Bilhete de Mendigo

Publicado em: 02/06/2013

Enquanto eu revirava a bolsa, o moço ao lado atendeu o celular encerrando a questão. Não era o meu. Em meio ao burburinho alguém chamou: – Senhora, hei! Senhora! Uma mulher magra e descalça sentada na calçada me estendeu a mão e o olhar suplicante: – Dá um trocado?

Eu…(e foi baixando a voz, talvez cansada de dar explicação). Ao lado, num balaio raso, um cachorro esfiapado. – E o cachorro? Perguntei. Ela disse: – É pra comprar ração pra ele! O olhar do cachorro confirmava o argumento. Cachorro treinado.

É, a vida não está fácil pra ninguém. Hoje, até pra ser mendigo é preciso ter espírito empreendedor e criar estratégias para “vender o peixe”, como qualquer outro trabalhador.

Daí que tem mendigo especializado: tem o que só trabalha em terminais urbanos, o que atua em determinada esquina, o que tem ponto em sinaleiro e o que prefere manter a tradição e atende de porta em porta, seja em domicílio, supermercado, banco ou empresa.

Conheço dois que têm ponto nos Terminais Urbanos. Pouco antes da saída do coletivo, eles percorrem o corredor entregando um papelzinho com uma mensagem impressa, em silêncio e de cabeça baixa. A maioria faz que não, muitos nem olham para o lado quando eles estendem o papel (tem uma mulher que joga o pirulito no colo de quem não quer pegar o folheto).

As mensagens, feitas no computador, seguem um conhecido roteiro: comunicam o pedido de ajuda, explicam o impedimento com alguma dramaticidade, exaltam o valor da caridade, valorizam toda e qualquer ajuda e finalizam rogando a Deus que abençoe a alma caridosa. Antes da partida do ônibus eles recolhem o dinheiro e também os folhetos para reduzir os custos da operação. E voltam ao trabalho…

Eu dou o dinheiro, compro bala (as mais caras do planeta), compro santinho, marcador de página, chaveirinho, cartãozinho, compro qualquer coisa, mas fico com o papel da mensagem. Pra reler depois. Há textos primorosos. Como este:

“Senhoras e Senhores
(Alexandre de Tal)
Venho através deste pequeno cartão pedir uma ajuda. Sou cego da vista direita, não tenho movimentos certos no pescoço. Estou desempregado, passando necessidades. Tenho uma filha, mais nem por isso vou roubar. Se cada passageiro me ajuda com a quantia que seu coração desejar, não iria fazer falta no seu pão de cada dia. Deus te abençoe. Vale transporte ou alimentação”.

Sou, ou melhor, era, cliente assídua de um senhor que visita, toda sexta-feira, o salão de beleza onde eu “faço” as unhas. Ele passa com hora marcada. Entra todo simpático: – Bom dia, lindas!!! Como vão vocês? Estão boazinhas? Eu estou pedindo uma ajuda porque tenho uma menina doente com um tumor no “célebro”, ela toma muito remédio, o governo não dá – ele já adianta antes que alguém se escale -, e eu não posso trabalhar porque tenho que ajudar a mulher a cuidar dela…

Toda semana o mesmo discurso. Em seguida recolhe os donativos, entrega um santinho (creio que os recolhe nas igrejas, pois têm cara de usados) ou um marcador de páginas de uma conhecida livraria da cidade. Pois bem.

Ontem, entrou falante como sempre, mas, como era fim de mês, ninguém se coçou, a mulherada com o dinheiro na estica. Ele esperou, esperou e, vendo que sairia de mãos vazias, desandou a xingar: – Fica aí suas safada, suas inútil! Torrando dinheiro com o que não presta enquanto os pobres passam fome! Vocês vão tudo é ardê nos fogo do Inferno!

Resolvi, eu também, ser empreendedora: – Eu podia tá matando, podia tá roubando, mas tô aqui escrevendo crônicas (e pensando seriamente em passar o chapéu…

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