Caminhão de mudança

Publicado em: 31/10/2012

Hoje, os caminhões de mudança são imensos veículos que, de uma vez só, engolem todas as tralhas numa mudança. Além disso, são fechados, impenetráveis, escondendo tudo o que uma mudança é, sobretudo sua realidade mais essencial: a vida de uma família movendo-se, desenraizando-se e criando raízes noutro lugar. Antigamente, a mudança, além de carregar, expunha completamente os objetos da família, tornando a carroceria uma espécie de triste pedestal, que exibia os trastes, desde que saíam de uma casa até que chegavam à outra. Era o desfile que punha à mostra as entranhas de quem se mudava.

Hoje, as empresas transportadoras se encarregam de tudo: empacotamento das coisas, carregamento do caminhão, transporte, descarregamento e  desembalagem. No passado não era assim.

Mudança era um acontecimento, que começava muito antes do dia em que chegava o caminhão. Depois que a mudança era decidida, começava o longo ritual de despedida – quase sempre um sofrimento, por exigir o desapego em relação aos amigos, à casa, ao quintal, que quase sempre havia. Sofria-se porque mudar de casa era romper com o lugar habitual para encontrar o lugar desconhecido, uma incerteza.

A mudança em si era um alvoroço. Os amigos muitas vezes disfarçavam a pura curiosidade ajudando a carregar os objetos. Até acontecia de herdarem um pneu de bicicleta em bom estado, uma barraca de praia surrada, coisas assim. As amigas da dona da casa geralmente ganhavam os vasos de planta que não caberiam no quintal da nova moradia. Isto, aliás, se tornou quase sempre obrigatório quando os novos endereços passaram a ser os apartamentos, sem o espaço tão poético e essencialmente existencial dos quintais com seus jardins.

Os carregadores eram simplesmente sujeitos musculosos, e nada cuidadosos. Tinham o cuidado de um elefante numa loja de louças. Era necessário vigiar permanentemente, e gritar alertando, sob pena de aquele sofá ficar sem um dos pés ao bater no portão de saída, ou o estrado da cama ser desmantelado quando ia de encontro a um portal por onde se tentava passar com ele.

A geladeira era um capítulo à parte nessa novela da mudança. Pesada, ruim de carregar, quase sempre exigia longas discussões e muita ginástica para que saísse da cozinha, passasse pelo corredor, até ganhar a rua. E, às vezes, a meio do caminho, aquele imenso monstrengo branco voltava, aos trancos e barrancos, para sair pela porta da área de serviço, seguindo pelo lado da casa até chegar ao caminhão.

Nas famílias mais pobres, a mudança era quase sempre feita num caminhão emprestado; os carregadores eram amigos que, além da consolidação da amizade, tinham como paga uma feijoada feita de véspera e saboreada, depois do suor e do cansaço, na moradia nova, onde a dona de casa fazia das tripas coração para servir todo mundo em meio às tralhas todas desarrumadas.

Muitas vezes, vi as leis da física serem contrariadas. Quem disse que dois ou mais corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço? Era raríssima a mudança em que se podia fazer mais de uma viagem. Portanto, era preciso que tudo coubesse no espaço limitado da carroceria do caminhão. Com isso, a arrumação inicial, tão bem feitinha, era aos poucos substituída por pilhas de trastes. Uma bacia vai ser posta ali sobre aquele colchão, no canto; o botijão de gás pode ir sobre o sofá; as gavetas devem ir cheias; as vassouras vão enfiadas por debaixo da mesa; os quadros vão imprensados atrás do guarda-roupa.

Desse jeito, tudo ia cabendo, tudo ia sendo posto no caminhão como dava. O resultado era uma incrível e constrangedora arrumação, onde até urinóis viajavam à vista!

Mudanças hoje são assépticas, arrumadas demais, com tudo ordenado e catalogado, o que facilita muito na hora da arrumação na nova casa. Mas, onde a graça da confusão? Onde o jogo que, nós, crianças, gostávamos de jogar? Pois eram um jogo aquelas tentativas de encontrar a concha que sumiu e acaba sendo encontrada, pelas artes da mudança, na gaveta do móvel da sala; ou um dos pés do sapato de ir à escola que desaparecia quase como cúmplice de nosso desejo de faltar às aulas no dia seguinte ao da mudança. Ainda mais porque quase sempre era uma escola nova, outro mundo desconhecido.

Muitas semanas depois, ainda havia diversão, quando as coisas julgadas desaparecidas para sempre surgiam nos lugares mais improváveis.

A própria exposição das entranhas da casa, essa exibição pública das coisas do lar, que dava aos vizinhos pretexto para comentários e fofocas, mesmo muito tempo depois que o caminhão da mudança virava a esquina, hoje não acontece mais. Mudar, agora, é uma operação planejada, um primor de logística, que não expõe, não envergonha… e não diverte.

Se você é desse tempo, caro leitor, feche os olhos e veja, com os olhos da alma, como tem poesia naquela caótica arrumação do caminhão de mudança que vai, balançando, balançando, e seguindo pelas ruas da lembrança.

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