Brasil, meu Brasil brasileiro…

Publicado em: 18/11/2013

Decididamente, a gente gosta de feriado. O ano ainda não terminou e o brasileiro já está, calendário na mão, à procura dos dias inativos do ano seguinte. De uns dias para cá as redes sociais viraram o Muro das Lamentações; não apenas porque estamos a vivenciar o último feriado de 2013, “Natal não conta!”, mas principalmente pelo desperdício de quatro valiosíssimos dias de vadiagem, em 2014: 07 de setembro, 12 de outubro e 02 de Novembro caem no domingo e 15 de Novembro, que cai num sábado. Desperdício!

Uma pesquisa na internet, rápida e nada científica, mostra, no entanto, que apesar da má fama e ao contrário do que muitos pensam, eu pensava, não somos os campeões em ócio remunerado entre os demais países. A verdade é que somos um povo trabalhador, mas também alegre, solar e pouco exigente. Para o brasileiro, qualquer feriado é bom, mas pra ficar bom mesmo tem que cair numa sexta ou numa segunda-feira porque aí acontece o milagre: a data se transubstancia e vira: o FERIADÃO. Se cair na quinta, então… É o Paraíso!

Enquanto os trabalhadores se refestelam e os empregadores esperneiam, os bares e restaurantes festejam o movimento, as agências de viagens e os hotéis conferem os lucros. De tempos em tempos alguém sugere a redução do número de feriados sob o argumento de que o País precisa produzir, mas não tem jeito, a coisa não vai em frente. Descobri que a ideia não é nova. Em 1931, por exemplo, houve uma tentativa de acabar com a festa dos “dias endomingados” através de um projeto de lei que estabelecia o seguinte:

Art. 1º – Todos os feriados nacionais, com exceção dos dias 1º de Janeiro, 21 de Abril, 7 de Setembro, 2 e 15 de Novembro e os dias de eleições, serão, em virtude desta lei, comemorados ou considerados dias de descanso somente de dez em dez anos. No fim de cada decênio a contar respectivamente das datas de origem.

Art. 2º – Os feriados decretados pelo poder executivo determinarão as solenidades de caráter oficial, tais como o fechamento das repartições publicas, não tornando porem obrigatória a cessação do trabalho em geral.

Como assim? Feriado de dez em dez anos? Trabalhar de portas fechadas? Imagina se ia dar certo! A reação foi contundente:

“Um grupo numeroso de cidadãos, diz o ‘Correio da Manhã’ do Rio, fez patriótico apelo ao governo provisório, fundamentando as razões da iniciativa, afim de pedir que seja reconsiderado o decreto que extinguiu vários feriados nacionais, nomeadamente alguns que representam marcos notáveis na formação da consolidação e integração da nacionalidade. Imediatamente á publicação daquele ato governamental, mostrou-se que não se poderia justificar perante a historia política a eliminação de datas que assinalam feitos culminantes da nossa evolução liberal. E, para não citar todas, salientou-se a de 13 de maio, uma das maiores e das que não poderão ser esquecidas no calendário cívico da nação, sob pena de ficar truncada qualquer narrativa concernente ao nosso progredir democrático.

O que é preciso evitar, isso sim, são os feriados pro decreto tão frequentes até há pouco, a propósito de qualquer acontecimento, não raro de repercussão mundial, mas sem nenhum reflexo apreciável em nossa existência social e política”. (publicado no jornal Estado, segunda-feira, 27 de Abril de 1931).

Apesar dos protestos, parte da população encarava a supressão dos feriados com simpatia e a via como uma demonstração de “amor ao trabalho” oferecida pelo governo da Revolução. As professorinhas ficaram alegres, segundo o referido jornal, uma vez que se viam desobrigadas dos discursos cívicos nas cansativas solenidades escolares. Já o funcionalismo reagiu com contrariedade, pois o decreto obrigava o comparecimento à repartição para “assinar pelo menos o ponto”.

A reforma de ensino patrocinada pelo ministro Francisco Campos não restaurou os feriados escolares, mas instituiu-se uma estapafúrdia compensação: “considerou de férias a primeira e a terceira quinta-feira do mês”, uma forma de recompensar “os que estudam”. Em outras palavras, “o soneto saiu pior do que a emenda!”.
Algumas iniciativas eram bizarras e justificavam o esforço de regulamentar o assunto:

“Logo depois de proclamada a República, um dos governadores de Estado, no Norte, declarou feriado a data em que a sua filha batizava uma boneca. Choveram críticas. Raça sentimental, porém, em pouco tempo víamos muita gente comovida, diante do ato, pois se tratava de filha única que era o ai Jesus! do governador.

Mutatis Mutandis – o noticiário da ‘A Noite’, nos colocou em face de episódio que provoca os mesmos sentimentos de protesto e de ternura. O prefeito de Nictheroy decretou sagrado o dia do transcurso da data natalícia do governador fluminense. E decretou porque o mesmo representa o ‘epilogo da campanha política empreendida em nosso país, por processos brandos e moralizadores!’. E também porque ele mandou cancelar a divida da Prefeitura para com o Estado, divida, alias, contraída ao tempo em que o dito e referido governador foi prefeito. De começo sente-se que é excessiva a homenagem do dia santo… As criticas, porém, emudecerão enternecidas, quando souberem que o prefeito é cunhado do governador”. (Jornal Estado, quinta-feira, 08 de Janeiro de 1925).

A realidade mostra que os esforços em controlar o elevado número de dias ociosos não vingaram, haja vista os muitos feriados que enfeitam nosso calendário até hoje. Brasileiro é um povo patriota, religioso e extremamente devotado à família, por isso as homenagens. Guarda os dias santificados e datas cívicas ainda que seja ateu ou tenha uma ideologia contrária ao que se comemora. Agora… Se ele vai exercer seu patriotismo e devoção fazendo churrasco ou bebendo uma gelada na praia, aí meu amigo, são outros quinhentos!

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