Classe C

Publicado em: 04/07/2012

selo-cronicaAos 35 anos, quando tomou o primeiro banho de chuveiro, a reação de Eliane Silva, dona de casa de Maceió, foi inevitável: chorou copiosamente ao abrir a torneira e sentir aquela ducha tépida sobre o corpo. “Pensei que ia morrer e nunca ia ter aquilo”, declarou a uma revista semanal que foi atrás de gente que conquistou coisas antes impensáveis nestes tempos de transformação do tecido social brasileiro – transformação que levou metade da população das classes D e E para a classe C no período de seis ou sete anos. Com nome que sugere tanto pobreza quanto nobreza, outra dona de casa ganhou sua primeira geladeira aos 28 anos de idade. Joana Dark Nunes dos Santos Carneiro, de Caseara, no Tocantins, também caiu em prantos quando o marido a levou a uma loja e anunciou a compra do eletrodoméstico que deixaria para trás o trabalho de salgar ou distribuir a carne de um boi abatido para não estragar. As vendedoras não entenderam as lágrimas, mas pela primeira vez na vida Joana Dark passou a comprar verduras sem medo de estar jogando dinheiro pela janela.

Tão ou mais tocante é a história de outra moça do interior de Tocantins que conheceu seu primeiro tênis aos 26 anos e teve o direito de aposentar a sandália sem grife. Passou a ir para a roça com mais conforto, porque antes o chinelo a submetia ao contato com os espinhos e bichos de todos os tipos. Mas ela foi além: depois de um tempo, doou o tênis a uma amiga que jamais experimentara a sensação de usar um calçado confortável. Num só par, duas pessoas realizaram um sonho que para nós, acomodados moradores da cidade, parece prosaico. Leila da Silva, a agricultora dessa história, ganhou um segundo tênis, também usado e feinho, que promete usar até quando puder, sem doar ao primeiro descalçado que aparecer.

Na mesma reportagem, a revista mostrou pessoas que falavam do primeiro cruzeiro, do primeiro barco, do primeiro vinho Romanée-Conti, do primeiro sapato Louboutin, da primeira Harley-Davidson, do primeiro helicóptero. Gente que também subiu de patamar, mas que se rendeu ao consumo de itens nem sempre relevantes, do ponto de vista da necessidade, e que ajudam a minar a sustentabilidade do planeta. Mas isso é só uma questão de ponto de vista, certo?

A citada publicação está a serviço do mercado, e no meio de tantos depoimentos incluiu páginas anunciando belas camisas, relógios finos, carros de luxo, enfim, produtos que rimam com consumismo – a marca do nosso tempo. Depois da Rio+20, vamos combinar, isto soa como um passo atrás.

 

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