Cidade maravilhosa!

Publicado em: 10/03/2011

Nasci em fevereiro de 1987. No dia dez, para ser mais preciso, quando o grande dramaturgo alemão Bertolt Brecht faria 89 anos e a yalorixá Mãe Menininha do Gantois, 93, se ainda vivessem. Já o cantor Cauby Peixoto comemorava suas 53 primaveras e o caçula, Humberto Werneck, grande jornalista que Minas deu ao Brasil, apenas 42. Na verdade o caçula era eu, que apenas nascia e, como se vê, o mundo já rolava solto ao contrário do que entendem as crianças sobre um dito sistema de gerações.

Há outros aquarianos rondando minha vida, alguns mais de perto, é verdade. Muitos deles, carnavalescos como o mês de fevereiro. E bem ao contrário de mim, que nunca concebi a ideia de pular marchinhas no pequeno clube da cidade dos meus avós, onde passávamos os feriados – senão de cantá-las sobre o palco do recinto, mas isso nunca ninguém me chamou para fazer, nem eu ofereci meus préstimos vocais.

A começar pela total falta de sincronia com o carnaval tal qual a história do País consagrou, amalgamado à história do samba e de outras grandes manifestações populares diversas, as festas de Ribeirão Claro (PR) não passavam – e não passam – de bailes regados a pagodes, axés e funks da grande roda da indústria cultural massificada com a qual eu, embora tente às vezes – é verdade –, para não me sentir tão duro e preconceituoso com meu próprio tempo, jamais consegui me relacionar tranquilamente. Quando chegava a hora das marchinhas das décadas de 1930 e 1940, aquilo ao invés de me servir de algum alento – se é que era isso exatamente o que eu queria -, ao contrário, me soava como mera concessão para que o nome do evento pudesse ter qualquer referência ao fato carnaval, o que me preocupava.

Não estava em meus planos ser cabo eleitoral de Carmen Miranda, é bom que se diga desde já. Mas a realidade é que o incomodo real daquilo estava na superficialidade com tudo se passava. E na verdadeira ausência de critérios que as pessoas entendiam como necessária para divertirem-se. Jamais eu compreendi, talvez por ter sempre encontrado formas tão metodológicas de entretenimento. Neste ponto, aceito que eu não seja referência alguma. Sei bem de minhas excentricidades e não as pretendo como modelo de nada. Mas via como extremadas as formas sociais cotidianas daquele lugarejo. E isso se fortalecia no carnaval, quando todas as defesas psíquicas costumam ser suspensas em nome da descontração de todo um ano vivido às duras penas, no trabalho diário. Aquele descontrole me deixava alerta para o potencial autodestruidor do homem, e essa sensação física me marcou a alma para todo sempre, de forma que posso dizer que não sou nada familiarizado com a grande manifestação cultural própria do mês em que nasci, e do meu Brasil – embora neste ano de 2011, tenhamos comemorado em março.

Gosto das belas mulatas expondo a riqueza de nossa herança africana nos quadris. Gosto do samba em todas as formas que o rito de tristeza negro o consagrou nesta nação miscigenada e sincrética. Amo a materialização dessa herança em nossa cultura musical popular, e principalmente os artistas que encabeçaram décadas deste cancioneiro visto por muitos como um dos mais ricos e vibrantes do planeta. Peço aqui minhas bênçãos à Lamartine Babo, Dalva de Oliveira, Carmen Miranda, Aurora Miranda, Mário Lago, Nássara, Chiquinha Gonzaga, Benedito Lacerda, Braguinha, Jararaca, Donga, Paulinho da Viola, Clara Nunes, Almirante, Mário Reis, Silvio Caldas, Ary Barroso, João de Barro, Haroldo Lobo, e infinitos outros.

Este texto, ao contrário do que possa parecer, em seu tom crítico, é não mais que uma declaração de amor à minha terra, pois a terra de meus avós a sinto como minha – e como eu a desejo consciente de seu valor. Também porque ela é tão vítima das transformações do tempo quanto o resto do País e do mundo, obrigada a refletir sintomas de uma modernidade que possui avanços, mas nem sempre prepara seus beneficiados para a sua correta manipulação. Talvez seja assim mesmo, e eu tenha nascido tarde demais. Quem dirá? Gostaria de ter vindo ao mundo em 1932 como Luiz Carlos Paraná – lá mesmo em Ribeirão. Como seria a obra de Brecht, se, ao contrário disso, ele tivesse nascido no meu tempo?

07/03/2011 | Carnaval em São Paulo

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *