Chiquita

Publicado em: 05/06/2006

Conheceram-se na loja de calçados em que ela trabalha desde mocinha. Está lá há uns 15 anos, talvez 20, estimada pelo patrão e pelas colegas, dedicada, bom gênio, sem queixas de ninguém, sem ninguém ter queixas dela. Os fregueses acham-na logo simpática, com seu jeito manso é uma ótima vendedora.
Por Flávio José Cardozo

No início da semana, pelas cinco da tarde, entrou na loja o cidadão grisalho e bem vestido. As outras estavam ocupadas, por acaso Francisca ficava livre naquele justo momento. “Pois não, às suas ordens.” Era um dos tantos turistas em circulação na cidade. Queria um par de tênis, já tinha visto um modelo ali na vitrine, quanto custava? Francisca pôs imediatamente em ação sua arte de cativar compradores (o patrão às vezes caçoa: “Fisgas tão bem os compradores, por que não um marido?”): imediatamente foi ver que tênis eram, informou o preço, mas não ficou só neles, botou outros no balcão, dava ao argentino tantas alternativas que a decisão com que ele havia entrado já não era a mesma. Mais: o sorriso dela estimulava o dele. Entrou meio tímido, formal, em três minutos estava à vontade, em mais três mandava embrulhar dois pares. “Leve mais um, aproveite o preço”, ela sugeriu, mas ele brincou, disse rindo que não era nenhum “pulpo”, e viu que ela não entendia o que vinha a ser “pulpo”, trocou para “ciempiés”, então ela deu sinal de ter entendido e também riu. Vendeu só os dois pares mesmo e ele se foi cordialmente.
Com quantos forasteiros, fechados ou divertidos, uma balconista desta Ilha lida numa temporada? Centenas e centenas. Gente sem nome, apenas transeuntes, altivos com a prevalência dos seus dólares, mas sempre tão bem-vindos. Bem-vindos, anônimos, passantes. Súbito, porém, alguém fica no saldo especial de um dia cheio. Francisca, de tantas vendas, foi descansar marcada pela venda daqueles tênis.
Na manhã seguinte, de bermudas, uma camisa de listras, tênis, entrou na loja o mesmo homem. Francisca o reconheceu, ele manifestou num gesto que era por ela que queria ser atendido. Foi olhar a vitrine enquanto aguardava. Enfim, ela ficou disponível. Ia levar mais dois pares de tênis, achava que estava virando um “ciempiés”, ele disse. No curso dessa nova operação, elogiou as habilidades de Francisca, exaltou-lhe a simpatia. E deu um passo ousado em seu tango: convidou-a para conversarem logo mais, beber um vinho.
“Vai”, disse-lhe a mãe, “deve ser um bom homem”. Francisca venceu a dúvida, foi. Jantaram, charlaram muito, dançaram, passava das três quando ela voltou. “É um bom homem, filha?”, indagou-lhe a mãe, na cadeira de balanço, os olhinhos apreensivos muito abertos. Francisca trazia nos cabelos um cheiro pecador de cigarro, na boca um gosto de vinho. “É, sim”, respondeu.
No começo da tarde, ele a chamou de Chiquita em voz alta, as balconistas riram, o patrão levantou os olhos. Mas Pablo vinha despedir-se. Ouviu-se falar em “otras vacaciones”. Chiquita sorria de leve, tão de leve que  parecia tristeza.
(Do livro Momentos, a publicar)


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