Boa gente

Publicado em: 13/04/2008

Betinho Boa Gente ganhou o apelido quando cursava o segundo grau numa escola pública. Costumava chamar todo mundo de Boa Gente. Na hora de escolher os companheiros de futebol, todos eram boa gente: – Pra goleiro, escolho o Biríba que é ruim de bola, mas é boa gente.
Por Jamur Júnior

Bem humorado, critico e divertido Betinho Boa Gente era um craque na conquista de novos amigos. Fazia sucesso com a bola de futebol e com as meninas.
Namorador em tempo integral conseguia manter três namoradas ao mesmo tempo sem maiores problemas. Namorar era para ele, mais uma diversão. Nunca passou por sua cabeça a idéia de namorar firme só uma e programar um noivado e futuro casamento. Isso nunca. Betinho Boa Gente era candidato a solteirão.
Foi assim até o dia em que conheceu Rosa Maria, uma morena esbelta de lábios carnudos e olhar profundo e desinteressado. Foi uma paixão devastadora. Betinho Boa Gente, o homem de coração de pedra, o candidato ao celibato, o namorador da cidade, foi fisgado. Rosa Maria gostou do jeito dele, mas manteve aquele estranho olhar como se estivesse vendo uma nuvem no horizonte.
Em menos de um ano Betinho Boa Gente era um homem casado e motivo de comentários entre seus antigos companheiros de colégio e futebol. Sentiu que sua vida estava mudando. A mulher comandava tudo e vigiava seus passos como nunca imaginou que alguém fizesse.
A vida de liberdade com muito namoro, festas e futebol ficou no passado recente, mas deixou uma saudade danada e uma vontade muito forte de encontrar os amigos e cair na farra.
Começou a chegar em casa mais tarde com cara de cansado, muitas vezes com ares de satisfeito com tudo e feliz da vida. A mulher iniciou uma fase de implicância, criticas e reclamações. Betinho Boa Gente chegando tarde ou cedo sempre ouvia um longo discurso repleto de dúvidas, suspeitas e reclamações; levante a tampa da privada, não coloque a colher no açucareiro, guarde seu sapato no lugar, aperte a descarga da privada e assim ela começou a infernizar a vida de Betinho.
Chegou a um ponto que pensou em abandonar a mulher e sumir no mundo. Foi o que fez numa tarde de sábado quando chegou encharcado de cerveja. Quando ela começou o discurso, Betinho Boa Gente abriu a porta, olhou para trás e falou mais alto.   
-Vou comprar cigarro.
Desapareceu da cidade, dos amigos e da mulher. Passados cinco anos, Betinho voltou. Quando bateu na porta da casa a mulher abriu e iniciou um novo discurso no mesmo tom que já conhecia…
-Então, seu safado, me deixa falando sozinha e some dizendo que vai comprar cigarro.
-Chiiiii, esqueci de comprar fósforo.


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