Bicão com classe

Publicado em: 29/09/2016

Por vezes os amigos Marcelo e Tomaz não eram convidados para festas de colegas do bairro. Enquanto Tomaz reclamava por não ser convidado, Marcelo não perdia tempo, muito menos uma festa, com ou sem convite.

selo-cadeira-do-barbeiroMarcelo chegava rindo como se fosse um convidado de honra. Tomaz já entrava no local da festa com o rosto vermelho e trêmulo com a possibilidade de serem expulsos e assim humilhados em público. Tomaz sempre se impressionava com a ousadia de Marcelo. O bicão entrava no salão ou na casa onde acontecia a festa, cumprimentava as pessoas, comia, bebia, ria e dançava. Tomaz não aproveitava nada, só imaginava o dia em que alguém notasse que eram bicões e os expulsassem.

Num belo dia de sábado foram passear na cidade de Antônio Carlos. Ao final da tarde notaram uma grande movimentação e Marcelo logo tratou de se informar. Era um casamento. E a pessoa que falou fez questão dizer que seria um baita casamento, um festão. Pudera. Casamento estilo interior, com direito a incluir um boi, porcos, frangos e muita bebida, além de música; bota festa nisso, afirmou Marcelo.

Tomaz segurou Marcelo pelo braço e tentou convencê-lo de que não era boa ideia. Que embora fosse festa grande e com muitos convidados era uma cidade onde todos se conheciam, não daria certo, não ali. Marcelo argumenta que não seria a primeira e nem a última, e que tudo daria certo como sempre.

Eles foram entrando e ficaram impressionados. Havia carne de boi, de porco, frango, maionese, polenta, palmito, cerveja, refrigerante e muito mais. A festa era animada por uma banda que fazia o mais tímido sentir-se um verdadeiro pé de valsa.

Os dois amigos se acomodaram com facilidade, parecia até que aquela mesa estava reservada para eles. A comida e bebida liberada faziam Marcelo comer sorrindo. Tomaz estava começando a entrar no clima quando nota os noivos se aproximando de cada mesa para cumprimentar os convidados.

Ele diz em voz baixa, mas com tom de pavor:

– Meu Deus, Marcelo. Olha lá. Os noivos vão chegar a nossa mesa, o que vamos fazer?

Marcelo, que estava quase terminando o segundo prato, disse:

– Fica calmo, rapaz. Comeu bem?

– Eu ia começar, mas e os noivos? Meu Deus, que vergonha.

– Fica frio, Tomaz. Talvez até passem direto.

Quando Marcelo passa a mão sobre a barriga satisfeita de comida e cerveja o noivo chega sozinho a mesa dos amigos penetras. Tomaz se levanta apavorado. Marcelo passa lentamente o guardanapo na boca e levanta com impressionante calma.

O noivo, com muita calma e educação, aproxima-se dos dois e diz:

– Prestem atenção. Essa é uma festa de casamento, do meu casamento. Aqui há familiares e muitos amigos, mas todos convidados. Não me parece ser o caso de vocês.

Tomaz sente vontade de sair correndo, mas teme desmaiar. Sabia que um dia isso aconteceria e havia chegado o dia.

O noivo diz gentilmente:

– Se já terminaram de jantar, por favor, saiam numa boa, sem problemas.

Vários convidados olham curiosamente, mas não ouvem o que o noivo diz.

Marcelo faz questão de sair com classe da situação e diz em voz alta para que os convidados ouçam:

– Foi uma grande honra estar nesta festa. Tudo está muito lindo e o jantar maravilhoso. Veja as expressões dos convidados. Peço perdão, mas meu amigo e eu precisamos ir, não vamos nem poder esperar pelo bolo. Desejo felicidade a esse lindo casal. Sinto muito, mas realmente precisamos ir. Boa noite!

Quando se aproximam da porta um dos garçons diz:

– Pena que tenham que sair tão cedo. Ouvi suas palavras. São os convidados que demonstraram mais classe até agora. Faço questão que levem alguns doces e um bom pedaço de carne!

Tomaz, tomado de uma confusão mental, vergonha e vontade de matar Marcelo, diz:

– Você ouviu o que o noivo disse? Viu o que aconteceu?

Marcelo responde ao amigo com entusiasmo:

– Sim. O noivo foi extremamente educado e discreto. O garçom muito gentil. Gosto de festas assim. Quanta classe, hein!

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