Bolsas

Publicado em: 21/11/2012

Pequenas, grandes, minúsculas, enormes, as bolsas fazem parte inerente de nossa vida. Mudam de tamanho, formato e cor, mas estão sempre conosco. Aliás, de certo modo, vêm antes de nós, se levarmos em conta a primeira, essencial e maravilhosa bolsa: o útero materno. Desta, diriam os humoristas, gostamos tanto que saímos dela chorando… A necessidade de carregar alguma coisa está lá na origem do animal humano. Podemos até considerar que não há tanta distância assim entre um australopiteco, andando ereto com um alforje preso a uma correia que lhe cingia o peito, e o nosso doce caipira que cruza as estradas nos fundões do Brasil com seu embornal a tiracolo, ou mesmo o citadino apressado carregando sua mochila pelas ruas das grandes cidades, estas talvez tão ameaçadoras da sobrevivência quanto as savanas primitivas.

Bolsas, mochilas, carteiras, malas, maletas, pastas… um sem fim de denominações para esses porta-utensílios que carregamos desde sempre. Num dado momento, ultrapassamos os limites de nosso próprio corpo, e juntamos a ele, para sempre, esses meios de carregar, levar, transportar.

Hoje, em grande medida, somos nossas bolsas, pastas, sacolas e coisas assim. Talvez possamos adaptar a frase: “Dize-me como e o que carregas e te direi quem és”.

Diverte-me observar esse objeto tão indispensável. Gente grande com bolsas pequenas, e vice-versa; mochilas imensas que vergam a espinha, inclusive e assustadoramente, de crianças pequenas; porta-níqueis, porta-celulares, porta-tudo, tirados de bolsas dentro de bolsas, na correria do dia-a-dia; pastas elegantes nas mãos de engravatados igualmente apressados; bolsas coloridas compondo a elegância das mulheres.

Claro que a dimensão utilitária, ainda presente, passou com o tempo a rivalizar com a bolsa como signo da vaidade. Se dentro das bolsas e sacolas se carregam coisas, por fora delas se carrega o exibicionismo, fazendo a festa dos estilistas que as transformaram em obras de arte – e em objetos de consumo de altíssimo preço e elevado teor de status.

Muitas vezes, aliás, a utilidade para carregar fica esquecida. Que o digam as mulheres em relação àquelas bolsinhas de festa, pequeninas, bonitas e praticamente inúteis, feitas quase apenas para serem exibidas, de preferência causando inveja naquela amiga “perua” cuja pochete não é tão bela e nem combina bem com o vestido…

Tão importantes são as bolsas, que viraram metáforas indispensáveis. As bolsas de valores, por exemplo, que servem para carregar fortunas e bancarrotas, ganância e avidez, ambições e furores especulativos, felicidades monetárias e infortúnios que muitas vezes levam até ao suicídio.

Talvez nenhuma outra frase expresse tanto o papel desempenhado pelas bolsas em nossas vidas quanto esta: “A bolsa ou a vida!”. Nos dias que correm, em que vivemos mergulhados na crueza da violência cotidiana, quando os bandidos já nem essa chance concedem, a frase talvez tenha perdido consistência prática. Agora, o imperativo gritado pelos assaltantes já contém a força do que não tem jeito: “Perdeu! Perdeu!”. Porém, uma situação assim ainda nos permite refletir sobre o dilema de ceder a bolsa – o carro, o celular, o relógio – ou a própria vida. A bolsa está aí no centro da profundidade filosófica de uma indagação entre continuar a ter ou continuar a ser, ou seja, viver.

Falando em viver, não custa lembrar que bolsas de sangue são passaportes para a vida.

Observe as bolsas, caro ouvinte ou leitor, em todas as suas variações. Elas nos dirão muito de quem as carrega. Deste ponto de vista, todas as bolsas merecem igual atenção: as modestas bolsas de feira e supermercados, com seu conteúdo prosaico e indispensável de mantimentos; as chiquérrimas bolsas de grife, penduradas nos braços das ricaças; as pastas caríssimas de couro, que podem conter papéis cujo valor levaríamos duas ou três vidas para ganhar honestamente; as agora onipresentes bolsas e mochilas que carregam laptops e tablets; as pequeninas bolsas para moedas, redivivas agora em tempos de moeda estável.

Bolsas, quantas bolsas! Ah, como ficaria boquiaberto se pudesse vê-las  nosso ancestral, o australopiteco!

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