Chaves da cidade

Publicado em: 06/04/2012

No país da piada pronta, o rei Momo ter esquecido as chaves da cidade (ele deveria devolvê-las ao prefeito no Ricaldinho da Ilha, sexta-feira passada) arrancou boas gargalhadas aqui na redação. Fiquei pensando no constrangimento geral se o alcaide precisasse abrir as portas da urbe para mandar um mensageiro a São José ou Palhoça e este fosse impedido de partir pela impossibilidade de transpor as muralhas da Capital… Seria como privar o imperador de Roma de enviar um agente ao sul da Espanha a partir da Via Aurélia, passando pela Toscana, cruzando a França, vencendo os Pirineus e chegando a uma frente do império junto ao Mediterrâneo.

Por aqui, equivaleria a Dario Berger remeter uma mensagem ao prefeito de Paulo Lopes avisando que lá chegaria, em visita oficial, no dia seguinte, numa caravela que saísse do trapiche da Beira-mar Norte. Porém, sem as chaves, o mensageiro teria que pular os muros da cidade, arriscando-se a quebrar a bacia num tombo espetacular e indesejado.

Em Roma, era comum os reis usarem os mais de 80 mil quilômetros de estradas construídas em direção a diferentes cantos do império, da Britânia a Jerusalém, para tomar conta do que ocorria nos territórios sob seus domínios. Em Floripa, o alcaide precisaria acessar as picadas de Barreiros, Biguaçu e Ganchos para saber como andavam as obras de construção da BR-101 lá pelas bandas de Tijucas. Sem as chaves, outra vez, a saída talvez fosse catapultar a mensagem a partir de algum ponto da Ilha, esperando que a resposta, devolvida da mesma forma, e com mais peso, não apanhasse um manezinho tirando a sesta da tarde.

A vantagem, diante do infortúnio do sumiço das chaves, ou de seu sequestro por um rei Momo distraído, é que nenhum invasor bárbaro entraria assim, sem sacrifícios, saqueando a cidade e seus habitantes. Gaúchos, paulistas, cariocas, joinvilenses, lageanos, todos se veriam na contingência de escalar as muralhas para entrar – e aí a defesa seria facilitada, apesar de tantos policiais estarem lotados nos gabinetes da Assembleia.

Porém, como nada é imutável, também Florianópolis sucumbiria um dia, perdendo a hegemonia de séculos, e se tornaria uma babel cosmopolita e de precária identidade. As tradições de seus moradores e as suas mordomias, as suas festas orgíacas regadas a vinho e vitelos, como as dos romanos, dariam lugar a tempos de ressentimentos e privações. Até que num belo dia o rei Momo se recusasse, peremptório e turrão, a devolver as chaves ao prefeito. Suprema desmoralização!

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *