Centenário, rádio vira protagonista em catástrofes e viabiliza aulas onde conexão não chega durante pandemia

Publicado em: 29/06/2020

O radinho arrocha a sofrência dançante da banda Aviões do Forró, convidando todo mundo a arrastar as cadeiras e mesas da casa naquele canto do Sertão do Seridó.

De repente, a programação da estação Princesa da Serra é interrompida para uma aula de matemática. É hora de lápis na mão e livro na mesa porque a pandemia mostra novamente a potência de um meio de comunicação que se fortalece e se reinventa a cada crise.

Estamos na zona rural de Serra Negra do Norte, divisa do Rio Grando no Norte com a Paraíba, e Salésia da Silva coloca suas crianças diante do aparelho para escutar o programa “Educa Quarentena”, que de segunda a sexta às 15h traz lições das mais variadas matérias, com uma hora de duração. Pode ser biologia, inglês ou história.

“O rádio andava abandonado. Ligava ele uma vez por mês e olhe lá. Agora, virou nossa diversão diária. Até eu tô aprendendo muito. Soube de onde vem a palavra delivery e a diferença de dígito pra número. Minha vizinha que largou os estudos quando engravidou também não perde o programa”, se entusiasma Salésia.

Com as escolas fechadas e o acesso digital longe de ser uma realidade para boa parte da população, o rádio está se transformando no meio mais acessível de espalhar conhecimento e estimular o aprendizado durante o período de isolamento.

De norte a sul do país, prefeituras e Estados estão colocando no ar parte do currículo escolar para que os estudantes não percam o ano letivo. Do Acre ao Rio Grande do Norte ou do Maranhão ao Rio Grande do Sul, não faltam exemplos.

Lições pelo ar
No outro extremo do território, no Rio Grande do Sul, a cidade de Candelária requisitou a suas duas rádios comerciais, as FMs Sorriso e Princesa, para abrirem 10 minutos para o “Momento Educação” para que os professores das escolas locais deem uma aula curta sobre os temas que as crianças terão de fazer trabalho, além de indicar as lições, já distribuídas anteriormente para as famílias.

As aulas acontecem às 7h30, e cada dia é uma escola diferente que se dirige aos seus alunos. A ideia da prefeitura local é atingir os 2.100 estudantes do ensino fundamental. “A aula é curta, mas mantém o contato com o ambiente escolar”, disse a aluna Lais Ramos, 13.

“Nós queremos complementar a difícil tarefa de educar nesse momento conturbado, e o rádio é o meio mais democrático para isso. É a forma de atingir o maior número de pessoas possível”, afirmou o prefeito local, Paulo Butze.

Em Joinville (SC), a rádio Cultural FM, que é da prefeitura, veicula aulas desde abril para estudantes do ensino infantil até o EJA (educação para jovens e adultos). O conteúdo é elaborado pelos professores locais, que apresentam os programas junto com os jornalistas da estação. Por seu lado, o programa para os inscritos nas creches é direcionado para os pais, para que eles desenvolvam atividades com os filhos. “Pode sujar as mãos. Não tem problema” foi uma das instruções na aula de educação artística.

A vantagem do rádio é ser gratuito e local. Usando um receptor convencional ou mesmo o celular sem plano de dados (o fone de ouvido serve de “antena” para o sinal digital de FM), o ouvinte pode ter acesso ao conteúdo.

Apoio em catástrofes
Após o terremoto e tsunami de 2010 no Chile, o rádio foi o principal meio de comunicação. Tanto é assim que o governo de lá passou a distribuir para essas emergências aparelhos de bolso, com estrutura de papelão e carregado por energia solar. Por seu lado, países da África Ocidental adotaram rapidamente em 2020 as aulas por rádio para as crianças porque já vinham de experiência similar no surto de ébola de 2013 a 2016. No meio da atual pandemia, o papel de professor do rádio está presente fortemente na África, Ásia e América Latina.

“É interessante ver que mesmo numa sociedade hiperconectada e multiplataforma, diante das epidemias, catástrofes e grandes calamidades, o rádio é reconvocado ao protagonismo, dadas as suas características como dispositivo simples, barato, tradicional e de intensa capilaridade, chegando a lugares onde não é possível se pensar em internet”, opina Nair Prata, professora Universidade Federal de Ouro Preto (MG) e pesquisadora da história do rádio.

Nelia Del Bianco, professora da pós-graduação em Comunicação da UNB (Universidade Nacional de Brasília), concorda e diz que o rádio é muito menosprezado. “Os institutos de pesquisa não conseguem aferir a audiência fora das capitais e de algumas cidades médias. Portanto, a grande penetração e importância que o rádio tem no interior permanece ignorada até mesmo por parte das agências de publicidade. O meio continua forte, sendo fundamental para manter o espírito de comunidade e a coesão social.”

Onde o virtual não chega

Um em cada quatro brasileiros está offline
O número é do Cetic (Centro Regional de Estudos para Desenvolvimento da Sociedade da Informação).

86% do país é impactado pelo rádio
O dado é de pesquisa do Ibope. Em comparação, 74% da população usa a internet.

59% se conectam apenas pelo celular
Esse percentual sobe para 85% quando se leva em conta só as classes D e E — nas quais 70% têm planos com limite de dados.

Nas classes D e E, 27% estudam online
A diferença social também bate na hora de quantificar os estudos: o número vai para 60% da classe A.

Várias secretarias estaduais de educação, como as de Goiás e Maranhão, estão utilizando suas emissoras públicas de rádio e TV para veicular aulas. Del Bianco teme que pela urgência de colocar as lições no ar não houve tempo para se aproveitar o mundo acústico do rádio em prol de um programa mais atraente.

“Quando se fala em educação pelo rádio, alguns acreditam que basta ter um professor falando. Isso pode ser bem cansativo e chato. Rádio é som, o que inclui o texto, a fala, a música, os ruídos e efeitos sonoros. Cria um espaço físico e transmite sensações. Mas muitas vezes essa regra da produção radiofônica não é cumprida”, diz ela.

Ao contrário da televisão, em que as imagens são limitadas pelo tamanho da tela, as imagens do rádio são do tamanho da imaginação do ouvinte – Nelia Del Bianco, professora da pós-graduação em Comunicação da UNB (Universidade Nacional de Brasília)

Rádios educativas
O patrono do rádio brasileiro, Edgard Roquette-Pinto, dizia que esse meio de comunicação seria “a escola dos que não têm escola, o jornal de quem não sabe ler”. Na década de 1920, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada por ele, já transmitia programas educativos sobre literatura estrangeira, curso de esperanto e lições de português, geografia, história, física e química.

Na década de 1930, a Rádio-Escola Municipal tinha aulas baseadas em perguntas e respostas. A emissora carioca enviava lições pelo correio aos alunos cadastrados, que devolviam à rádio as questões respondidas. Já nos anos 1940, havia o programa Universidade do Ar, voltado a professores secundaristas com conteúdo para atuação em sala de aula. O programa era transmitido nos Estados do Rio e São Paulo.

No início da década de 1960, um projeto chamado Sirena (Sistema Rádio-Educativo Nacional) produzia, gravava e distribuía cursos básicos que eram transmitidos por emissoras de rádio.

Um dos projetos de rádio educativo de maior destaque foi o MEB (Movimento de Educação de Base), criado em 1963 e ligado à Igreja Católica. Seguindo a pedagogia de Paulo Freire, o projeto era voltado ao trabalhador rural, que recebia cartilhas para acompanhar a transmissão ao vivo das aulas. “Esse curso atuou fortemente na conscientização social e política dos participantes”, conta Prata.

Já durante a ditadura militar, o programa Projeto Minerva era transmitido obrigatoriamente por todas as rádios do país, logo após o informativo Hora do Brasil (das 20h às 20h30). Era um sistema oficial de ensino supletivo pelo rádio, voltado para adultos que não podiam frequentar aulas em cursos regulares. Pela legislação da época, as emissoras comerciais estavam obrigadas a destinar aos programas educativos cinco horas semanais, sendo 30 minutos diários, de segunda a sexta-feira.

“O programa não obteve êxito porque ficou concentrado no eixo Sul-Sudeste. Ele não respondia à diversidade cultural, costumes, sotaques, modo de vida e nem às necessidades e interesses de cada região do país. Outro problema era o horário: os alunos preferiam aulas pela manhã”, relata Del Bianco.

Um exemplo mais recente foi o programa Escola Brasil, que foi transmitido de 1997 a 2003 e depois de 2006 a 2009 pelas rádios Nacional de Brasília, Nacional da Amazônia e por mais de 100 rádios comunitárias. Com grande participação do público (chegou a receber mais de 40 mil cartas de ouvintes), a produção discutia diversos assuntos ligados a educação, tudo com muita radiodramaturgia e rica sonoplastia. Atualmente, durante a pandemia, o governo federal não disponibilizou aulas em suas estações e canais.

Mesma sintonia
A professora Del Bianco aponta que o rádio funciona bem em formatos mais narrativos, o que beneficia matérias como literatura, história ou biologia, mas é complica o ensino de temas que exijam tabelas ou mapas, como em vários tópicos da matemática, química, física e geografia.

“Um formato interessante que vem sendo experimentado pelas rádios universitárias é o velho e bom radiograma, dramatização no rádio para contar histórias significativas. Não significa ridicularizar ou fazer sensacionalismo. Mas contar histórias reais com a força da dramatização. São chamados de podcasts narrativos. Esse tipo de linguagem envolve e ajuda em aulas de história e geografia, por exemplo”, opina a professora.

O professor Elvis John contou diante dos microfones da estação Timbira como foi o surgimento e o fim da Era Vargas (1930-1945), sem dramatizar a história. A emissora pública do Maranhão está levando durante a pandemia conteúdo escolar para mais de 322 mil alunos de 1.071 colégios – as aulas também foram disponibilizadas por podcast e em vídeo na TV Assembleia e YouTube.

Em Goiás, o governo estadual estipulou videoaulas ao vivo de manhã para o ensino médio e de tarde para o ensino fundamental. O programa, elaborado pela Secretaria Estadual da Educação, passa simultaneamente na TBC (Televisão Brasil Central) e as rádios Brasil Central e RBC FM.

No Acre, desde abril os alunos têm à disposição aulas pela internet, mas o conteúdo não chegava principalmente para os estudantes nas áreas periféricas e rurais. O governo estadual decidiu então que a partir de 22 junho as classes do nível fundamental sejam transmitidas pelo canal Amazon Sat e pelas rádios Difusora e Aldeia, de Rio Branco. A ideia inicial é que o ensino à distância cubra 20% do currículo e que as aulas presenciais sejam retomadas em setembro e têm conta dos 80% restantes. Mas isso são planos.

A ideia que a educação virtual ajudaria na pandemia esbarrou em abismos tecnológicos intransponíveis, falta de computadores e internet de qualidade. Diante dessas barreiras, o rádio foi convocado. Só que isso, para o rádio, não é novo – Nair Prata, professora de Comunicação da Universidade Federal de Ouro Preto (MG)

Ondas do sertão
O rádio também tem seus limites. Apesar das reprises, ele é “real time”. O ouvinte tem que estar no momento da fala, não pode mudar a ordem das informações, nem estabelecer prioridades. O rádio é unidirecional, apesar de várias aulas, como as de Serra Negra do Norte (RN), receberem perguntas dos ouvintes para serem respondidas no momento. Ele deve ser o mais pessoal possível, porque impersonalidade favorece a dispersão do ouvinte – as crianças adoram quando escutam a voz do professor do outro lado do aparelho

No Nordeste, muitos municípios estão tentando essa fórmula. Em Alagoas, por exemplo, isso acontece na capital, Maceió, mas também em São José da Laje, cidade de 22 mil habitantes na divisa com Pernambuco. Na Paraíba, a pequena cidade de Santa Terezinha, de 4 mil moradores, também mantém o programa Saber na Conexão na FM local, para complementar ao ensino que já é feito por atividades impressas e distribuídas nas casas e orientadas pelos professores pelas conversas de Whatsapp.

Mas a experiência mais reveladora do papel do rádio na educação acontece em Caicó, no interior potiguar. Uma rádio que foi criada em 1963 para servir como transmissora de aulas radiofônicas do Movimento Escola de Base está servindo novamente para educar a população.

A Rádio Rural de Caicó foi procurada por Fabíola Dantas, assessora pedagógica da região para a EJA (Educação de Jovens e Adultos), e prontamente aprovou as aulas transmitidas de segunda à sexta às 18h50 – depois do expediente, afinal, a maioria dos alunos trabalha. São cursos de ciências humanas, ciências da natureza e matemática. E após 57 anos, a pedagogia política do pernambucano Paulo Freire voltou a ser irradiada pelos ares do sertão.

Edição: Adriana Terra; Reportagem: Rodrigo Bertolotto;

(UOL, 18/06/2020)

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *