Choque de gerações

Publicado em: 20/05/2009

Nativos digitais já estão dominando o mundo e transformando a forma como o ser humano se comunica. Eles são capazes de ver TV, ouvir música, teclar no celular e usar o notebook, tudo ao mesmo tempo. 

Ou seja, são multitarefas. Adoram experimentar novos aplicativos, têm facilidade com blogs e lidar com múltiplos links, pulando de site em site, sem se perder. Interagem mais uns com os outros; “acessam-se” mutuamente para depois se conhecer pessoalmente. Esta é uma pequena descrição dos Nativos Digitais, termo que define os nascidos depois dos anos 80. Opondo-se a eles estão os Imigrantes Digitais, outra terminologia recente que engloba as pessoas que não nasceram na era digital mas que estão aprendendo a lidar com a tecnologia – ou, em alguns casos, até mesmo se recusando a aceitá-la.

Expressão cunhada em 2007 por Marc Prensky, pensador e desenvolvedor de games, o termo Nativos Digitais está sendo estudado como um fenômeno que pode causar impactos inclusive no mercado de trabalho. Hoje, essa geração representa 50% da população ativa (pessoas de até 25 anos), mas em 2020, com o crescimento demográfico, eles serão 80% da população.

“Se você quer entender a Geração Internet, você precisa entender o futuro. E meu filho frequentemente me lembra que o futuro é agora”.
A frase, de autoria de Don Tapscott, autor de “Grown up Digital” e também do famoso “Wikinomics” resume bem o novo conflito de gerações.

Isso porque a nova geração, também chamada de Y – termo rechaçado pela maioria dos pesquisadores – já se apropriou dos meios digitais e, agora, se comunica e se informa, age e até pensa de forma “diferente” (confira as principais diferenças entre as gerações na próxima página).

Luíza Mitke, hoje com 11 anos, é a típica representante da geração de Nativos. Assim como a maior parte dos seus amigos, ela passeia com naturalidade por redes sociais online, usa MSN, celular, tem email e blog – ou seja, domina a internet.

Para Luíza, a rede é apenas mais um meio, não uma assustadora novidade. Ao mesmo tempo, saca tanto de computador que foi a responsável pela inclusão digital da mãe e da avó. Dos meios “analógicos” comuns à geração anterior, só conhece a máquina de escrever, que no entanto nunca chegou a usar. Carteiro, então, ela só viu passar na rua.
– Realmente não sei como mandar uma carta direitinho – diz ela.

O especialista Volney Faustini cita uma analogia para explicar como um imigrante digital pode lidar bem (ou não) com a nova geração Web: um estrangeiro que chega no Brasil pode aprender a falar português fluentemente (com sotaque) e se sentir à vontade, “em casa”, ou viver aqui 40 anos e nunca perder o sotaque carregado e continuar se sentindo um peixe fora d’água.

Se é possível uma boa convivência? Sim, mas as diferenças vão continuar existindo.

O jornalista Fausto Rêgo, pai de Luíza, é daqueles que se enturmaram, a ponto de ter mais características de nativo digital que de imigrante.

– Apesar de ser um “nativo analógico”, fiz bem a transição.

Me encantam as possibilidades da tecnologia, a quebra de hierarquias gastas, a capacidade de fazer mais com menos. E isso tudo mesmo me assumindo um sujeito linear e seqüencial, que faz uma coisa de cada vez. Minto: até faço, mas me incomoda dar conta de várias tarefas ao mesmo tempo. Deve ser bug meu.

Para Faustini, não é bug não, é o uso da tecnologia que faz com que o imigrante se adéqüe à nova realidade. Ele cita o estudioso Malcolm Gladwell, para quem são necessárias dez mil horas para que qualquer pessoa tenha fluência em qualquer coisa – como idiomas em geral e a linguagem digital em particular: – O na t i v o e s t á m a i s pronto para a tecnologia. Estudos indicam que nossos filhos têm plasticidade cerebral diferente da nossa. O que pode explicar que ele seja capaz de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, como assistir TV com fone no ouvido e teclando no PC – diz Faustini.

O pensador e especialista em computação Silvio Meira cita o “tecnólogo” inglês Douglas Adams para explicar a geração nativa digital.

Disse Adams que “tudo o que existe quando você nasceu é absolutamente normal para você”.

– Tenho email há 28 anos.

Não sou imigrante, faço parte da tecnologia. A questão não é de idade ou de percepção, e sim de entender a mudança de cenário – diz Silvio.
Lembra ele que a tecnologia é rápida demais, e que é necessário correr atrás.

– A cada 18 meses dobra a capacidade de processamento dos micros; a cada 12 meses, a de armazenamento; já a velocidade de transmissão de dados dobra a cada nove meses, enquanto o preço de tudo permanece o mesmo. Na hora em que se percebe isso, é preciso se perguntar: “onde estou?”.

Muita gente espera que a tecnologia esteja aí pelo menos por dez anos até se adaptar a ela, como foi com a internet.

Aí vem uma geração nova que vai te passar para trás e tomar seu lugar – diz.
Outra que não se encaixa na categoria “imigrante” é Ana Cristina Fiedler, mãe de Bruno, de 10 anos. Embora admita que o filho é mais capaz de lidar com muitas coisas ao mesmo tempo, ela cria para si uma nova categoria: a dos “migrantes pendulares”.

– Não diria que sou uma imigrante, mas lidando com a internet a gente aprende todo dia. Talvez eu seja a tradicional migração pendular, que a gente viu nos livros escolares sobre as pessoas que moravam em Niterói e trabalhavam no Rio: vamos e voltamos todos os dias – diz ela.

A internet surgiu na vida de Ana quando ela estava entrando no mercado de trabalho e alterou completamente a forma como ela exercia suas funções.
– Isso criou uma janela de oportunidade para quem estava começando. Lembro que, naquele período, muitas vezes expliquei como as coisas funcionavam para chefes. Acho que esse aspecto é o mais interessante da internet: o F5 Luíza faz parte, diz o estudioso do assunto e consultor em Inovação e Tecnologia Volney Faustini, da geração “banhada em bits”, que está promovendo uma mudança radical na forma como o ser humano interage com o mundo.

De acordo com Faustini, é possível um imigrante digital conviver em harmonia com a nova geração, mas este nunca vai perder o “sotaque”: – Como imigrantes digitais, falamos com sotaque.

O nativo fala a linguagem digital com naturalidade e pertinência. Ele sabe inclusive ler na tela do computador.

Já o imigrante não tem a mesma desenvoltura, a mesma fluência. Não à toa, este ainda imprime emails para ler – diz o estudioso.

O Globo | Revista Digital
Colaborou Vera Lúcia Correia da Silva

1 responder
  1. Marli says:

    Muito interessante esta matéria, mostra bem os conflitos existentes entre as gerações quando se fala em tecnologia. Só uma coisa que acho importante e não foi abordado é a questão do perigo que toda essa tecnologia traz para quem não está preparado para explorar todos os seus recursos, cada vez mais observamos jovens reclusos porque vivem no mundo virtual e não conseguem mais interagir com o mundo real. Mas a tecnologia está aí, nos possibilitando ter acesso às informações muito mais rapidamente…

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