Carnê do Baú da Felicidade – Prêmio x Lição

Publicado em: 13/11/2014

Parece que foi ontem. Já se passaram quase 30 anos. Estava com meu pai que era sócio de uma empresa que prestava manutenção a elevadores. Era uma tarde de sábado, entre 1986 ou 1987. Naquele edifico na beira mar norte encontrei num elevador um carnê do Baú da Felicidade. Quem tem mais de 30 ou 40 anos lembra o sucesso que era. Encontrei o carnê com uma quantia em dinheiro considerável, principalmente para um rapaz de 13 ou 14 anos.

Dava de comprar pelo menos uns dois Ataris, o que eu queria muito. Com o carnê entre a camisa e a bermuda encontrei meu pai que não sabia que eu havia achado o dinheiro. Chegamos ao andar térreo. Ali, uma mulher estava aos prantos e era consolada pelo porteiro do condomínio e por outra pessoa. Meu pai bondosamente perguntou o que houve. Disseram que ela era faxineira e nos finais de semana ganhava um dinheiro extra vendendo os carnês, mas havia acabado de perder tudo, incluindo o dinheiro dos clientes que haviam comprado. Pensei: “Já era meus videogames e etc.” Puxei o carnê com todo o dinheiro e devolvi. A mulher me abraçou e disse que não sabia como agradecer.

Criava os filhos sozinha e aquele dinheiro era muito importante. Sem contar que se não encontrasse teria de repor o dinheiro dos clientes que haviam comprado. Confesso que foi uma confusão de sentimentos. De um lado a frustração de não ficar com aquele dinheiro todo. Do outro a sensação de saber que aquela trabalhadora não fora prejudica por mim, afinal de contas eu havia encontrado aquilo que a pertencia.

Mas o mais marcante de tudo estava por vir. Antes de subirmos na CG de meu pai ele parou na minha frente e disse:- Filho. Quero que você saiba que estou muito orgulhoso de você. Fez a coisa certa. A honestidade é muito importante e você agiu como um homem de verdade. Agora quero que você escolha o que quiser, um lanche, cinema, você escolhe, você merece.

Aquelas palavras do meu pai valeram mais do que todo o dinheiro que eu havia encontrado. Até hoje penso em como nós pais podemos influenciar nossos filhos. Como teria sido diferente se pai meu tivesse me chamado de tolo, dizendo algo como, “Pra que devolver? Achado não é roubado”. Lições e aprendizado vindo de nossos “espelhos” são muito importantes. Aquela mulher me permitiu ganhar um prêmio; o elogio do meu pai. Ouvi-lo dizer que estava orgulho de mim.

É bem verdade que cada um na vida segue seu rumo, há o livre arbítrio. Mesmo assim os pais têm um importante papel: Mostrar o erro e apontar e valorizar o certo. Meus “espelhos” têm até hoje sido um reflexo do que quero continuar seguindo. Espero continuar fazendo o mesmo para os meus.

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