Caixas

Publicado em: 20/03/2013

Gosto muito de caixas. Grandes, pequenas, médias. Caixas em geral. Simples, complexas, quaisquer.
Olhandocaixas podemos até filosofar: uma caixa é a expressão da finitude do espaço, que ela delimita em suasdimensões. Ou: uma caixa é a ironia do infinito, que provoca no finito a impressão de que a finitude se impõe, sem desconfiar de que a própria caixaestá aprisionada, limitada, cercada de infinitude por todos os lados.
Mas, deixemos de lado essa filosofação de boteco e simplesmente admiremos as caixas. Isto é o que eu faço, observando o material de que elas são feitas: papelão, madeira, aço e mais um sem número de possibilidades, pois há caixas rígidas, flexíveis, resistentes, frágeis…
Dedico-me a observar igualmente as formas das caixas: quadradas, retangulares, circulares, oblongas, compridas, curtas, altas, baixas, num desfile de muitas e muitas formas possíveis.

Gosto de olhar as caixas de presente no romantismo de suas cores. Caixas multicoloridas ou monocromáticas, mas sempre elegantes. Presentes sempre encantam, e isto se dá a partir das caixas que os contêm.
Porque contêm, caixas escondem, com isso aguçando nossa curiosidade. Que haverá nessa caixa? E a imaginação dá voltas, tentando adivinhar o conteúdo, pelo tamanho, forma, e tipo de papel que a envolve. Mesmo quando a caixa se apresenta na nudez de seu material, sem nada que a envolva, o mistério é o mesmo: papelão, leveza; madeira, proteção para algo mais pesado; metal, proteção para alguma coisa mais pesada ainda.
Ainda que a caixa seja transparente,um certo mistério perdura: do outro lado das paredes, que delimitam mas não impedem nosso olhar, o conteúdo, embora visível, foge ao nosso alcance imediato. Aliás, vitrines ou janelas e paredes envidraçadas são isso, permitem que olhemos, não obstante impedem o livre acesso. E afinal, emparedar é confinar, é prender numa caixa.

“Caixa” é, também, denominação ampla, com sentidos literais ou metafóricos. Assim, temos caixas financeiras ou caixinhas de música; podemos ir para “caixa-prego”; num passado já remoto, míopes e usuários de pesados aparelhos de visão eram os “caixa d´óculos”; vamos iniciar a sessão musical? Então, “som na caixa”. Podemos falar, por exemplo, da onipresença e da antiguidade dos “caixotes”, um tipo especial de caixa. Podemos não nos lembrar, mas a cada respiração nossa vida depende da caixa toráxica. Caixas, e mais caixas, prezado leitor ou ouvinte. E você pode aumentar esta listagem acrescentando aquelas de que se lembrar.

Geralmente, quando falamos de “caixinhas”, transitamos pela beleza ou pela delicadeza. Mas nem sempre é assim. Basta lembrarmos as pequeninas caixas contendo veneno ou drogas destruidoras da saúde.
Se utilizarmos o aumentativo, transitamos pelas cercanias do medo e do horror. Ou não é assim quando nos lembramos que a urna mortuária, ou caixão, é o último abrigo de nosso corpo? Porém, mesmo tais caixas merecem uma atenção quase sempre vaidosa: há que fazer dos caixões não somente a última acomodação para os corpos sem vida, mas uma urna transportadora vistosa, se possível elegante, que acaba expressando na morte as diferenças sociais existentes em vida.

Gaiolas e cárceres são caixas que aprisionam; casas e edifícios são caixas de abrigo, trabalho ou lazer. Podemosimaginar, caro leitor ou ouvinte, que shoppings são grandes e feericamente iluminadas caixas compartimentadas, dentro das quais satisfazemos nossos desejos de consumo. E por aí vai, se ampliarmos nosso conceito de “caixa”.
Vou encerrar por aqui estas minhas considerações sobre caixas. E faço isso lembrando as caixas de fósforos, hoje tão associadas ao malfadado vício do fumo, mas que igualmente servem para acender o fogo, essa milenar ação que representou uma imensa conquista na longa trajetória em direção à nossa condição de seres humanos.
Será, prezado ouvinte ou leitor, que o que tudo o que eu disse aqui “se encaixa”?

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