Caloura de TV vira maior sucesso de acessos no Youtube!

Publicado em: 26/04/2009

Susan Boile pré julgada pelo júri se torna xodó mundial.

Eu tive um sonho
Que minha vida seria
Tão diferente deste inferno
Que estou vivendo
Tão diferente daquilo que parecia
E agora a vida
Matou o sonho
Que eu sonhei

(versão de um trecho de “I dreamed a dream”, de Les miserables, original postada inteira aqui)

Foi com esta música que Susan Boile surpreendeu jurados, público do auditório e telespectadores do programa “Britain’s got talent”, transmitido pelo canal ITV do Reino Unido. Em apenas uma semana, ela conquistou a posição de celebridade global com o maior número de acessos na web, participação em programas famosos da TV, provável gravação de um CD e possível aproveitamento da história de sua vida em um filme.
Susan arrebatou fãs e é figura obrigatória na mídia do mundo inteiro.
A respeito de Susan Boile, reproduzimos a seguir duas crônicas publicadas por dois grandes jornais do Brasil:

“Senhora das tempestades”, de João Pereira Coutinho
(Folha de S.Paulo – Ilustrada – terça-feira, 21 de abril)

A interpretação de Susan Boyle deu à canção uma intensidade de desabar o teatro

Toda a gente fala de Susan Boyle. Quem? Bom, talvez você, leitor, tenha vivido em Marte nos últimos dias. Mas Susan Boyle está nas bocas do mundo precisamente desde o momento em que abriu a boca.
Susan é escocesa. Tem 47 anos.

Desempregada. Solteira. Nunca foi beijada. Cuidou de mãe moribunda até 2007. Vive com um gato. Frequenta a igreja. E o coro da igreja. O aspecto não é promissor. Simplória. Aldeã.

E com demasiados sonhos na cabeça: quando entrou no palco do programa “Britain’s got talent”, mais um desses shows de TV para revelar talentos musicais anônimos, a audiência riu com seus modos um pouco grosseiros.

Um dos membros do júri, em pose condescendente, começou as hostilidades com um “What’s your name, darling?”, e “darling”, no presente contexto, é de um paternalismo arrepiante. Susan Boyle respondeu: o nome e, depois, o nome que ela gostaria de ser na música. Elaine Paige. Nem mais. A diva dos musicais londrinos que já trabalhou com toda a gente que é gente. Risos mil.

Então soltaram a música. A audiência e o júri prepararam-se para o pior. E o pior veio, mas não exatamente como eles esperavam.
Susan Boyle cantava. Bem. Demais. A música, “I dreamed a dream”, tema do musical “Les misérables”, era agora servida por capacidade vocal impressionante. Mas não apenas por capacidade vocal impressionante. A interpretação de Susan Boyle conferia à canção uma intensidade que fez desabar o teatro em choros e aplausos.

De Londres a Nova York, passando pelos milhões de internautas no YouTube, Susan Boyle é apresentada como a nova Elaine Paige.

Opinião pessoal? Não, Susan Boyle não é Elaine Paige. Nem poderia. Acredito em talento natural. Não acredito apenas em talento natural. Mesmo Mozart, um caso sem aparente explicação humana, não seria possível sem a família e o meio musical onde nasceu e cresceu capaz de fazer florescer o que já era puro gênio no pequeno Wolfgang.

Não se iludam preguiçosos e indolentes: o talento natural pode ser o primeiro passo. Mas ainda existem todos os outros para dar, em anos infindos de trabalho e solidão pessoal.

Susan Boyle é um caso de talento natural evidente. Mas o que verdadeiramente me impressionou em toda essa história não foram apenas os dotes naturais daquela voz. Também não foi o gritante abismo entre a forma e o conteúdo – ou, se preferirem, o clichê romântico do patinho feio que se revela um cisne.

O que impressionou foi a escolha da canção e as palavras que a canção encerra, um pormenor que parece ter sido ignorado pela humanidade circundante.
“I dreamed a dream”, uma das raras canções audíveis de “Les misérables”, não é apenas um tema sobre sonhos desfeitos. É um tema sobre a “sorte”, essa terrível palavra que os gregos conheciam bem, mas que a nossa modernidade racionalista eliminou do léxico filosófico.

De acordo com a ideologia reinante, o que somos, o que temos e o que fazemos depende unicamente de nós. A felicidade humana é uma construção pessoal que exige método e esforço. O que implica, inversamente, que a infelicidade é o resultado da nossa incapacidade para sermos felizes. Haverá pensamento mais perverso?

Não creio. E, no entanto, ele é repetido, dia após dia, numa sociedade que se sente infeliz por não ser feliz, como se a felicidade não fosse também um produto de contingências várias, que escapam ao controle dos homens. O produto, no fundo, de oportunidades que vieram ou não vieram; da ação ou da inação de terceiros; e das mil vidas que poderíamos ter tido.

Como no tema musical que Susan Boyle canta com a intensidade própria de quem explica a sua biografia, os nossos sonhos não dependem só da nossa autonomia. Dependem dos “tigres da noite” ou das “tempestades imprevistas” que tantas vezes os envergonham e despedaçam.

Quando a febre passar e Susan Boyle regressar à aldeia e ao anonimato, a memória que deve ficar não é a de um talento escondido que teve os seus 15 minutos, ou 15 horas, ou 15 dias de fama.

O que deve ficar é a lição grandiosa de uma mulher que, na sua tocante simplicidade, disse a cantar o que provavelmente aprendeu com a vida. Que o inferno ou o paraíso, longe de serem prêmios exclusivamente humanos, repousam também nas mãos do destino.

“Susan quer chocar você”, de Marleth Silva
(Gazeta do Povo, Curitiba – sábado, 25 de abril próximo passado)

(caricatura de Susan Boile na esquerda, texto abaixo na direita)

Seria um conto de fadas se os contos de fadas não confinassem as mulheres feias nos papéis de bruxas. A escocesa Susan Boyle não é bonita e leva uma vida modesta. Corajosa, apresentou-se em um concurso de calouros transmitido pela tevê para todo o Reino Unido e impressionou o mundo com sua voz e afinação.

Parece que todo mundo viu Susan no programa Britain’s got talent na tevê, nos jornais ou na internet. As pessoas ficam encantadas com a aparição da mulher de cabelo desgrenhado, que aparenta mais que seus 47 anos, diante de uma platéia e de um júri cruel, que riem dela.

A câmera, maldosamente, põe em destaque algumas moças do auditório que não escondem o escárnio diante da figura tão atípica para aquele ambiente de superprodução. Susan canta I dreamed a dream, do musical Os miseráveis, e seu talento faz os rostos da plateia e do júri assumirem expressões de espanto.

Na primeira vez que se vê, é emocionante. Na segunda vez, percebe-se uma sombra cinzenta por trás da “revelação do ano”. Pelo menos eu percebi.

Susan é provocadora sem querer ser. Sua figura desajeitada e ingênua, propositalmente mantida assim pelos produtores do programa, reafirma que não só os bonitos, os “fashion”, os muito jovens têm talento.

Na peneirada promovida pela indústria de entretenimento e pela mídia em geral, só sobram os que exibem imagem impecável. Ou alguém acredita que uma misteriosa combinação genética faz com que só meninas bonitas cantem bem? Tenho um palpite que, mesmo como figura exótica, Susan não teria chance em outros países.

No reino de Elisabeth II há certa flexibilidade em relação à imagem corporal. Foi lá, afinal, que a linda princesa Diana foi substituída no coração do príncipe por uma madura e pouco vaidosa Camila Parker Bowles. Preste atenção em filmes ingleses, irlandeses, escoceses e galeses: os atores são ótimos e, quase sempre, têm aparência comum ou são até bem feinhos. Definitivamente, a peneira que se usa por lá é outra.

Quem é essa tal Susan Boyle, que desrespeita uma por uma todas as regras do mundo das celebridades? Nasceu em uma cidadezinha escocesa, West Lothian. A mãe teve problemas no parto que comprometeram o desenvolvimento psicomotor de Susan e prejudicaram sua vida escolar. Ela passou a vida cuidando da mãe, que morreu, aos 91 anos, em 2007. Como não tem profissão, está desempregada e passa o tempo fazendo trabalho voluntário na igreja.

Frase dela em entrevista ao canal ITV, que promove o programa de calouros: “Ria e o mundo rirá com você. Chore e você chorará sozinho. Eu não pretendo chorar sozinha para sempre”. Definitivamente, Susan não é original, mas ousa “sonhar um sonho”, como na música que interpretou. Parece que ousa até sonhar em encontrar um companheiro!

Aqui no Brasil, onde os estereótipos que cercam a vida das mulheres são mais resistentes que a monarquia britânica, ririam dela ainda mais que aquela plateia sarcástica do Britain’s got talent.

A sombra cinza que vejo por trás da figura simpática de Susan é o uso descarado e impiedoso que os profissionais do show business vão fazer de sua imagem. Acho que não vão mudá-la tanto, pelo menos por enquanto, porque aí a brincadeira perderia a graça. Mas o produtor deve estar esfregando as mãozinhas de excitação, pensando em formas de lucrar em cima da pureza da escocesa.

Além do mais, como uma pessoa que vivia confinada em casa, cuidando da mãe idosa, sobrevive à fama mundial? A julgar pelas entrevistas que tem dado, Susan está achando tudo divertido, especialmente o assédio das crianças nas ruas de sua cidade. Pode ser que seja um daqueles casos de 15 minutos de fama. Se for assim, melhor para ela. Lidar com este assédio por muito tempo deve ser enlouquecedor, assim como ver o interesse ir minguando aos poucos.

Consigo imaginar um final feliz para Susan: passado o interesse geral por ela, terá partes em musicais de tempos em tempos, fará sucesso nos cultos da igreja de West Lothian, de vez em quando será convidada para um programa de auditório. Será para sempre uma celebridade em sua cidade. Já está de bom tamanho. Mais que isso, é perigoso.

(caricatura de Susan Boile no lado esquerdo, FINAL, DOIS PONTOS no lado direito)

FINAL, DOIS PONTOS:
1. Acima, pontos de vista diferenciados (olhares masculino e feminino) sobre a inesperada performance de Susan Boile e
2. Fica no ar a interrogação se essa notabilidade será passageira ou não.

PS – Urgente
A revista Época (nº 571, 27 de abril de 2009), na secção Primeiro Plano, destaca Susan Boile como Personagem da semana:
“A fera que virou bela com o microfone” – O que explica o sucesso na internet da escocesa revelada num programa de calouros

Parte do texto de Paulo Nogueira, de Londres:

“É uma das perguntas mais feitas em todo o mundo nos últimos dias: como entender o fenômeno Susan Boyle? As respostas são as mais variadas – e incluem até teorias conspiratórias segundo as quais tudo foi uma armação. O fato – e isso é incontestável – é que Susan Boile, contra todas as expectativas, virou quase instantaneamente uma superestrela global depois de aparecer no programa de calouros Britain´s got talent. Susan cantou no programa – um dos maiores sucessos da televisão no Reino Unido – a música ´I dreamed a dream´, do musical Les miserables.”

Obs. Os vídeos com interpretações de Susan Boile foram vistos 100 milhões de vezes na internet, segundo a mesma revista Época. Ah, existem nos quadrantes da comunicação misteriosos caminhos que a nossa vã experiência não consegue captar.

Link Relacionado

:: Youtube (legendado em português)

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