Bom humor de luto

Publicado em: 25/03/2012

O primeiro aparelho de televisão entrou em casa quando eu tinha três anos de idade. Era um Philco de 23”, preto e branco. Na época ainda não havia TV em cores, mas pouca diferença fazia, pois a qualidade da programação era tão boa, que dispensava esse “pequeno detalhe”. Afinal, eu já estava habituado com o Santos FC dourado em alvinegro! Fantásticos festivais de música, programas ao vivo de altíssimo nível, humoristas de fato engraçados… E todos os canais, embora poucos, tinham várias opções de qualidade, tanto que, os “seletores” – controle remoto ainda era raro – sofriam nas minhas mãos, bem como os controles vertical e horizontal.

Record, Tupi, Excelsior…

Excelsior? Foi lá que vi pela primeira vez um personagem chamado “Coronel Limoeiro”. Lembro de achar engraçada a roupa e a voz dele, pois ainda não entendia esquetes e piadas. Minha “praia” era o pastelão do “Comedy Caspers”, o humor visual do cinema mudo.

Foi numa entrega de “Roquete Pinto”, na Record, que vi aquele mesmo sujeito, sem maquiagem, fazer um “stand up” que nunca mais esqueci, contando sua história desde o nascimento, quando o médico, após o parto, não sabia se batia na criança ou na mãe; que seu pai, ao vê-lo, ficou em dúvida se comprava um berço ou uma gaiola; e que, adolescente, ganhou uma espingarda, e que era a única criança do bairro que tinha uma, para pouco tempo depois ser a única criança da rua…

Eu adorava “Chico City”!

Até hoje fico pasmo com a infinidade de personagens que ele criou, todos com aparências e personalidades próprias, ao ponto de quase não dar para afirmar que são a mesma pessoa.

E as vozes… Timbres diferentes, do grave ao falsete; do impostado à “taquara rachada”; do afetado ao erudito!

E não eram apenas as aparências ou vozes: os trejeitos eram distintos. Montagens em que os personagens contracenavam davam a impressão de que eram pessoas diferentes.

Músico: fez alguns clássicos, solo ou em parceria, especialmente com Arnaud Rodrigues. Escritor: exportou sua voz, carisma e humor para a “deleitura” do povo. Pintor: depositou em seus quadros um afeto que nem sempre viu retribuído em seus relacionamentos afetivos.

Chico Anísio foi pródigo em filhos e amores! Subiu os degraus da glória, mas também soube ser “escada”!

Dono de inteligência e obstinação ilimitadas, mesmo quando o peso da idade impôs seu progressivo jugo, ele nunca deixou de atuar. Mesmo quando a limitações de um contrato o privaram do livre exercício de sua inesgotável genialidade, ele perseverou como ator.

Por tudo o que fez e como fez, não vejo quem sequer chegue aos seus pés em sua arte!

Chico Anísio: o maior humorista a história deste país!

Pois é… Em tempos de TV em cores e muito humor sem graça, o preto e branco perdeu sua graça de outrora, para ser apenas luto… Que remédio?

Mas não dizem que rir é o melhor remédio?

 

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