Centelhas de luz

Publicado em: 17/10/2012

Nos dias de tempestade, a mãe-natureza nos faz relembrar os tempos em que, como homens primitivos, andávamos pela savana, como coletores e caçadores, muito antes que o banho de civilização nos tornasse estes bípedes engravatados e amedrontados que somos hoje. Os raios e trovões fazem reviver em nós os medos primitivos que devem ter assaltado nossos ancestrais enquanto percorriam florestas e campos na luta pela sobrevivência. Hoje, nossa trajetória faz-nos andar noutra selva. Os arranha-céus altíssimos são como imensas árvores de aço e concreto; os aviões, são pássaros que carregam gente em suas grandes e confortáveis barrigas; os caminhos acidentados são agora ruas e avenidas, pelas quais furiosos monstros de aço, chamados automóveis, também transportando gente quase sempre apressada, deixam pouco espaço para os hominídeos convertidos em pedestres.

Mas bastam as tempestades para fazer com que descrevamos um arco de pensamento que nos leva de volta à condição de amedrontados seres humanos que tremem diante do que consideramos a fúria dos elementos.

Gosto de observar, sobretudo quando essas chuvaradas desabam no início da noite. Então, os bípedes engravatados descem de suas salas – esconderijos situados lá em cima, nas árvores da selva de concreto – e encontram as ruas alagadas. Homens e mulheres perdem a elegância, com sapatos que chapinham nas poças de água, sombrinhas que contrariam sua utilidade e se vergam com a ventania na hora em que seriam mais necessárias, embarcados em carros que, a despeito de seu belo design e seus motores potentes, simplesmente não podem andar, retidos nos engarrafamentos.

Quando a tempestade é pródiga em raios e trovões, o espetáculo torna-se ainda melhor de ver.

Embora a criatividade humana tenha inventado o para-raios, a natureza muitas vezes dribla esses anteparos e fulmina alguém. Mesmo que estatisticamente esse seja um acidente raríssimo de acontecer, se comparado a todos os perigos a que estamos expostos, cada vez que isso acontece a comoção é grande, comprovando o quanto temos vivo em nós aquele medo primitivo que sentia o desprotegido homem das savanas.

Como são lindos, no entanto, os raios que rasgam os céus.
Essas centelhas de luz e energia são de uma beleza inigualável, mostrando o contraste do seu vermelho-alaranjado com o veludo negro da noite. Num átimo de segundo, desenha-se no céu imensa força da natureza, provocando um medo ancestral no âmago de nossos corações, talvez por nos confrontarem com a finitude, a fragilidade de nossa existência, a despeito de nossa possível arrogância de homens racionais.

Os raios ainda contam com a cumplicidade dos trovões. Seu ribombar, seguindo-se à poderosa centelha de luz, completam o quadro que nos assusta, transformando-nos em miudinhos, amedrontados e simples animais humanos, exatamente como os hominídeos se sentiam há tantos milênios.

Para ficar ainda mais caracterizado nosso medo semelhante aos de nossos ancestrais da espécie humana, diante dessa mobilização dos elementos, frente à bela força e à poderosa energia dos raios, continuamos cultivando superstições, carregando amuletos e praticando atos de fé quando expostos aos fenômenos. Não é de admirar, portanto, vermos tanta gente se benzendo quando o raio cruza os céus e produz sua descarga elétrica ligando, num curto-circuito de energia, os espaços infinitos e a pequenina Terra.

O medo também leva a práticas supostamente protetoras: buscar abrigo nos prédios e casas; usar calçados de borracha e confiar no isolamento proporcionado pelos pneus dos carros; desligar aparelhos elétricos e evitar a proximidade deles… Tudo isso ajuda, tudo isso é aconselhável, mas nada protege do medo ancestral. Lá no fundo da alma somos seres amedrontados, encurralados pela própria consciência da nossa finitude, quando a natureza nos lembra disso com seus maravilhosos espetáculos.

Podemos imaginar que as centelhas de luz dos raios são os foguetes dessa festa da natureza.

Diante da beleza amedrontadora dos raios e do ruído assustador dos trovões, talvez possamos, apenas, nos recolhar à nossa insignificância, rendendo tributo às forças da natureza, enquanto estamos ainda desfrutando do presente maravilhoso que é a vida.

5 respostas
  1. Jovimari says:

    Carino,

    Muito bom de ler, e de ouvir ainda melhor. Parece até uma oração.

    Somos mesmo, amedrontados perante esses desconhecidos conhecidos fenômenos da natureza, que quando chegam nas madrugadas me fazer pular da cama e rodar pela casa, sem conseguir domir.
    ;)

  2. Maria Rita says:

    Idem. Agora fico mais calma. Não muito, é claro. Não que meu respeito pela força da natureza tenha diminuído. Mas acho que meu sono foi que aumentou.
    Há pouco tempo, ventou horrores de madrugada. O Drico tinha tido uma crise de carência e estava dormindo na minha cama. O aconchego foi bom, tínhamos conversado e dormido tarde e a temperatura do ar estava agradável. Acordei com a casa recém-limpinha com terra e folhas por todo o canto. A coisa foi feia e, com certeza, teria sentido muito medo. Sua crônica me fez lembrar do quanto teria sentido medo.

  3. José Guilherme Tavares dos Santos says:

    Lindo ! Repousante e evocativo de tempos idos da infância.

    Abraços

    JG

  4. J. Carino says:

    Obrigado, Jovimari, Maria Rita e José Guilherme. Cada qual com sua audição, com sua versão, com suas posturas e lembranças com respeito a essas forças da natureza. Mas todas demonstrando carinho e entendimento pleno do que tentei transmitir na crônica.
    Cordiais abraços.

  5. Ari Dantas says:

    “…sombrinhas que contrariam a sua utilidade e se vergam…” “…a fúria dos elementos /…/provocando um medo ancestral /…/ por nos confrontarem com a finitude da nossa existência…”

    Como eu invejo quem sabe dizer muito, de maneira bela, e com poucas palavras.

    Por coincidência, há pouco eu ouvia uma gravação da Nona Sinfonia de Beethoven, pela Orquestra e Coro da Fundação Gulbenkian (Lisboa) e tive a curiosidade de ler o que dizia a letra do 4º andamento: “Freude, schöner GötterFUNKEN,” “Oh alegria, doce CENTELHA divina,”
    E fui parar na “sua” centelha, Carino.

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