Cadê o rádio que estava aqui

Publicado em: 06/07/2009

Quase dez da noite. Recostei-me no conforto de uma rede cearense, num avarandado baiano para curtir a brisa fresca do sertão nordestino, que sempre corre pela caatinga e envolve as cidades nesta época do ano.

O céu, quase sempre estrelado está encoberto por uma névoa densa da fumaça das fogueiras de S. João e, bem distante, o som de um forró pé-de-serra, possivelmente animando um arrasta-pé na praça.

Aqui, no conforto da minha rede preferida, com a cachorrada dormitando ao redor e um gralhar aqui e acolá de um carcará-mortalha confiro no meu rádio de pilha o que se passa no rádio do Brasil. Sim, porque aqui nesse “finzão” de mundo eu consigo sintonizar rádios de S. Paulo, Pernambuco, Ceará, Piauí, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia e de dezenas de cidades do interior.

Mas que triste constatação. Cadê o rádio que um dia ajudei a fazer, tão prazeroso de ouvir, criativo e de grandes talentos? Apesar de toda evolução tecnológica o nível artístico das rádios é lamentável. Correr o dial pode se tornar um roteiro insuportável e desagradável.
Mesmo nas grandes cidades e em emissoras de grande porte o nível de criatividade é sofrível. Os modelos de programa ainda são das décadas de 1960 e1970, sem a mesma qualidade e com pouca evolução, os mesmos quadros e os apresentadores mal orientados.
Muitos não sabem falar, não dominam o idioma e soltam barbaridades incríveis no ar, contrariando um dos princípios básicos do rádio que é formar e educar.

Outros notoriamente compraram seus horários para cuidar de interesses políticos menores e desembucham amontoados de asneiras, com uma convicção sólida de que os ouvintes são idiotas. Outros se investem da condição de comentaristas e destilam conceitos irresponsáveis e preconceituosos naquele velho tom de “dono-da-verdade”, sem contar com o indefectível telefone no ar, geralmente sem assunto de parte a parte.

Nas FMs as mudanças são poucas e para pior. Os religiosos já dominam boa parte desse meio de comunicação, os apresentadores histéricos e os românticos-brega continuam anunciando a pior seleção musical disponível das suas discotecas.
Aqui, indo e voltando no dial do meu rádio, sinto uma saudade imensa dos estúdios, das discussões sobre a melhor programação, das novas idéias, das pesquisas, das disputas sadias pela audiência.

Ainda recentemente recebi uma proposta para coordenar uma rádio de noticia. Fiz o projeto, considerado impecável pela matriz, mas o dono, incompetente (para não dizer irresponsável) como muitos outros presumiu que eu trabalharia de graça, além de considerar a contratação de profissionais desnecessária. Foi só um sonho presumir que um aventureiro travestido de dono de rádio pudesse ter um rasgo de lucidez e investisse na qualidade de seu produto.

Então, o que me resta, nesta preguiçosa rede cearense, num bucólico avarandado baiano, no pitoresco sertão nordestino é a frustração de não estar lá, do outro lado, fazendo o que precisa ser feito, criando, produzindo com qualidade, colocando no ar produtos bem elaborados naquela indispensável parceria com os ouvintes que, a cada dia que passa são mais desprezados e desrespeitados.

Quem sabe um dia voltem os investimentos, os diretores artísticos, os criadores de novas idéias, os novos profissionais com talento e criatividade e o reaproveitamento dos grandes profissionais hoje recostados nas redes do mundo, constatando a decadência do rádio que tanto amam, transbordando de idéias, sem ter quem invista nelas.

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