Bruxas Soltas no Rádio

Publicado em: 10/03/2005

A peça completa radiofônica mais famosa de todos os tempos foi A Guerra dos Mundos, transmitida em 30 de outubro de 1938 pela CBS (Columbia Broadcasting System) de Nova Iorque, dentro do horário Teatro Mercúrio no Ar.
Por Ricardo Medeiros, de FlorianópolisEra uma ficção científica que narrava a invasão da terra pelos marcianos, que desembarcavam numa fazenda de Nova Jersey, provocando pânico na população. Por detrás desses horrores dramatizados estavam três personalidades: Herbert George Wells, Orson Welles e Howard Koch.


Orson Wells

O escritor inglês Herbert George Wells (1866-1946) foi o responsável por conceber e publicar em forma de folhetins o romance A Guerra dos Mundos na revista Pearson’s Magazine, entre abril e novembro de 1897, obra que um ano mais tarde se transformava em livro. Homem de extrema sensibilidade e visionário, Wells previu, numa Inglaterra que andava a cavalos e iluminação à base de lampião à gás, uma história de seres de outro planeta tomando a terra como refém através de raios laser, máquinas voadoras, armas químicas e outras parafernálias, concebidas verdadeiramente anos após a confecção do trabalho literário do escritor.

Por sua vez, Howard Koch (1901-1995) estava envolvido no episódio da Guerra dos Mundos por ter adaptado a obra para o rádio e Orson Wells (1915-1985), como diretor de teatro da CBS, por ter ousado em colocar no ar a suposta invasão que colocou em pânico cerca de 1 milhão de pessoas, dos 6 milhões ouvintes da emissora.

Orson Wells, antes de A Guerra dos Mundos, já havia encenado O Conde de Monte Cristo, Sherlock Holmes e A Volta do Mundo em Oitenta Dias, entre um total de 17 peças completas. A próxima atração da CBS seria o famoso radioteatro cuja temática era os marcianos, exatamente no Dia das Bruxas. Naquela noite de 30 de outubro de 1938, um domingo, O Teatro Mercúrio no Ar iniciava com sua abertura inicial, seguido por uma previsão de tempo que indicava chuvas para as próximas 24 horas. Depois do boletim meteorológico, a programação foi interrompida para dar espaço a uma programação musical diretamente do Meridian Room, no Hotel Park Plaza, no centro de Nova Iorque, onde se apresentava Ramon Raquello e sua orquestra. Até aí não havia quase nada de estranho, visto que quando acontecia algum problema com a irradiação de uma peça completa, automaticamente entrava no lugar dessa atração um substituto. Neste caso o show musical. Porém, de tempo em tempo, a própria transmissão do Park Plaza era interrompida para informar sobre um gás incandescente de marte que vinha em direção à terra : “Às dezenove horas e quarenta minutos, hora central, o professor Farrel, do Observatório do Monte Jennings, Chicago, Illinois, informou ter observado sobre a superfície do planeta Marte, várias explosões de gás incandescente, ocorrendo em intervalos regulares. O espectroscópio indicou que o gás é hidrogênio e está se movendo, com enorme velocidade, rumo à terra. O professor Pearson, do Observatório de Princeton, confirma a observação de Farrel e descreve o fenômeno como ‘ um raio de chama azul disparado de uma arma’”.

Após um determinado momento toda a programação da CBS voltou-se para o fenômeno que vinha ocorrendo, pois os marcianos desembarcavam numa fazenda de Nova Jersey e o setor de jornalismo da estação se mobilizava para cobrir essa estranha presença na terra. Um locutor comandava a equipe do estúdio, um repórter entrevistava autoridades e cientistas enquanto um outro profissional da rádio estava na região onde a nave dos extraterrestres pousou. Com o desenrolar da suposta cobertura jornalística, os ouvintes ficaram sabendo que a terra estava sendo dominada pelos estranhos, que começavam a aniquilar os seres humanos. Milhares de norte americanos entraram em polvorosa, correndo desesperados à procura de um refúgio. As pessoas rezavam e choravam. O pânico se instalou nas cidades de Newark, Nova Iorque, além de Nova Jersey. Anos mais tarde Welles descreveu aquele momento:

“Seis minutos após entrarmos no ar, os painéis telefônicos das estações de rádio do país inteiro piscavam como árvores de natal… Fomos percebendo, enquanto prosseguíamos com a ‘destruição’ de Nova Jersey, que o número de lunáticos existente no país tinha sido subestimado”.

A Guerra dos Mundos não só provocou pânico nos Estados Unidos, mas demonstrou também o poder da interpretação de um cast de radioatores de qualidade, acompanhados da utilização harmoniosa de sons, músicas e efeitos, bem como o próprio recurso do silêncio para criar a atmosfera daquele domingo do Dia das Bruxas. Uma encenação cujos resultados até os dias de hoje são estudados por especialistas de várias áreas, como teatrólogos, comunicadores, psicólogos e sociólogos.

Aquele domingo ficou na memória também dos personagens de Woody Allen. No filme A Era do Rádio  tia Bea e o seu namorado Manullis, ao voltarem para casa dela de carro, ficaram sem combustível. Eles aproveitaram o momento para trocarem carinhos. Mas eis que ouvem no rádio : O presidente declarou estado de emergência. Espaçonaves não identificadas pousaram em New Jersey. Foi confirmada uma invasão de marcianos. O que estamos vendo é horrível. Pessoas sendo destruídas ao tentarem fugir. Não há energia elétrica. Poderemos sair do ar. Mais espaçonaves chegando”.  Ao ouvirem isso, Manullis foi o primeiro a abandonar o carro e sair em disparada. Tia Bea fez o mesmo, tendo pela frente 6 milhas de escuridão até chegar a sua casa. Um domingo onde as bruxas estavam soltas a mando de Orson Wells.

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