Coisas de Joinville

Publicado em: 07/06/2005

Têm coisas que só quem é de Joinville entende. Este é o slogan da propaganda que um banco veicula na TV. A peça publicitária mostra um homem de meia-idade, com barriga e careca acentuadas, dançando com um cabide.
Por Léo Saballa

A idéia é mostrar que o tal banco conhece as características de cada região. A intenção é boa, mas distante da realidade. O Festival de Dança é um evento cultural que atrai turistas e bailarinos forasteiros. O joinvilense até gosta, mas não anda abraçado em postes nem sapateando na chuva. Então o que retrata mais a alma de quem é de Joinville?

Que tal reunir um grupo de amigos para comer caranguejos? Égua!
Penso que assim fica mais parecido com a cara de Joinville. Coloque-se no lugar dos alemães que aqui chegaram e tinham neste crustáceo a única fonte de proteínas. Imagine o Rolf, com a pele ultra branca, todo sujo de lama, catando caranguejo na toca. Outra cena: a dona Elke quase chorando de medo para escovar aquele bicho peludo, antes de jogá-lo na panela. Foi assim que eles transformaram momentos de extrema dificuldade, quase trágicos, em inesquecíveis celebrações em volta do panelão.

Comer caranguejo exige uma preparação especial que só quem é de Joinville entende. Aliás, para ser de Joinville, não precisa necessariamente ter nascido aqui. Basta ter a alma joinvilense para entender que comer caranguejo não é apenas uma refeição. É também um pouco da nossa história. Trata-se de um ritual  com mais de 150 anos. O processo inicial passa pela seleção dos bichos. Os preferidos são procedentes de Guaratuba ou Florianópolis. Depois vem o capricho dos temperos. Tudo é feito sem pressa. Tira-se a toalha da mesa e de posse do martelinho de madeira dá-se início à uma desafinada batucada.

Alguns começam pela garra principal e outros deixam-na para a bocada derradeira. O caranguejo só entrega a carne depois de enérgicas pauladas. Bocas treinadas sugam nacos, produzindo ruídos estridentes. A luta é desigual. Mesmo assim, o caranguejo impõe ao degustador pequenos cortes nos dedos e nos lábios. De tempos em tempos alguém recolhe a montanha de cascas em cima da mesa. O prato é renovado. A cerveja gelada recupera o guerreiro para nova batalha.


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