Cantando para Billy

Publicado em: 11/12/2010

Ruy Castro

Billy Blanco, 86, sambista brasileiro, autor de “Estatuto de Gafieira”, “Viva Meu Samba”, “Pistom de Gafieira”, “Pano legal”, “Aeromoça” e, em São Paulo, tão conhecido pelo “Vam’bora, vam’bora/ Tá na hora/ Vam’bora, vam’bora” de sua sinfonia “Paulistana”, está internado num hospital carioca desde 2 de outubro por causa de um AVC. Desde então, Billy não se mexe nem fala. Sabe-se que está consciente porque às vezes abre os olhos e chora em silêncio.

Mas chora de emoção. Seus parentes e visitas não querem se arriscar a que, por trás dos olhos fechados e do semblante tranquilo, Billy os esteja ouvindo e entendendo tudo. Por isso, em vez de se lamentarem em voz alta pela sorte do amigo, preferem cantar para ele. E, vindo de Billy, há muito o que cantar.

Doris Monteiro canta “Mocinho Bonito” e “A Banca do Distinto”, que Billy lhe deu nos anos 50. Leila Pinheiro, “Domingo Azul”. Pery Ribeiro, “Esperança Perdida”. Bilinho, filho de Billy e também cantor, põe para tocar o CD com a “Sinfonia do Rio de Janeiro”, parceria de Billy com Tom Jobim, e faz um dueto com a voz do pai. Um dos netos de Billy, Pedro Sol, faz o mesmo com outra parceria Blanco-Jobim, a safadinha “Teresa da Praia”. De repente, cantam em coro “Samba Triste” e “Se Gente Grande Soubesse”, das mais bonitas de Billy.

O hospital fica na rua Moura Brito, na Tijuca, no mesmo quarteirão e calçada onde, há 60 anos, num porão, funcionava o lendário Sinatra-Farney Fan Club. Dele saíram grandes nomes da futura bossa nova, como Johnny Alf, João Donato e Paulo Moura. Billy também o frequentava, mas não apenas pela música: estava de olho em Ruth, uma bela associada, com quem se casou -até hoje.

Muitos ali já dividiram o palco com Billy. Mas nunca esse palco pareceu tão grande, intransponível e absurdamente vazio como aquele quarto de hospital.

Folha | Editoriais | 11dez2010

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