Cinqüenta anos se foram, parece que foi ontem…

Publicado em: 23/11/2008

Estou comemorando o qüinquagésimo aniversário de minha primeira direção de rádio. Foi numa pequena emissora que se tornou grande e liderou a audiência em Curitiba no fim dos anos 50 e início dos anos 60. Tocando só música, ou melhor tocando “só boa música”.
Em 1958, fui contratado como programador musical da Rádio Colombo, do radiodifusor Ronald Stresser, que também era concessionário da Rádio Ouro Verde, ambas de Curitiba. Com apenas alguns meses de trabalho na Colombo, Ronald me fez uma proposta, na verdade um grande desafio: colocava nas minhas mãos o futuro da pequenina Ouro Verde.

Vinícius Coelho, a direita e eu, na apresentação de Varig é dona da Noite, programa de grande audiência nos bons tempos da Rádio Colombo. Vinícius, hoje, atua como comentarista esportivo do jornal Tribuna do Paraná, de Curitiba.

A Ouro Verde falava com 250 watts para a Praça Tiradentes e “cochichava” para alguns bairros da cidade. Ocupava acanhadas dependências: a técnica, o estúdio de locução, e dividia a discoteca com a Colombo, num andar inteiro do edifício Pugsley, na Rua Monsenhor Celso, esquina com Marechal Deodoro. Técnica e estúdio não tinham nenhum tratamento acústico.

Ronald Stresser, desde que adquiriu o controle acionário da Ouro Verde, já havia tentado vários tipos de programação, até o de rádio 100% esportiva, sem nenhum sucesso. Penso que ele estava “nem aí” pelo que pudesse acontecer naquela desconstruída rádio ao me oferecer a sua direção, desde que dedicasse parte de meu tempo a Colombo.

De Ronald, obtive a promessa de alguns investimentos em equipamentos modernos para o estúdio e de um novo transmissor, mais potente. De 250 watts para 1 kilowatt, foi um pulo. Minha programação “só música, boa música”, informação e hora certa começava a incomodar as outras emissoras. No carnaval de 1960, conseguimos duas boas conquistas: a instalação de novas dependências da emissora num primeiro andar inteiro, situado na Rua José Loureiro, e melhor transmissão através de um novo transmissor de 5 kilowatts, de “alta fidelidade absoluta”.

O primeiro cartão de visita a gente não esquece...

A par dessas duas grandes realizações, me desliguei por completo da Colombo e me dediquei ainda mais à Ouro Verde, agora já com “pinta” de grande rádio disputando o primeiro lugar de audiência em Curitiba. A consagração definitiva veio com um jingle que “vendia” a própria rádio (talvez tenha sido o primeiro do rádio brasileiro). Foi uma produção minha em parceria com Maugeri Neto, finalizada nos estúdios da RGE, na Rua Paula Souza em São Paulo, localizados no mesmo prédio onde estava localizada a Rádio Bandeirantes.

Grande orquestra dirigida pelo maestro Pocho e o vocal maravilhoso de Os Titulares do Ritmo (conjunto integrado só por cegos) interpretavam “Ouro Verde… Ouro Verde… Só música, boa música… Ouro Verde… Ouro Verde…” Versos que a cidade passou a cantar. Confesso que, hoje, relembrando aquela ocasião, sinto muita saudade.

Meu amor e entusiasmo pela Ouro Verde eram tão grandes que nos 4 anos em que fui seu diretor jamais me preocupei com salário. Ronald Stresser aumentava meus vencimentos de acordo com sua forma de administrar as rádios. Se, na época, tivesse condicionado ganhar também um percentual sobre os lucros da emissora, teria faturado muito dinheiro. A manutenção da Ouro Verde – folha de pagamento de funcionários e despesas de funcionamento – era coberta com a verba de um só cliente, a Coca-Cola, que patrocinava a “hora certa” das horas cheias.

E foi a McCan-Erickson, que cuidava da conta desse refrigerante famoso, que produziu um anúncio exaltando o primeiro lugar de audiência em Curitiba, publicado nos principais jornais. Marcou como mais uma iniciativa pioneira da Ouro Verde: antes nenhuma rádio de Curitiba havia feito um anúncio profissional, isto é, produzido por uma agência de propaganda. Isso lhe rendeu grande prestígio na mídia e bom retorno publicitário.

O sucesso estava no ar. A programação da Rádio Ouro Verde, seqüência de boas músicas, sem repetição de intérpretes durante 18 horas seguidas, só abria espaços para alguns programas como o “Pick-Up Automático” (meia hora sem comerciais), no qual era proibido falar, “Estas são as Preferidas”, “Você faz o Programa” e “Domingo sem Futebol”, este apresentado no horário em que as outras rádios transmitiam jogos.

Em 1961, atendi a um chamado do superintendente Ronald Stresser me convocando para outra missão. Ele viajaria para os EUA, onde faria um curso de televisão (também era diretor do canal 6, TV Paraná, das Associadas). Relutei bastante, mas os argumentos dele venceram minha resistência e aceitei, além de dirigir a Ouro Verde, supervisionar também a Rádio Colombo, enquanto durasse sua permanência nos Estados Unidos.

A Colombo, na ocasião, ao contrário da Ouro Verde, vivia momentos de instabilidade em faturamento e ia mal de audiência, mesmo apresentando programas de disc-jockeys, de radioteatro, noticiários e transmissões esportivas.  Com a ida de Ronald para a TV, houve descaso e o ouvinte se desligou dos 1.020 kilociclos.

Quando aceitei esse encargo houve uma promessa de Ronald de que seu pai, Sr. Aderbal Stresser, daria cobertura financeira para que eu pudesse superar a crise de funcionários descontentes com atraso de pagamento. Isso não ocorreu e, no mês de agosto, com a renúncia do presidente Jânio Quadros, a situação da rádio piorou ainda mais.

Em dezembro, Pedro Sartorelli, então diretor comercial da Colombo, e eu tivemos que nos desdobrar para aliviar a situação dos funcionários nas festas de fim de ano.  A todos, concedemos dois vales, um em dinheiro e outro para retirar mercadorias em dois supermercados que anunciavam na rádio. E Ronald Stresser já havia retornado dos EUA, mas ainda não tinha tido tempo (sic) para ouvir meu relato sobre a grave situação por que passava a Colombo. Naquele 24 de dezembro, deixei uma anotação no quadro de avisos da emissora informando que estava me afastando daquela direção provisória.

Os feriados de fim de ano me deram tempo para maturar uma decisão: devia procurar um novo lugar para trabalhar, onde empregador e empregados tivessem obrigações e respeito iguais.

Dia 2 de janeiro de 1962, oito e meia da manhã, recebo a visita de Ronald na Rádio Ouro Verde. Sem muita conversa, e com a coragem de um leonino, pedi minha saída imediata da emissora. Ele tentou me demover dessa idéia, mas com muita convicção fui embora, lamentando ter me envolvido com a Rádio Colombo. Dei uma de salvador da pátria e me ferrei, rompendo com a minha primeira “filha” radiofônica, a Ouro Verde.

FRANK SINATRA - 1915-1998 - Se estivesse vivo, The Voice faria 93 anos no dia 12 de dezembro deste ano de 2008

Não demorou muito tempo, Ronald Stresser transferiu a Rádio Ouro Verde para um grupo político que depois repassou a emissora para o grupo liderado pelo empresário e radialista João Lídio Seiler Bettega.

Anos mais tarde, a “grife” Ouro Verde virou Ouro Verde easy e foi implantada em FM. No canal de AM, ficou a Difusora (a Ouro Verde sempre omitiu Difusora de seu nome). Essas duas emissoras, mais a Caiobá FM, fazem parte do grupo dirigido por Seiler Bettega, SIRA, Sistema Integrado de Rádio.

Durante os quatro anos em que passei na Ouro Verde, esse magnífico cantor norte-americano praticamente quase todos os dias tinha uma de suas músicas programadas, mas All The Way foi a mais tocada.

6 respostas
  1. José Eli Francisco says:

    Parabéns grande Jair Brito com o qual tive a honra de trabalhar na Rádio Cultura de Joinville , na década de 60 . Obrigado pelo aprendizado . Sempre o admirei e ainda lhe considero um dos maiores radialistas deste País . Esta cidade onde você nasceu está toda feliz e lhe oferece todas as flores desta capital nacional das orquídeas :”RC é a namorada desta capital florida . Um amor prá toda a vida ” – você se lembra . José Eli Francisco .

  2. Jair Brito says:

    Meu caro José Eli Francisco,

    Conheço muita gente no rádio brasileiro – famosa ou não –, mas pra mim o que sempre importa são os caracteres. O seu DNA é de primeira.
    Estou ensaiando uma viagem ao sul, devendo parar um dia na minha terra para rever amigos e revisitar lugares de minha infância. Com certeza a gente se encontra. Um abraço do Jair, saudoso daqueles tempos de “um amor pra toda a vida”.

  3. Toninho Vaz says:

    Salve, Jair

    Meu nome é Toninho Vaz, jornalista e escritor. Sou de Curitiba onde tive uma passagem rápida (2 meses?) como estagiário da rádio Independência, a convite do Gilberto Fontoura – quando lhe conheci. Foram duas ou três conversas rápidas (uma delas, me lembro bem, no dia da morte do Charles De Gaulle), mas eu prestei bastante atenção no trabalho de voces. Você foi para São Paulo, Jovem Pan ou coisa assim…
    Fiz carreira no jornalismo. Eu trabalhava com o Aroldo Murá no Diário da Tarde. Dali fui pra Gazeta (por 2 anos), TV Globo (no Rio) onde fiquei 16 anos e reencontrei o Gilberto no canal 12. Eu era então o editor do Globo Esporte. Fui trabalhar na Globo em Nova York de onde voltei em 2000, etc etc… o resto é currículo desnecessário. Mas o motivo desta mensagem é dizer que estou escrevendo meu 5o. livro (sou autor da biografia de Paulo Leminski, o poeta curitibano), são memórias profissionais. E estou escrevendo sobre a minha rápida passagem pelo rádio.
    E queria que voce soubesse.

    grande abraço toninho vaz (na rádio me chamavam de Martins Vaz)

  4. Jair Brito says:

    Salve, salve, Toninho.

    O bom de escrever aqui é esse reencontro de gente apaixonada por rádio. O superintendente deste Caros Ouvintes autorizou convite para que VC seja um dos colunistas fixos da nossa comunidade. Seja bem-vindo com artigos sobre rádio e TV. Entre em contato com [email protected] e comigo [email protected]
    Eu, em que pese os muitos anos de janela, continuo o mesmo JB dos bons tempos da nossa Rádio Independência.

    ps. corrigindo, em São Paulo trabalhei inicialmente na rádio Bandeirantes, depois nas rádios Nacional/Globo, Tupi e Capital.Lamento não ter tido oportunidade de trabalhar na Jovem Pan, que sempre faz bom rádio.

  5. J.Pimentel says:

    Parabéns pelos seus 50 anos de direção. Nunca pude trabalhar diretamente com você. Na única oportunidade, rádio Capital de SP, infelizmente o projeto não vingou. Ainda assim, é preciso constatar que o rádio do Paraná era um dos mais bem feitos do país e deve muito disso à você. Todas as rádios que dirigiu tiveram programações inteligentes, de ampla abrangência e grande sensibilidade. Seus profissionais sempre foram bem dirigidos, sempre reproduziram no ar aquilo que vc idealizava.O rádio continua precisando de você. Está enfermo, precisando de quem o pense e o renove, por mais irônico que essa afirmativa possa ser, tendo em conta seus 50 anos de rádio. Parabéns.

  6. nagib says:

    qdo vío nome jair brito me transportei para os anos 70, onde s paulo toda escutava hélio ribeiro, na hora do almoço, com um competente jair brito por trás.

    tenho uma foto de um ônibus da copa de 62, q gostaria de te enviar p/ tirar uma dúvida.

    como faço ?

    parabéns

    nagib

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