Brigadeiro

Publicado em: 09/05/2006

Ele veio com seu terno de casimira com listras, a camisa abotoada até o pescoço. Está faceirinho e o domingo combina com o passeio – é um domingo ensolarado, azulíssimo. A filha, que trouxe também os seus dois meninos, quer que seja uma tarde memorável. Pois há de ser, há de ser…
Por Flávio José Cardozo

A história dessa viagem de avião começou há coisa de um mês. Um dia, de volta da cidade, ele chegou em casa, nos Ratones, dizendo à mulher que os dois iam passear de avião no primeiro domingo bom que fizesse.
– Que avião, homem doido?
Pediu que ela tivesse calma, não se assustasse. Era um avião que botaram ali na Beira-mar, um avião velho que não voava mais, que foi agora transformado em bar, mas era tão bonito como aqueles que, com deslumbramento, ia de vez em quando ver no aeroporto. A mulher disse que não queria nada com aquilo, Deus que a livrasse dessa coisa chamada avião.
– Não tem perigo nenhum, sua boba. Não sai do chão. É só pra gente ver como é que é um avião por dentro.
– Não vou.
Tanto, tanto insistiu que a mulher resolveu ir falar com a filha, na cidade. Será que ela não pegava o pai e não ia com ele e as crianças no tal avião, só pra acabar duma vez com aquela cisma? A filha riu. Depois, enternecida, quase chorou com o pedido: a loucura do pai pelos aviões, o eterno pasmo dele sempre que via um alçando vôo, o desejo de ainda viajar num deles, nem que fosse até Curitiba, onde morava um irmão. A filha disse então à mãe que ele podia vir já no próximo domingo. Tomara que não chovesse.
Ora, pois aí está o homem, enfatiotado, à sombra do avião. É a primeira vez que chega assim perto desse aparelho por ele nunca entendido na sua grandeza, nos seus poderes. De longe, quando ia ao aeroporto, não tinha nunca uma idéia do verdadeiro tamanho do bicho, só sentia um aperto na garganta quando o via empinar a cabeça, ganhar altura, se perder longe como um passarinho, no rumo de Porto Alegre ou de Curitiba. Sabe que não vai a Curitiba, mesmo porque o irmão até já morreu. Sabe que não vai voar coisa nenhuma, que aquilo é tão-somente um bar, mas sobe a escada sentindo uma tremura.
Aí está ele, ansioso, na porta de um avião. Um avião que não voa mais, tudo bem, mas eis um momento único. Vem a doçura de pensar que está na pista do aeroporto, de que não veio só para beber um guaraná com a filha e os dois netos, que vai mesmo a Curitiba. Em minutos, os prédios serão, como ouve dizer desde garoto, uns caixotezinhos, os homens lá embaixo umas formigas.
A filha bate uma foto de lembrança. Brincando, pergunta ao pai se ele trouxe remédio para não enjoar na viagem. Ele responde que não trouxe e se atropela com os netos para pegar lugar numa janela que dê para a avenida.
Azulíssimo céu de brigadeiro. A tarde é feliz. A filha ri, depois quase chora vendo aquelas três crianças.
(Do livro Senhora do meu Desterro, Florianópolis, Lundardelli / Fundação Franklin Cascaes, 1991)


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