Cadê aquele garotão especialíssimo

Publicado em: 28/04/2012

Quem? Aquele filho da viúva Maria? Morreu. Aliás, foi assassinado, levou sete tiros e foi encontrado à beira de um caminho já em decomposição, sem documentos, levado para o Instituto de Perícias para aguardar que algum familiar depois de dar pela sua falta, viesse fazer a identificação. Coisa muito triste, muito deprimente, em todos os sentidos. Não foi apenas a sua família que acaba de ser atingida por uma tragédia desse porte. O garotão foi induzido a experimentar a droga, repetiu, repetiu, começou a sentir falta dela e a consumi-la diariamente, mas não tinha recursos financeiros para bancar o vício e não queria roubar para arranjar dinheiro. Isso mesmo, era um cara legal, de bom caráter. Tem mais, era muito querido e admirado. Mas, caiu. Não pediu socorro.

 

Bem, a gente sabe que o socorro é um grande apoio familiar e uma clínica, mas as tais clínicas cobram muito caro. Então, restou ao garotão negociar um fiado junto do fornecedor, mas não pôde honrar os prazos para o pagamento.

Aí começa o segundo drama, o drama do cara que faz o tráfico entre o fornecedor e o consumidor. O dono da droga mandou avisar: ou vem o dinheiro daquele bestinha ou você, que vendeu fiado, será castigado. Qual é castigo? Bem, aí a gente precisa entrar no submundo da droga e sai muito caro chegar lá.

E tem mais, nada de trazer aparelhos de som, celular ou jóias para amenizar a dívida, tem de ser dinheiro vivo, nem cheque vale. (Aqui entra em ação um novo capítulo desta submundo, o capítulo do receptador, que tem por extensão o comprador da coisarada a baixo preço. E lá vamos nós).

Voltamos pra história do garotão: só limpa a tua barra se apagar o cara. Apaga ele pra exemplo, manda o dono da droga, obedece o traficante.

Então o também bestinha, que faz o tráfico entre o fornecedor e o consumidor, torna-se, pela primeira e não pela última vez, assassino. Se ele ainda tinha a chance de abandonar o “serviço”, quem sabe numa função de motoboy, cobrador de ônibus ou coisa assim, agora não dá mais, ele tem um crime na consciência e não titubeará em partir para outro, outros.

Nesta pequena narrativa, duas vidas destroçadas, dois jovens expulsos da vida, duas famílias enlutadas, estraçalhadas, desgraça pura, tragédia fantástica. O primeiro foi para o cemitério, o segundo está a caminho. Não sem antes matar mais alguém.

O que eu e você temos com isso?

Bem até ontem a quase totalidade dos brasileiros, inclusive do governo, isto é, legislativo, executivo e judiciário, poderiam estar pensando: o problema não é meu, o filho não é meu. Engano bestial.

É assim que o Rio de Janeiro chegou aonde chegou. No início era só o jogo do bicho, depois veio as drogas, vieram os caça-níqueis, e tudo isso na clandestinidade tolerada. O País institucionalizou a clandestinidade, algumas disfarçadas de camelão, outras toleradas nas esquinas com a venda de mercadoria pirata, outras nas fronteiras com a entrada de armas e drogas e outras mais, você sabe, ali nos gabinetes das estatais e empreiteiras, etc. etc.

O engano bestial tem início quando o quase motoboy ou quase cobrador de ônibus pondera entre ganhar 1.000,00 por mês numa atividade lícita ou ganhar isso por semana numa atividade ilícita.

Bem, já que culturalmente cada um vale pela grana que tem, a opção se dá pela atividade ilícita. E não tem volta. Se ele é experto, chegará a chefe, depois de muitos crimes. Se ele é bobinho, acabará com a boca cheia de formiga.

Enquanto isso, eu e você vamos fechando-nos em casa, com medo de sair à rua, omisso quanto à denúncia dos movimentos que vemos acontecendo. Isso mesmo, somos reféns por opção. Erguemos o muro, pomos cachorro bravo, pomos câmeras, pomos vidros fumê no carro, pomos carro blindado, o que mais?

Aonde isso vai parar? Vai parar quando nosso filho ou neto estiver drogado e nós olhando pra polícia e achando que isso é problema dela.

Mais cadeia, mais policiais, mais traficantes, mais drogados, mais clientes do mercado clandestino, mais o quê?

E você vai ficar aí de braços cruzados esperando que a tragédia chegue à sua porta?

Eu escolho e Você escolhe?

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