menor aviso um morcego estilhaçar a janela e adentrar em sua sala de estar. Bruce se lembra de que aquele animal já lhe assustara quando criança, consequentemente ele vê diante de si a possibilidade de um projeto que trará um significado maior a sua existência. Após esse vislumbre, Bruce diz a si mesmo: “Eu me tornarei um morcego”. Depois disso, acompanhamos Batman em suas primeiras desventuras no combate ao crime, porém o herói não está totalmente preparado e carrega junto consigo um caráter ainda de grande inocência, consequentemente acaba passando por grandes apuros. Mas com o passar do tempo o protagonista vai amadurecendo e percebendo cada vez mais que não deve subestimar jamais seus adversários, já que a probabilidade em ser morto por um deles é bem alta.

‘Batman: Ano Um’ é, acima de tudo, uma história de formação, na qual tanto o nosso herói encapuzado como também o Tenente Gordon só irão sobreviver se entenderem como devem combater as engrenagens de uma sociedade tomada pela corrupção e a violência. Além desse enfrentamento, os dois personagens precisam lutar contra seus próprios demônios internos, se não cairão nas profundezas da depressão e da loucura. A narrativa é item obrigatório para os admiradores de histórias em quadrinhos e fãs de literatura, já que é uma história regada por personagens bem delineados psicologicamente, além de possuir excelentes ilustrações que mexem com o nosso imagético. Portanto, vale recomendar a HQ também para aqueles que nutrem a opinião estereotipada de que histórias em quadrinhos seja coisa apenas de criança, pois não irão se arrepender de ler essa excelente história e certamente vão integrar a nona arte como fonte de leitura ao seu cotidiano.

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